⏯️ “É possível vencer o fascismo nas ruas”

Fala um dos corintianos que bloquearam manifestação da ultradireita na Avenida Paulista, sábado. Ele sustenta: derrotar o vírus do bolsonarismo é tão importante quanto o da covid-19; e as periferias podem agir…

Danilo Pássaro, entrevistado por Antonio Martins

Danilo Pássaro tem 27 anos, vive na quebrada de São Paulo mais atingida pela covid-19 – a Vila Brasilândia – e cursa História na USP. Corintiano, está na Gaviões da Fiel. Inquieto, ajudou a fundar a Ação Antifascista de São Paulo. Em seu espaço no Facebook, cuja foto principal retrata uma ocupação do MTST, publicou, no último domingo, um poema singelo em homenagem à mãe. Na véspera, este garoto de voz determinada, cujo perfil assemelha-se ao de tantos outros, nas periferias brasileiras, havia ajudado a sacudir o ambiente duplamente mortiço que marca as cidades brasileiras nos últimos dois meses.

A foto acima registra o ato. Danilo é um dos cerca de setenta corintianos que tomaram de surpresa a Avenida Paulista, na hora e local precisos em que grupos de ultra-direita haviam marcado uma manifestação por Bolsonaro e pela “intervenção militar”. Nem foi tão difícil, conta ele. Assim como tantas outras, a tentativa de “ato” verde-amarelo era, mais que tudo, fachada – ocasião para fotos, compartilhadas sem descanso, na maioria das vezes por robôs, nas redes sociais. Havia apenas um punhado senhores de idade, que foram devidamente ignorados. O pessoal da Gaviões da Fiel abriu a faixa e deixou o recado: Somos democracia! A imagem correu o Brasil. É possível que estimule, nos próximos dias, ações semelhantes.

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Que lições tirar, quando um grupo de rapazes é capaz de fazer, pela democracia e por um país respirável, o que partidos com dezenas de parlamentares, centenas de assessores e estrutura robusta não são? Na entrevista que acompanha este texto permite levantar pelo menos três pistas. Primeira: a turma de Danilo não abandonou a periferia das metrópoles, o espaço onde vivem hoje, seguramente, pelo menos 60% dos brasileiros. Lá, nos redutos em que a esquerda resistiu cresceu, nos anos 1970 e 80; e de que depois se afastou fisicamente, ao chegar ao poder, concentram-se hoje os evangélicos. Mas é também de lá que veio a maior parte dos votos antibolsonaristas, em todas as últimas eleições. E é que estão os movimentos culturais de resistência: os saraus periféricos, o hip-hop, o funk (vale ouvir, na entrevista, as considerações de Danilo a respeito dos bailes…).

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Segunda pista: para dialogar com as maiorias, é preciso ir muito além do possibilismo. Danilo lembra: a palavra de ordem “Fiquem em Casa” é válida – mas muito insuficiente. Nas quebradas, a grande maioria sobrevive de trabalhos informais, ou de pequenos empreendimentos. A esquerda nunca será capaz de entrar em sintonia com ela – e nem sequer de convencê-la ao distanciamento pessoal – se não apresentar propostas muito concretas para assegurar o mínimo de segurança econômica. Mas onde está a ação política consistente em favor de uma Renda Básica superior aos míseros R$ 600; do socorro aos inadimplentes; da redução forçada dos juros bancários; do socorro aos microempreendedores; da proibição das demissões aos que ainda estão na economia formal, por exemplo?

Terceira pista: num tempo de política esvaziada, o discurso não basta. A política tem de se fazer também em ações e gestos. Danilo e muitos dos que estavam no ato do sábado ajudam a articular, na Zona Norte de São Paulo (onde situa-se a Brasilândia, que, sozinha, tem 300 mil habitantes), redes de solidariedade que oferecem amparo e, em muitos casos, ajuda material às vítimas da covid-19. Isso lhes dá uma legitimidade que evidentemente falta, a quem quem comparece apenas às vésperas das eleições, em busca de votos.

Nas semanas conturbadas que virão, é ótimo saber da existência de gente como Danilo. Mesmo em meio à pandemia, as ruas poderão ser decisivas. Mas é ainda mais valioso ouvir às lições políticas que emergem da fala deste garoto que ama a mãe, as quebradas, o Corinthians e tudo o que puder nos levar além do inferno capitalista.

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