O tiro no pé das entidades médicas

Rechaçar programa do governo, sem propor alternativas, evidenciou dilemas de profissão atordoada com tecnologia e massificação do atendimento

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Jaru-RO: posto de saúde pichado em março, por moradores obrigados a percorrer 30 quilômetros até médico mais próximo

Por Lilian Terra

As entidades que em teoria representam a classe médica deram um tiro no pé. Ao se oporem ao programa “Mais Médicos”, tudo o que conseguiram foi fortalecer a imagem de elitistas e corporativistas que vem nutrindo ao longo das últimas décadas.

Nem sempre foi assim. Há não muito tempo atrás a medicina era vista como um dom, um sacerdócio. O médico era como o padre, sabia da vida das famílias que assistia – suas angústias, aflições. Era, além de cuidador, conselheiro. Mas o perfil do cuidado em saúde mudou. A tecnologia trouxe avanços de forma muito rápida e talvez o médico não tenha sabido conciliar os novos conhecimentos com a antiga e preciosa escuta do doente. Além disso, o acesso à saúde ampliou-se bem mais que a quantidade de médicos formados, de maneira que os que estavam no mercado precisaram captar os novos pacientes, em detrimento do tempo de atenção a cada um.

Hoje, temos muitas escolas médicas no país, com estudantes que buscam status e enriquecimento, mas também que buscam salvar vidas, cuidar de pessoas, independentemente de cor, credo ou classe social. Há ainda aqueles que buscam um sistema de saúde melhor e mais justo para o Brasil. Entram na faculdade entre seus 17 e 20 anos, vindos de famílias mais abastadas, de escolas particulares, tendo tido até então pouco ou nenhum contato com a pobreza, exceto aquele provocado pela violência ou pelos funcionários mais pobres da família. A faculdade precisaria fazer com que estes futuros médicos abrissem seus olhos para esta nova realidade que se apresenta.

O fato é que existe muito preconceito dentro da classe médica com o trabalho na atenção básica. O “médico do postinho” é visto como alguém inferior, que não teve sucesso em escolher uma especialidade. As residências de Saúde Coletiva, Medicina Preventiva ou Saúde da Família são menos procuradas. Todos aspiram a ser Ivo Pitangui, quase ninguém a ser Osvaldo Cruz. Quando se fala em ir para o interior ou trabalhar nos Centros de Saúde da periferia, sempre dizem que não há estrutura e condições de trabalho – o que é bem verdade, mas talvez não seja o motivo real da recusa.

Tudo isso ficou muito claro no debate acerca do Programa Mais Médicos do governo federal. As entidades erraram ao não mostrar à população que algumas alternativas já vinham sendo debatidas. Desde 2009, por exemplo, tramita no Legislativo a Proposta de Emenda Constitucional 454, cujo objetivo é instituir a Carreira de Estado para médicos. Quatro anos depois, a PEC segue sob análise de uma comissão especial. Sendo aprovada, tramitará por tempo indefinido até apreciação do plenário das duas casas do Legislativo.

A exemplo do que ocorre no Poder Judiciário, não faltariam profissionais mesmo nos locais mais remotos do país – caso houvesse uma carreira. Porém, ao invés de chamar atenção para este aspecto, as entidades médicas focaram na recusa, não nas alternativas. Não mostraram à população o desejo real, de muitos médicos brasileiros, de ir para estas unidades de saúde; mas, sim, o desejo de bloquear a vinda de estrangeiros. Demonstraram, em sua luta, mais medo de perder status e nível salarial do que de deixar a população desassistida, permitindo que o governo colocasse nos médicos a responsabilidade pela má qualidade da saúde pública.

As entidades médicas representaram bem a classe médica. Infelizmente, porém, existem profissionais que se viram abandonados pelos que deveriam representá-los – aqueles comprometidos com o SUS, que estão na luta por menos desigualdade social, por mais acesso aos serviços públicos, por mais qualidade destes serviços. Mais comprometidos que o próprio governo, que parece rejeitar a proposta de iniciativa popular que visa destinar 10% da receita bruta da União para a saúde. Ao se dirigir ao Congresso na última quarta-feira, 18/09/2013, a ministra Miriam Belchior afirmou não ser possível destinar essa fatia para o financiamento da saúde, ainda que especialistas tenham estudado previamente a proposta e que outros países destinem uma parte ainda maior de seu PIB.

Enquanto isso, as entidades médicas não tomam posição ao lado do governo ou ao lado da população. São uma terceira categoria, cada vez mais isolada. Como apontou a colunista Cláudia Colluci, em recente texto para a Folha de São Paulo, os médicos precisam se colocar “na pele de quem vive nos rincões sem assistência médica” e provavelmente este é um exercício muito difícil para jovens da classe média alta brasileira – certamente bem mais do que o das provas de vestibular.

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19 comentários para "O tiro no pé das entidades médicas"

  1. Rodrigo disse:

    Essa questão é muito complexa!Tem muitas verdades neste texto, porém, com todos as mídias de massa manipuladas pelo governo, as entidades médicas não tiveram espaço para se manifestar e apresentar as velhas soluções já concebidas. Houve uma manipulação da opinião popular muito forte, mas não foi difícil, justamente pelo fato de como uma parcela desta classe trabalhadora vinha se comportando ( como em todas as classes, falta educação neste país!!!). Outro argumento para a classe médica não ir para os rincões são os famosos calotes das prefeituras, que ocorrem com os professores também, são inúmeras as histórias. E a principal crítica ao programa é a NÃO validação do diploma, oq é um desrespeito com os médicos formados aqui, e os que prestaram a prova no passado. Fora o fatos dos tantos anos de sub financiamento do SUS, que é o principal problema da Saúde. Não ter 10% da receita bruta para a Saúde e ter 45% para pagamento de Juros aos grandes banqueiros internacionais me parece um pouco absurdo (dívida externa brasileira-criada grande parte durante a ditadura ou seja durante um governo ilegítimo). Mas no geral a Humanidade está a espera de um milagre, não somos só nós brasileiros!!

  2. Samuel disse:

    Poxa, você é médica e parece estar alienada junto com toda a população que ainda acredita no PT. A recusa da classe médica é com a vinda de médicos sem revalidação de diploma e com as inconstitucionalidades do programa mais médicos. VOcÊ leu a MP que cria o programa? Não. Seria melhor ir para a praça dos 3 poderes e rasgar a constituição do que aceitar essas medidas inconstitucionais da MP do Mais médicos.
    E outra coisa, tem sim, muito médico ruim, em todas as classes profissionais existe o profissional ruim. Mas não generalize nunca. Eu, com muito orgulho, estudei minha vida toda em escola pública, estudei muito e passei no concorrido vestibular para medicina. Você, como médica, trai o juramento de hipócrates onde você jurou nunca trazer o mal ao doente. Trazer médicos sejam estrangeiros ou brasileiros formados no exterior sem revalidação de diploma, é colocar o bem mais precioso que existe na mão de leigos.

    • Valdir Pereira disse:

      Se você é medico fez o revalida? Quem garante que você é melhor que os médicos estrangeiros? Se você se formou em Universidade Pública, financiada pelo contribuinte, tem obrigação moral de servir a quem financiou seus estudos e não encher o bolso de dinheiro? Pois, é esse o pensamento da maioria dos médicos, que querem a privatização da saúde. Essa corporação perdeu a confiança da população mais pobre que precisa do SUS. Não me venha com essa história que os municípios são canistas. Desculpa esfarrapada, de João sem braço. O que preside as ações da categoria é o preconceito, inclusive político. A MP, tem força de Lei e merece nosso apoio, os usuários do SUS. Aqueles que são contra a vinda dos médicos estrangeiros são na verdade os verdadeiros assassinos dos pobres brasileiros. Sou usuário do SUS desde sua implantação e condeno os aproveitadores que querem transformar uma questão de saúde publica numa questão política ideológica. Toma vergonha!!!

  3. thiago policarpo disse:

    E eles ainda vem, na maior cara de pau, aqui defender a classe que mais enriqueceu no Brasil. Playboyzada que virou “Doutor”, só querem luxo, carrão e dinheiro. Querem revalida para os cubanos? Beleza, então vamos fazer a regra valer para os brazucas tbm… Ora, a OAB testa o conhecimento dos advogados brasileiros, mas, onde está o Conselho Federal de Medicina pra aplicar o teste nos médicos recém formados? O resto é balela, choro de gente mimada que não sabe ser contrariada, até porque mamãe disse que o filhinho é perfeito, e tem medo de não conseguir manter as compras diárias no barra shopping pq vai ter gente fazendo melhor e por menos… Qual o valor da medicina? Monetário ou Humano?

  4. Genival disse:

    Existe muito preconceito dos médicos com a atenção básica. Como disse um amigo, o bullying é forte na faculdade nessas especialidades. tem muita vaga ociosa nessas residencias.
    Isso reflete um preconceito de classe, como vc disse a maioria de estudantes de medicina vem de famílias abastadas e o contato com a pobreza se dá ou pelos empregados ou pela violência. Vc viu que uma dos argumentos para desqualificar os cubanos foi a aparência de empregada domestica? que um médico deveria se impor pela aparência? isso é preconceito de classe: social.
    Acontece que as faculdades são pensadas para atender os filhos dessa classe e não formar médicos com base em um projeto de saúde de país. Acho difícil pensar uma solução com o sistema de ensino de medicina como o atual. Não acho que haja tantas faculdades de medicina assim e as que existem estão superconcentradas onde o poder aquisitivo é mais alto. E assim tem se um círculo vicioso… Quem nasceu e cresceu nos grandes centros, não vai pros grotões. Sequer conhecem o Brasil: periferias e sertões.
    Acho que carreira pública não resolve.
    No judiciário continuam a existir comarcas de difícil provimento. Quando a vaga é preenchida é por pouco tempo. A falta de infraestrutura e acesso precário a serviços espanta os jovens de famílias mais abastadas. E olha que a sede da comarca tende a ser um núcleo de municípios ainda menores e mais precários. O médico precisa ir onde o juiz não vai. E como disse, apesar dos significativos salários e da bela carreira existem muitos lugares que não são atendidos no judiciário. Nessa carreira médica federal seria ainda pior.
    Acho que uma alternativa melhor que a carreira seria uma interiorizaçao do ensino médico, adaptada à realidade e a atenção primária. A idéia é formar o o povo do próprio lugar.

  5. Paulo Cezar de Mello disse:

    Que bom ver um artigo lúcido e esclarecedor, um texto inteligente como esse escrito por uma médica. Sim, temos médicos bons e conscientes no Brasil. Vamos ouvi-los e construir junto com eles um país justo. Parabéns, Lilian. Que venham seus próximos artigos..

  6. Dorotea disse:

    Lilian, admiro a sua coragem em fazer uma autocrítica à classe. Concordo com tudo o que você escreveu, principalmente que as entidades médicas não representaram a todos nós. Os argumentos relacionados à dispensa do Revalida foram posteriores, pois inicialmente o argumento era “que não faltavam médicos”. Quando abriram as inscrições inicialmente p médicos formados no Brasil, as alegações governamentais foram facilmente provadas. Todo o movimento foi francamente xenófobo, pois as preocupações com a saúde pública nunca foram muito importantes para a classe.

  7. Heloisa disse:

    Tema muito bem colocado. Venho dizendo isso as pessoas que conheço, pois sou do interior e atualmente moro no Rio e sei das muitas carências da assistência de saúde. Vejo muitas falhas tanto no Governo quanto na classe Médica. Tenho irmão médico que, quando jovem, trabalhou no Estado (MG) há 25 anos atrás e saiu, pois, além do salário que não dava para sustenta-lo, faltava tudo no hospital. Mas sei também que muitos usam o Estado somente para ter uma aposentadoria ou um bico, não comparecem, não lutam por melhoras ou por aqueles que acreditam na profissão no sentido de ajudar o próximo, o que dá margem ao preconceito. Concordo plenamente que numa luta é fundamental ter direção e apresentar proposta e, num estado democrático, sentar para discutir/conversar. A verdade é que não estávamos acostumados a isso e, primeiramente, devemos exercer a mudança pessoal para aprendermos a ouvir, a falar e a solucionar. Também é hora das faculdades colocarem o tema em debate e atuar nesse sentido.

  8. Jair disse:

    Não sou médico e admiro o profissional que tem o dom e se dedica ao ser humano. Penso que o problema não é da área médica mas política. O brasileiro não está concordando com a ideia do governo ter como principal objetivo mercantilizar a exportação da mão de obra específica de Cuba. Queremos um país justo para todos, sim, mas não queremos repetir as truculências de países que experimentaram o totalitarismo para garantir isso. Cobre-se o rosto mas descobre-se os pés….

  9. Marconi Edson Souza disse:

    Parabéns pela sua lucidez cara Lílian. Nosso país precisa de gente sonhadora,… até hoje assistimos pessoas falarem mal da ditadura, se esquecendo da pouca vergonha que ocorre em todos os setores dos poderes públicos, até quando vamos culpar os militares ? Há uma geração inteira que nasceu após a dita “ditadura”. Hoje também os militares são presenteados com os baixos salários e o com sucateamento das forças armadas. Lá naquela época existia pelo menos algo que se chamava “patriotismo”, palavra banida de nossos dicionários. Continue lutando pelos seus princípios e em que você acredita, as críticas bem intencionadas, “guarde-as”, e aquelas tendenciosas “esqueça-as”.
    Marconi

  10. A dificuldade de acesso da população aos serviços de saúde configura preocupação recorrente das entidades médicas brasileiras. É inaceitável que nosso país, cujo Governo anuncia sucessivos êxitos no campo econômico, ainda seja obrigado a conviver com a falta de investimentos e com a gestão ineficiente no âmbito da rede pública. Trata-se de quadro que precisa ser combatido para acabar com a desassistência.

  11. Excelente artigo, é uma realidade que o médico antigamente era mais próximo do paciente e da família e tinha uma percepção maior do doente e menos da doença mas através do doente chegava a causa e consequente eliminação da doença. Com o advento da tecnologia a medicina se fundamentou basicamente nos seguintes procedimentos e as vezes de forma mecânica : Diagnóstico, Laboratório , Farmácia, sem se preocupar com o diálogo entre paciente /Família .O médico deve viver com dignidade e ter uma boa remuneração, não pensar necessariamenrte só em riqueza como alguns fazem e lembrar-se que seus conhecimentos adquiridos veio da sociedade, dos cientistas, pesquisadores e sobretudo do doente. Penso que os conhecimentos técnicos disponíveis hoje pode-se identificar onde se gasta mais no SUS e poder se minimizar os custos enquanto não se aprova o aumento da participação do PIB na Saúde. Quem está doente precisa de médico independente de nacionalidade e todos devem ser respeitados e viver em harmonia com toda sociedade e lembrar-se que o juramento médico visa antes de tudo salvar vidas e diminuir o sofrimento. Parabéns médica!

  12. José C. Cruz. disse:

    Lilian, parabéns pelo seu posicionamento corajoso. É notório que ele reflete sua boa formação, profissional e familiar.
    Acho que uma das maneiras de melhorar o SUS seria colocar um adendo na Constituição, obrigando funcionários públicos, de qualquer nível, quando necessário,procurar atendimento na rede pública de saúde e não no Sirio e Libanez, ou outro similar.

  13. Muito interessante essa matéria, parabéns!

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