Comuns e Comunidades – ou o abismo civilizatório

O capitalismo de vigilância seria a última cepa da cultura patriarcal, que há milênios devasta Natureza e vidas? E se, diante do risco real de extinção, a saída vier do imprevisível e da partilha, numa aposta nas complexidades do mundo?

Fazemos amor com o socialismo no espaço chamado custo
e fazemos amor com o capitalismo no espaço chamado ganho.
Isso está despedaçando o mundo físico e quase todos nós.”
Dee Hock

O capitalismo está, mais uma vez, transmutando-se nestas primeiras décadas do século XXI, tal como uma entidade biológica que se adapta sempre que a sua realidade assim impõe. Desde os primeiros esboços de mercado, surgidos nas cercanias do Mediterrâneo, há doze séculos antes de Cristo, a atividade comercial sempre manteve sua capacidade de se reinventar e de se adaptar, de tempos em tempos, às adversidades que se colocavam à sua frente. Desse modo, ela foi criando novas modalidades de controle e dominação das subjetividades humanas por meio da poderosa ilusão do fetiche da mercadoria, a partir da qual o animal humano fez prevalecer seu ímpeto de domínio e destruição (Thanatos) e sufocou seus instintos de partilha e regeneração (Eros).

Não à toa, o movimento do Capital ainda é muito vigoroso nos dias atuais, na mesma região onde brotou. Cerca de 12% do comércio mundial passa pelos 193 km do Canal de Suez, que liga o Mar Mediterrâneo ao Mar Vermelho. Sua interrupção por apenas seis dias, em março de 2021, por ocasião do incidente com o megacargueiro Ever Given, de 220 mil toneladas e 400 metros de comprimento, causou instabilidade nas cadeias globais de abastecimento e chegou a estressar a economia global. O Canal de Suez foi construído entre 1859 e 1869 à custa do sacrifício estimado em torno de 130 mil das mais de 1 milhão de vidas de egípcios que lá trabalharam. Sim, o capitalismo sempre foi uma máquina não só de favorecer uma reprodução fabril de seres humanos, mas também de descartá-los sem piedade. Esta é a essência do mercado: primeiro o comércio, depois o comércio…, ad infinitum; quanto à vida, ela que procure se adaptar ao mercado.

Nos últimos 50 anos, em sua versão financeirizada e algoritmizada, que fez explodir o crescimento demográfico e, ao mesmo tempo, impor uma sociabilidade consumista a todos os rincões do globo, o capitalismo esteve também a destruir, numa velocidade fenomenal, as condições que garantem a nossa permanência no planeta, a ponto de influenciar a denominação da atual era geológica da Terra, conhecida por Antropoceno. Inclusive, essa designação – inaugurada com a Revolução Industrial no século XVIII, embora não haja consenso na comunidade científica – talvez seja totalmente inapropriada, por duas razões: primeiro, porque sua origem não deriva das forças geoevolutivas da Terra que desencadearam, de um modo muito gradual, as sucessivas eras geológicas já ocorridas; segundo, porque, como ela é uma decorrência das atividades humanas rapinantes, todos os indícios demonstram que essa fase de devastação antrópica será muitíssimo breve, não configurando, portanto, uma nova era geológica.

Quase todo o percurso civilizatório, inaugurado a partir da revolução agrícola, cerca de 12 mil anos atrás, segue essa mesma lógica de dominação e controle predatório. Apoiando-se inicialmente na força das armas de grandes impérios (Idade Antiga), depois nas contradições do cristianismo (Idade Média) e, mais recentemente, na ideia quimérica de progresso (Idade Moderna), o Homo sapiens, colocando-se no centro do Universo, chegou ao atual estágio de sociabilidade capitalista (Idade Contemporânea), o qual alcançou sua supremacia global a partir do neoliberalismo iniciado nos anos 1970 e, assim, moldou a realidade de quase toda a humanidade segundo uma visão tecnomercadológica de mundo. Nos sombrios dias atuais, a civilização vem sendo arrastada em direção a um capitalismo de hipervigilância, que começa a dispensar os regimes democráticos em favor do despotismo dos algoritmos, revelando-se cada vez mais totalitário, ecocida e suicida.

A pandemia da covid-19, por exemplo, nada mais é do que um subproduto dessa contínua destruição ambiental patrocinada pelo modo de vida capitalista predatório. Ela é resultado do que alguns especialistas em zoonoses chamam de “transbordamento” (ou efeito spillover), quando o vírus passa de um animal para o seu primeiro hospedeiro humano em decorrência de situações geradas por grandes degradações ambientais em áreas ricas em biodiversidade.

A crise sanitária provocada pela pandemia tem ocupado, desde o início de 2020, o centro das atenções acerca dos problemas mundiais e, em consequência, também tem acelerado as mudanças disruptivas no sistema capitalista que já estavam em curso desde a primeira década deste século. De um lado, ela escancarou e agravou as deficiências dos Estados-Nação no Ocidente, que já vinham sendo debilitados pela doutrina neoliberal e, de outro, potencializou o capitalismo do Estado de vigilância que já estava em curso no Oriente, a partir de países como China, Japão, Coreia, Hong Kong, Taiwan, Singapura e outros. Seja por um lado ou por outro, essa tragédia sanitária global representa um dos sintomas da crise civilizatória que desnuda o esgotamento da atual visão tecnoeconomicista de mundo, a partir da qual se tentou, após a trágica experiência do século XX, dar um novo sentido ao modo de viver da humanidade com base em um suposto “desenvolvimento econômico e tecnológico” que está a conduzir os nossos destinos em direção ao abismo.

O atual processo de degradação ambiental, que alcançou uma escala global já há um bom tempo, é e continuará sendo, de longe, o maior desafio que se apresenta para a humanidade neste século XXI. Como ainda não há nenhuma política de civilização em movimento enfrentando essa que é a questão mais premente na atualidade, continuamos sendo empurrados para uma situação de colapso climático talvez irreversível, cujos desdobramentos rumo à inviabilidade do processo civilizatório são incognoscíveis, o que inclui a projeção de cenários futuros nos quais muitos especialistas nas geociências (ciências da Terra) não descartam a possibilidade, num futuro próximo, de aniquilamento da própria raça humana. As percepções de que estamos indo em direção a um colapso civilizatório aumentam a cada dia, ainda que tenha havido muitos esforços locais no sentido de iniciar a substituição da matriz energética baseada na queima de combustíveis fósseis (esforço que por si só já se sabe hoje ser insuficiente para evitar a catástrofe climática), que impulsionou a Revolução Industrial nos últimos 200 anos, responsável por um desenvolvimento econômico mundial colossal e por uma explosão demográfica totalmente incompatíveis com a biocapacidade da Terra.

Essa possibilidade de um colapso ambiental, cada vez mais iminente, constitui o ápice e o crepúsculo de uma longa história de tentativas frustradas de controle e dominação do homem sobre a sua realidade. O diagnóstico apocalíptico em relação ao futuro da humanidade que muitos cientistas vêm fazendo está intimamente ligado ao conflito multissecular gerado por um solipsismo humano diante de uma realidade altamente interconectada, da qual não podemos escapar. Estamos chegando num estágio de esgotamento de um longuíssimo processo de construção do Homo historicus, forjado na cultura patriarcal, que permeou todo o percurso civilizatório e que se exacerbou a partir da segunda metade do século XX até os dias atuais. Essa cultura patriarcal decorre da predominância de um modo de viver, instalado há seis ou sete mil anos, que valoriza a guerra, a competição, a luta, a hierarquia, a superioridade, a procriação, o progresso, o extrativismo indiscriminado dos recursos naturais, por meio da apropriação da verdade, a partir das diversas cosmovisões de índole dominadora que prevaleceram em cada momento histórico, até chegarmos ao capitalismo atual.

Todo esse quadro de crise civilizatória aqui desenhado tem relação direta com a noção de Bens Comuns (também chamado de Comuns) e de Comunidades. Há um entrelaçamento entre essas duas noções que explica a manutenção da complexa rede de ecossistemas que sustenta a vida do nosso planeta, a qual vem sendo destruída por essa dinâmica patriarcal. Os Comuns incluem não só os recursos naturais, aqueles bens mais palpáveis como ar, água, clima, florestas, oceanos e seus biomas, mas também os bens imateriais, aqueles que dizem respeito às subjetividades humanas e permitem uma vida individual e coletiva minimamente congruente com o ambiente, como liberdades, modos de viver, democracias, culturas, saberes, afetos, dentre outros. Já as Comunidades dizem respeito às diversas formas de convivência, incluindo humanos com outros animais, que se associam dentro de um contexto de interdependência e auto-organização, numa dinâmica processual adaptativa e cooperativa sem a qual a vida no planeta Terra – o nosso maior Bem Comum e a nossa única Casa Comum – não se sustentaria.

Esses dois componentes da realidade – Comuns e Comunidades –, que só existem de forma imbricada, numa vasta rede de troca incessante de fluxos de matéria e energia, estão se degradando muito rapidamente. Por essa razão, o momento presente clama urgentemente por cuidados para que esse entrelaçamento que vem sendo rompido pela cultura patriarcal e que se exacerbou pelo atual modo de viver centrado na lógica predatória do mercado não seja inviabilizado de forma irreversível, já nas próximas décadas. Por isso o vaticínio da encíclica do Papa Francisco, a Laudato Si (2015), também reforçado na Fratelli tutti (2020): “em definitivo, precisamos de um acordo sobre os regimes de governança para toda a gama dos chamados bens comuns globais”.

Comuns ameaçados pelo ecocídio capitalista

Desde a Conferência de Estocolmo, em 1972, considerada a primeira grande reunião de líderes de Estado (reuniu 113 países e mais centenas de instituições) organizada pelas Nações Unidas (ONU), vários encontros internacionais e regionais para tratar das mudanças climáticas vêm sendo realizados sistematicamente sem que seus resultados tenham produzido pelo menos alguma mitigação da crescente crise ecológica. A partir de então, tivemos a conferência de Montreal, em 1987, para tratar da preservação da camada de ozônio; a ECO-92 (172 países) no Rio de Janeiro e suas duas reedições: a Rio +10 (189 países), em 2002, na cidade de Joanesburgo, e a Rio +20 (193 países), em 2012, novamente no Rio de Janeiro. Concomitantemente, a partir de 1995, iniciou-se, com a Conferência das Partes I (COP-1), em Berlim, uma série ininterrupta de conferências internacionais. Atualmente, encontra-se em curso a organização da COP-26, a ser sediada na cidade de Glasgow, no Reino Unido, a qual estava prevista para ocorrer em 2020 e foi adiada em razão da pandemia do coronavírus para novembro de 2021.

Todas essas conferências produziram vários protocolos, acordos e instâncias de gerenciamento climático, ao longo de quase meio século. Os mais conhecidos são a Declaração de Estocolmo (1972), a criação do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA, 1972), o Protocolo de Montreal (1987), o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, 1988), a Agenda 21 (1992), a Convenção da Biodiversidade (1992), o Protocolo de Kyoto (1996), a Declaração de Joanesburgo (2002), o Acordo de Paris (2015) e os Objetivos Globais para o Desenvolvimento Sustentável (ODS, 2015), também chamado de Agenda 2030.

No entanto, nesses quase 50 anos de tentativas de mobilização global, sob a coordenação da ONU, em busca de um tratamento adequado da crise climática, observou-se, contrariando o que se pretendia desde o início com tais iniciativas, um aumento vertiginoso de todos os indicadores que apontam para o agravamento das mudanças climáticas. A despeito de tanto tempo despendido nessas reiteradas diligências da ONU para conter o desastre ambiental que se anuncia e ainda que as mudanças climáticas venham, pouco a pouco, entrando na pauta das últimas edições do Fórum Econômico Mundial de Davos, pelo menos cinco importantes índices climáticos refletem a incapacidade do nosso sistema-mundo de tratar adequadamente o drama da crise ambiental. São eles:

1) o crescimento populacional dobrou no intervalo de apenas 45 anos (1975-2020). Conforme estimativas da ONU, passamos de 4,06 bilhões em 1975 para 7,8 bilhões em 2020. Trata-se de uma curva de crescimento exponencial sem precedentes, considerando que nos registros da série histórica tínhamos apenas 4 milhões de habitantes no planeta há 12 mil anos (antes disso as oscilações populacionais eram imperceptíveis ao longo de toda a trajetória de aproximadamente 350 mil anos do Homo Sapiens), alcançamos 1 bilhão em 1800 e depois, com o impulso de produtividade mecanizada da Revolução Industrial, saltamos para 4 bilhões em 1975;

2) segundo medições da agência americana Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA, sigla em inglês), as variações de temperatura em relação à média do século XX foram as seguintes: – 0,08º C em 1900; 0,06º C em 1970; 0,42º C em 2000; 0,72º C em 2010; e 0,98º C em 2020. Houve um aumento de temperatura de 1,08º C no período de 1970-2020, sendo que só na década passada (2011-2020) verificou-se um aumento de 0,44º C. Mantido esse ritmo, as previsões são a de que as metas firmadas no Acordo de Paris serão descumpridas em breve: a de “limitar o aumento da temperatura a até 1,5°C acima dos níveis pré-industriais”, antes de 2030; e a de “assegurar que o aumento da temperatura média global fique abaixo de 2°C acima dos níveis pré-industriais”, antes de 2040. Ou seja, uma vez mantido esse compasso, teríamos apenas 20 anos para evitar o colapso climático;

3) os níveis de concentração dos gases de efeito estufa continuam a aumentar. A concentração de CO2 (responde por cerca de 60% do efeito estufa), que nos 800 mil anos antes da era industrial havia ficado abaixo de 280 partes por milhão (ppm), passou de 290 ppm, em 1860, para 310, em 1950, alcançando o valor de 414,24 ppm em 2020. Inclusive, a agência NOAA divulgou que ultrapassamos, no mês de abril de 2021, a marca dos 421 ppm (o nível considerado minimamente seguro para evitar um colapso climático de grandes proporções é de 350 ppm);

4) o desmatamento provocado pelo crescimento exponencial da população e da economia a partir da Revolução Industrial consumiu metade das florestas da Terra. Conforme pesquisa realizada pelo ecólogo Jean-François Bastin, das 6 trilhões de árvores que existiam antes, restaram hoje em torno de três trilhões de unidades. O mais preocupante é que a atual dinâmica de desenvolvimento econômico continua destruindo 15 bilhões de árvores por ano, enquanto o ritmo de renovação natural somado ao esforço de reflorestamento é de apenas 5 bilhões de unidades, ficando uma perda anual de 10 bilhões de árvores;

5) no tocante à perda de biodiversidade, os humanos e os animais domésticos ocupam hoje 97% da área global considerada área ecúmena (área habitável), restando apenas 3% para os animais silvestres. Segundo o Relatório Planeta Vivo (2020), divulgado pelo Fundo Mundial para a Natureza (WWF), entre 1970 e 2016, as populações desses vertebrados silvestres sofreram uma redução de 68%, o que evidencia que estamos a caminho de uma nova extinção em massa da vida na Terra.

Segundo um relatório de 2019 produzido pelo Intergovernmental Science-Policy Platform on Biodiversity and Ecosystem Services (IPBES), plataforma criada em 2012, que está sob a direção de quatro organismos da ONU (UNESCO, FAO, PNUD e do PNUMA), a perda de biodiversidade global ameaça 1 milhão de espécies, o que representa 12,5% do total da biodiversidade animal e vegetal do planeta. Isso inclui 10% dos insetos, 40% dos anfíbios e 33% dos corais, tubarões e mamíferos marinhos. Ao analisar esses dados do IPBES, o professor da Unicamp, Luiz Marques, autor do livro Capitalismo e Colapso ambiental (2015), chega à conclusão de que “mantido o atual modelo econômico – global, carnívoro, poluente, excludente, antidemocrático, devastador da natureza e emissor de gases de efeito estufa –, não há que se fazer ilusões sobre nosso futuro, pois as chances de evitar um colapso das sociedades contemporâneas tendem a zero no decorrer do próximo quarto de século.”

Os dados científicos já produzidos são inequívocos. A vulnerabilidade a que estamos submetidos amplifica-se assustadoramente. Conforme muitos pesquisadores ligados às ciências da Terra vêm alertando, o crescimento exponencial da população é o indicador que reforça os demais apontados acima (temperatura global, aumento da concentração de CO2, desmatamento e perda de biodiversidade). Todos eles têm altíssimas taxas de correlação não só entre si, mas entre as diversas evidências de destruição ambiental já em curso como desertificação de vastas áreas, extinção de espécies, acidificação e degradação dos oceanos, escassez de água doce, incêndios florestais, proliferação de doenças infecciosas, migrações humanas forçadas, conflitos regionais, dentre outros desarranjos ambientais.

Para o cientista e ambientalista britânico James Lovelock, autor da Teoria de Gaia (1972), “se houvesse apenas 500 milhões de pessoas sobre a face da Terra, quase nada do que estamos fazendo agora contra o meio ambiente perturbaria Gaia.” O que esperar, então, de um planeta já altamente degradado que alcançou quase 8 bilhões de habitantes, com tendência de aumento nas próximas décadas, que sequer cogita a possibilidade de mudança no atual modo de viver capitalista? A continuar esse ritmo de crescimento populacional, não há como manter a atual dinâmica civilizatória sem que haja uma degradação do planeta em proporções irreversíveis e catastróficas para a humanidade. É desse modo que os Comuns vêm sendo ameaçados pela irracionalidade da lógica predatória do Capital.

Um “holocausto biológico”, como diz o demógrafo José Eustáquio Alves, está em curso já para as próximas décadas. A tragédia do capitalismo se dá por não considerar que a sua dinâmica é frontalmente incompatível com o metabolismo de Gaia, pois ela alimenta, no âmbito local, a tragédia da destruição dos Comuns e, no âmbito global, a destruição de condições de vida no planeta que asseguram a nossa permanência.

Comunidades ameaçadas pela sociabilidade capitalista doentia

O termo Comunidade tem sido muito utilizado para designar várias modalidades de agrupamentos, seja de indivíduos, empresas, instituições, cidades ou até mesmo de países como é o caso da Comunidade Europeia (CE), criada pelo Tratado de Maastricht (1992). Trata-se de um conceito utilizado numa perspectiva sociológica, quando um determinado agrupamento deseja socializar e compartilhar algo em comum. Mas também existe a aplicação ecológica do termo, que é quando a noção de Comunidade está associada à integração de organismos vivos e não vivos que fazem parte de um mesmo ecossistema (conceito também chamado de biocenose, biota ou comunidade biológica), na qual há uma rica interação entre seus membros, constituindo uma rede adaptativa complexa, numa incessante troca de energia e matéria.

Nesse último caso, não se trata apenas de um agrupamento de indivíduos, configurando uma população, ou uma organização social, o que chamamos de sociedade. Trata-se de um modo de viver em congruência com a complexidade do mundo real, em que atributos como diversidade, aleatoriedade, pluralidade, auto-organização, interdependência, alteridade, incerteza, flexibilidade, dentre outros, regem as relações recursivas entre os seres humanos e o seu contexto ambiental. É nesse sentido que precisamos recuperar nossa capacidade de viver em Comunidade, sobre a qual irei me referir adiante.

A dinâmica do modo de vida capitalista rompeu radicalmente essa lógica do viver em Comunidades. Uma das maiores evidências está na explosão demográfica e nos novos padrões de sociabilidade, ocorridos especialmente a partir da Revolução Industrial, que favoreceram o adensamento de grandes centros urbanos, onde predomina uma sociabilidade individualista e utilitarista mediada exclusivamente pela lógica excludente e predatória de mercado, que, por sua vez, desencadeou elevados padrões de consumo de recursos naturais e de geração de resíduos não degradáveis, à custa da ocupação indiscriminada de vastas áreas de floresta e da enorme perda de biodiversidade já mencionadas.

Somente no período de 1950 a 2020, a população urbana mundial saltou de 750 milhões (29,3% da população total) para 4,4 bilhões de pessoas (56,2% da população total). As projeções da ONU indicam que em 2050, podemos chegar a 6,7 bilhões de habitantes em áreas urbanas, representando mais de dois terços (68,4%) da população mundial. Muito provavelmente, os desarranjos socioambientais já em curso darão fim a essa dinâmica demográfica bem antes desse prazo.

Com a imposição da sociabilidade capitalista, a vida em Comunidade praticamente desapareceu para essa crescente parcela da população urbana, embora seja possível observar em países economicamente desenvolvidos algumas intervenções urbanas que procuram favorecer um ambiente minimamente sustentável, porém pouco comunitário, no sentido de criar condições para que haja uma convivencialidade que torne a vida social mais humanizada e integrada ao meio ambiente. Já nas grandes cidades do chamado Sul Global – a periferia do sistema capitalista sob o permanente condicionamento colonialista espoliador do Norte –, a situação é ainda mais emblemática. Não só a vida em Comunidade está inviabilizada, como intensificam-se os problemas socioambientais em decorrência da captura do Estado pelas forças do mercado a partir da dinâmica neoliberal, que por sua vez alimenta uma brutal e crescente desigualdade socioeconômica, além de problemas como corrupção, desemprego, pobreza extrema, fome e desnutrição, criminalidade, degradação ambiental, proliferação de doenças infecciosas, dentre outros distúrbios socioambientais.

Para compreendermos como se dá a destruição do viver em Comunidade dentro da dinâmica da sociedade neoliberal ocidental algoritmizada, vale a pena ler um artigo recente do filósofo e escritor sul-coreano, Byung-Chul Han, cujas ideias têm ganhado bastante atenção na atualidade. Ele aborda o fenômeno do cansaço gerado pela lógica capitalista da autoexploração, no qual o indivíduo tornou-se o escravo de si mesmo e de sua suposta liberdade. Segundo Han, “a ascensão do egoísmo, da atomização e do narcisismo na sociedade é um fenômeno global. As mídias sociais fazem de todos nós produtores, empreendedores cujas vidas são o negócio. Globalizam a cultura do ego que corrói a comunidade, corrói tudo o que é social.”

Algumas pesquisas científicas recentes ajudam a entender esse fenômeno de destruição do viver em Comunidade. Uma delas está no trabalho da economista estadunidense Elinor Ostrom, que conquistou, em 2009, o grande feito de ser a primeira mulher a receber o Prêmio Nobel de Economia, partilhando a premiação com o economista Oliver Williamson. Curiosamente, os dois foram laureados pelos seus trabalhos sobre os dilemas da governança econômica, sendo que, enquanto Williamson trabalhava com a interferência das hierarquias na dinâmica do mercado, Ostrom centrava sua análise na possibilidade de preservar arranjos societários já experimentados há milênios em que a auto-organização, e não a hierarquia, permitia uma relação mais sustentável entre o homem e os ecossistemas nos quais ele se insere, assegurando, assim, a preservação dos Comuns.

Nesse caso, é interessante notar o quanto a nossa visão de mundo influencia nossa relação com a realidade. Enquanto Williamson desenvolvia seus estudos na perspectiva de controle e hierarquia que está no cerne da dinâmica patriarcal do mercado, Ostrom buscava o contrário. Suas pesquisas estavam relacionadas ao dilema da “tragédia dos comuns” ou “tragédia dos recursos comuns”, exposta pelo biólogo americano Garrett Hardin (1968), a qual explica como se dá o comportamento predatório da cultura patriarcal. Hardin descreve a tragédia dos comuns nestes termos:

O pastor racional conclui que, para ele, o único caminho sensato a seguir é agregar outro animal ao seu rebanho. E outro; e outro […] Mas esta é a conclusão a que chegam um e todos os pastores racionais que compartilham um terreno comum. Aí está a tragédia: cada homem está preso a um sistema que o impulsiona a aumentar sem limites o seu rebanho – em um mundo limitado. O destino para o qual todos os homens correm é a ruína; cada um persegue seu melhor interesse próprio em uma sociedade que acredita na liberdade dos recursos comuns. Esta liberdade traz a ruína para todos.” (excerto do artigo The Tragedy of the Commons, Science, vol. 16, 13/12/1968, citado por John Gray)

A tragédia dos comuns ocorre quando, na ausência de regras e de direitos de propriedade que disciplinem e assegurem o uso racional dos recursos naturais de determinado espaço físico, as pessoas que nele vivem passam a explorá-lo orientadas apenas pelos seus interesses imediatos de extração indiscriminada desses recursos, em detrimento do interesse coletivo, o que termina por prejudicar a todos. Esse é o típico comportamento alimentado pela própria dinâmica de dominação e acumulação material da cultura patriarcal, inerente à sociabilidade produzida pelo mercado. Aquele imenso contingente de pessoas que está num patamar abaixo ou intermediário da pirâmide socioeconômica, grande parte delas em circunstâncias nas quais são destituídas de condições mínimas de oportunidade de melhoria material em razão da natureza excludente da dinâmica de mercado, termina por querer alcançar a todo custo – não raro ignorando qualquer ética de convivência pacífica –, o padrão de melhoria e segurança material alcançado por aquela minoria que se situa no topo da pirâmide.

No entanto, o fenômeno da tragédia dos comuns não é uma regra universal e atemporal. Estudando o comportamento de algumas sociedades tradicionais da época medieval, Ostrom observou que a administração dos Comuns não seguia a dinâmica observada por Hardin. Segundo Ostrom, regras normativas e direitos de propriedade não necessariamente precisavam ser estabelecidos por uma autoridade externa, seja ela o mercado ou o Estado, uma vez que já havia um contrato social implícito na tradição dessas comunidades, a partir do qual cada indivíduo nascido nessas sociedades aprendia e desenvolvia tacitamente, nas relações uns com os outros, um sentimento de coletividade e uma percepção das limitações do seu meio ambiente. Cada indivíduo sabia intuitivamente o que era ao mesmo tempo um comportamento saudável para si e para o coletivo no uso dos recursos a sua disposição.

O que o trabalho de Ostrom demonstra é que é possível existir outras sociabilidades fora da dinâmica capitalista, que não tenham necessariamente que ficar regidas por relações verticalizadas sob a tutela do mercado e do Estado. Ela constatou que já existiram e podem existir modos de viver onde as relações de poder transitam horizontalmente, com as pessoas negociando de igual para igual, de acordo com as tradições que foram se estabelecendo em suas comunidades. As pessoas são capazes de se auto-organizar, ditar suas próprias regras de convivência e manter uma utilização racional dos recursos naturais disponíveis.

Portanto, o que os estudos, tanto de Ostrom quanto de Hardin, demonstram é que a dinâmica hierárquica e normativa de mercado inevitavelmente exacerba o autointeresse em detrimento do coletivo, minando a capacidade de auto-organização que caracteriza o viver em Comunidade. Isto é, a cultura subjacente a um modo de viver é o que determina a congruência ou não de uma sociedade com a realidade na qual está inserida. E a cultura que predominou e forjou a nossa civilização, conforme dito antes, foi a cultura patriarcal de dominação dos outros e da natureza por meio da apropriação da verdade, na qual o capitalismo constitui a sua mais recente expressão.

A difícil transição para um futuro possível

Ao que parece, do ponto de vista do grande organismo vivo que é a Terra, chamado de Gaia por Lovelock, o capitalismo é como se fosse a última linhagem de um vírus ancestral chamado cultura patriarcal, surgido há seis ou sete mil anos – um tempo desprezível considerando os 4,5 bilhões de anos de Gaia – cujo hospedeiro é o ser humano. Considerando que a realidade na qual nos inserimos, que compreende uma infinidade de seres vivos e não vivos, é guiada por um processo adaptativo complexo, Gaia, para manter-se viva, provavelmente buscará sua cura expulsando o hospedeiro, caso este não o faça por sua conta. Esta, pelo menos, é a perspectiva de Lovelock, um dos que melhor estudou o metabolismo de Gaia, conforme podemos perceber no provável desfecho para crise ambiental que ele antevê:

Gaia, como a vejo, não é uma mãe apaixonada, tolerante com as más condutas, nem uma frágil e delicada donzela colocada em perigo pela brutal humanidade. Ela é severa e firme, sempre conserva o mundo quente e confortável para aqueles que obedecem as regras, mas é cruel em sua destruição daqueles que transgridem. Sua meta inconsciente é um planeta adaptado à vida. Se os seres humanos se colocam em seu caminho, serão eliminados com tão pouca piedade como a demonstrada pelo microcérebro de um míssil balístico intercontinental em pleno voo na direção do seu alvo.”

O fato é que o que orientará o futuro da humanidade nas próximas décadas não será tão diferente da mesma dinâmica que nos trouxe até aqui. O motor da história durante os últimos doze séculos tem sido a liberdade da política e do mercado, numa sucessão de guerras, massacres e destruições, entremeados por democracias que, embora frágeis e cambaleantes, conseguiram evitar a nossa autodestruição. Assim como o mercado, essa liberdade política também sempre teve um viés patriarcal. Suas bases de sustentação, todas ilusórias, oscilaram conforme o momento histórico, ora pela força das armas, ora pela fé religiosa, ora pelo progresso iluminista e, nessas duas primeiras décadas do século XXI, vem sendo orientada pelos algoritmos, emanados do Vale do Silício nos anos 1980.

Todas as regressões já experimentadas pela humanidade, que alimentaram as guerras e os massacres, sempre foram superadas por um crescente aprimoramento das técnicas e das ferramentas de controle e dominação sobre a realidade, amplificando o poder de destruição das regressões posteriores. O trágico século XX é o maior exemplo dessa dinâmica. No entanto, ao que parece, uma regressão nas circunstâncias atuais provavelmente terá um desfecho bem diferente das anteriores, embora o pensamento hegemônico aposte numa “salvação” da humanidade sob os desígnios da inteligência artificial.

As novas realidades que estão se configurando apontam para uma Terra inabitável, a ponto de não só inviabilizar a continuidade do processo civilizatório, mas também provocar a extinção da nossa espécie. Por isso, talvez somente quando estivermos mais próximos do objetivo maior do capitalismo, que é a autodestruição, o homem seja impelido a descobrir e aceitar a sua condição natural de Homo sapiens demens e, assim, tentará resgatar antigos modos de viver, quando não havia a necessidade de dominar e de controlar a natureza e de impor-lhe uma verdade.

Ao que tudo indica, a ação humana ainda continua muito distante de harmonizar-se com o pensamento de Gaia, conforme traduzido por Lovelock. Uma trágica combinação de fatores destrutivos está sendo gestada no cenário global, com enorme potencial de tornar as próximas décadas tempos de profunda regressão. Os mais visíveis são: explosão demográfica, mudanças climáticas, escassez de recursos naturais e regimes democráticos declinantes. Se a humanidade conseguir superar a barbárie que esse novo capitalismo de vigilância tende a nos reservar, alguns pensadores veem a possibilidade da longa hegemonia do mercado, após um traumático período regressivo nas próximas três ou quatro décadas, ser finalmente substituída por uma civilização orientada por uma economia relacional biocentrada, em que os Comuns e o viver em Comunidades restabeleceriam, pouco a pouco, seu entrelaçamento, num planeta altamente degradado por uma cultura patriarcal milenar.

O economista e escritor francês Jacques Attali, que foi conselheiro e assessor do governo de François Mitterrand (1981-1995), é um dos que parecem ter essa intuição de que precisamos aceitar nossa frágil condição natural e veem uma luz no fim do túnel. No seu livro Uma breve História do Futuro (Novo Século, 2006), Attali nos fornece um vislumbre bem plausível sobre o nosso futuro. Nessa obra, ele analisa a longa história do capitalismo e a partir daí, faz algumas projeções de quais seriam seus prováveis desdobramentos ainda nesta primeira metade do século XXI.

Com base nos diversos padrões, regras ou leis que ele identifica na evolução da longuíssima história da democracia de mercado, ele entende que a “cara mais verossímil do futuro” será a de que, até 2060, rebentarão, uma após a outra, três ondas do futuro:

1) o hiperimpério (entre 2035 e 2050), onde o Estado-nação será gradualmente absorvido pelas forças do mercado, representadas pelas corporações transnacionais, e substituído pela Vigilância proporcionada com o advento da revolução algorítmica iniciada nos anos 1980;

2) o hiperconflito (entre 2050 e 2060), onde uma profunda instabilidade, impulsionada por “ambições regionais”, “exércitos piratas e corsários” e a “cólera dos laicos e dos crentes”, irá desencadear guerras de toda ordem, em escala mundial; e

3) a possibilidade de uma hiperdemocracia planetária, por volta de 2060, assumindo os rumos de uma civilização devastada pelas duas ondas precedentes.

É claro que essa sua antevisão é inspirada por um grande esforço de otimismo para evitar o inferno que ele teme que o futuro pode vir a se tornar. Obviamente que Attali também considera, em sua análise, o quanto o futuro é determinado por eventos inesperados que podem alterar sua trajetória sem desviar-se, no entanto, de um fundamento que, segundo ele, permeou toda a história: “de século em século, a humanidade impõe o primado da liberdade individual sobre qualquer outro valor”. A pandemia da covid-19, por exemplo, é um desses eventos de escala planetária que podem fazer avançar (ou retardar) e alterar significativamente o fluxo da história. A partir dessa premissa de que há um impulso libertário que move a humanidade, Attalli assim expressa seu otimismo trágico:

Aproximadamente em 2060, ou mais cedo — a menos que a humanidade desapareça sob um dilúvio de bombas —, nem o Império Norte-Americano, nem o hiperconflito serão toleráveis. Novas forças, altruístas e universalistas, já atuantes hoje, tomarão o poder mundialmente, devido a uma premência ecológica, ética, econômica, cultural e política. Elas se rebelarão contra as exigências da Vigilância, do narcisismo e das normas. Conduzirão, progressivamente, a um novo equilíbrio, dessa vez planetário, entre o mercado e a democracia: a hiperdemocracia. (…) Uma nova economia, chamada relacional, que produz serviços sem procurar tirar lucros deles, se desenvolverá em concorrência com o mercado antes de neste pôr um fim, assim como o mercado pôs um termo, há alguns séculos, no feudalismo.

Nesses tempos vindouros, menos longínquos do que se crê, o mercado e a democracia, no sentido em que nós o entendemos hoje, se tornarão conceitos ultrapassados, lembranças vagas, tão difíceis de compreender como o são hoje o canibalismo ou os sacrifícios humanos.”

Para que essa antevisão de Attali torne-se realidade é necessário que mais e mais pessoas e lideranças se associem hoje àqueles que já estão trabalhando para tornar os Comuns e as Comunidades um novo modo de viver e uma nova relação sustentável com a Terra. Por isso a extrema urgência e relevância do resgate dos Comuns e do viver em Comunidades. Essa talvez represente a principal força de resistência ao atual establishment global que apostou todas as fichas no laissez faire (des)orientado pelos algoritmos, o qual só tem amplificado a degradação das democracias e aumentado a nossa vulnerabilidade.

Precisamos, mais do que nunca, buscar novas formas de cognição e convivência que nos livre do irrealismo capitalista, que nos leve a superar o sentimento de terra arrasada sugerido por essa sombria e emblemática realidade contemporânea, traduzida no pensamento do crítico literário Fredric Jameson de que “é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo”– ideia disseminada pelo escritor e filósofo Mark Fisher, autor do livro Realismo Capitalista (Autonomia Literária, 2020). Se a humanidade conseguir superar a distopia que se anuncia, equivalente às duas primeiras ondas do futuro previstas por Attali, em decorrência da combinação autodestrutiva dos dois maiores fenômenos globais atualmente em curso – mudanças climáticas e declínio dos Estados-Nação e de seus regimes democráticos –, e alçar um novo modelo civilizatório pós-capitalista e, sobretudo, pós-patriarcal, que finalmente resgate a harmonia necessária na relação Homem e Natureza, provavelmente teremos uma civilização reconciliada com a sua condição natural. Assim, os Bens Comuns e o viver em Comunidades passarão a orientar nossa caminhada incerta com um pouco mais de segurança neste minúsculo planeta azul, ao mesmo tempo frágil e vigoroso.

Para que a insanidade capitalista não nos faça esquecer por completo o que significa viver em Comunidade, encerro com o trecho de um texto seminal que traz reflexões essenciais sobre o conceito de Comunidade, a partir de uma abordagem que parece bem mais próxima da complexidade do mundo real. Trata-se de um texto do livro Nascimento da Era Caórdica (Cultrix, 2004), publicado em 1999, de autoria do americano Dee Ward Hock, fundador e Diretor Executivo Emérito da VISA Internacional.

Dee Hock é uma espécie de insurgente que, quando ingressou no mundo das corporações financeiras, no início dos anos 1950, percebeu que “vivemos uma acelerada epidemia global de fracasso institucional” e que as nossas instituições “continuam a se expandir, devorando os escassos recursos, aviltando o espírito humano e destruindo o ambiente”. Desde então, ele resolveu experimentar novos arranjos societários fora dos padrões de comando e controle e de concentração de poder e riqueza que prevaleceram na era industrial. Inclusive, para aqueles que estejam abertos a rever suas mais profundas crenças, valores e visões de mundo acerca da dinâmica da realidade que nos cerca, trata-se de uma leitura altamente recomendada.

Eis o seu entendimento sobre Comunidade:

A essência da comunidade, seu coração e alma é a troca não monetária de valor: coisas que fazemos e compartilhamos porque nos interessamos pelos outros e pelo bem do lugar. A comunidade é composta de coisas que não tentamos medir, que não guardamos no arquivo e pelas quais não pedimos recompensa. A maioria delas não conseguiríamos medir nem que tentássemos. Como não podem ser medidas, elas não podem ser avaliadas em dólares, ou em barris de óleo ou em alqueires de milho – coisas como respeito, tolerância, amor, confiança, beleza – cujo suprimento é irrestrito e ilimitado. A troca não-monetária de valor não vem apenas de motivos altruístas. Vem da compreensão profunda, intuitiva, geralmente subconsciente, de que o interesse próprio está inseparavelmente ligado ao interesse da comunidade, de que o bem individual é inseparável do bem geral, de que, de alguma forma, geralmente além de nossa compreensão, todas as coisas são, ao mesmo tempo, independentes, interdependentes e intradependentes – de que o ‘um’ singular é simultaneamente o ‘um’ plural.

(…)

Quando reina a fanfarrice do dinheiro, passamos a acreditar que a vida é um direito que contém um direito, que é o direito de obter e ter. A vida não é um direito. A vida é uma dádiva que traz uma dádiva, que é a arte de dar. E a comunidade é o lugar em que podemos dar nossas dádivas e receber as dádivas dos outros. Quando a consciência, individual e coletiva, fica receptiva a novos conceitos de organização que essa maneira de pensar implica, a sociedade e suas instituições podem entrar em harmonia com as riquezas e com a abundância do espírito humano e da Terra, da qual é parte inseparável. Essa é a voz que agora canta para nós, e a canção está começando a ser ouvida pela Terra.”

(o livro Nascimento da Era Caórdica estádisponível, tal como um Bem Comum, AQUIe o texto completo sobre o conceito de Comunidade encontra-se nas páginas 50 a 53.)


Referências

ALVES, JED. A aceleração do aquecimento global no século XXI, Ecodebate, 31/3/2021. Disponível aqui.

ALVES, JED. A concentração de CO2 é a mais alta em milhões de anos, Ecodebate, 17/3/2021. Disponível aqui.

ALVES, JED. Desmatamento e insustentabilidade da população mundial, Ecodebate, 12/2/2021. Disponível aqui.

ATTALI, Jacques. Uma breve história do futuro. São Paulo: Novo Século Editora, 2008.

COELHO, Sávio. Nobel 2009: Elinor C. Ostrom e Oliver E. Williamson, Terraço Econômico, 17/11/2020. Disponível aqui.

FRANCISCO, Papa. Carta Encíclica Laudato Si’: sobre o cuidado da casa comum. Disponível aqui.

GRAY, John. A anatomia de Gray. Rio de Janeiro: Record, 2011.

HAN, Byung-Chul. O vírus capitalista do cansaço incessante. The Nation, 12/4/2021. Disponível aqui.

HOCK, Dee. Nascimento da era caórdica. São Paulo: Cultrix, 2000.

LEAL, Bruno. Cavado no deserto: uma história do Canal de Suez, Café História, 29/3/2021. Disponível aqui.

LOVELOCK, James. As eras de gaia: a biografia da nossa terra viva. Rio de Janeiro: Campus, 1991.

MARQUES, Luiz. Ameaça de extinção atinge 12,5% do total da biodiversidade animal e vegetal do planeta. Disponível aqui.

SILVA, Juacy. Dia Mundial das Cidades e a urgência da sustentabilidade urbana, Ecodebate, 2/11/2020. Disponível aqui.

WWF. Relatório Planeta Vivo 2020: reversão da curva de perda de biodiversidade. Gland, Suíça: WWF, 2020.

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Um comentario para "Comuns e Comunidades – ou o abismo civilizatório"

  1. Kleber Merklein disse:

    Texto extremamente bem escrito e que se traduz num apelo para que olhemos com mais carinho o ser-humano, as outras espécies e o nosso planeta por uma perspectiva mais coletiva e menos individualista. Parabéns!

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