De frente para a América Latina

Cresce interesse por contribuições inovadoras da região e do Brasil. Mas em nossas universidades, muitos ainda se aferram ao eurocentrismo…

Por Felipe Amin Filomeno*, colaborador de Outras Palavras e editor de blog pessoal

A colonização ibérica deixou um legado comum aos povos da América Latina que justifica seu entendimento como unidade cultural, geopolítica e econômica dotada de significado real e não apenas de sentido ideológico. Entretanto, parte deste legado é uma mentalidade eurocêntrica que nos cega para os laços que conectam nós, brasileiros, a nossos hermanos do restante do subcontinente. Esta cegueira debilita nossa capacidade de solucionar nossos problemas e de perceber o quanto ela mesma é anacrônica diante da posição conjuntural da América Latina no sistema mundial.

Não surpreende, portanto, que o Brasil, ou qualquer país latino-americano, seja um dos piores lugares do mundo para quem deseja estudar a América Latina como um todo. São pouquíssimos, na região, centros acadêmicos que oferecem programas de estudos latino-americanos. No Brasil, temos o PROLAM da USP, o IELA da UFSC, entre poucos outros. Recentemente, o governo federal criou a UNILA – Universidade da Integração Latino-Americana. Localizada em Foz do Iguaçu, na fronteira tripla de Brasil, Argentina e Paraguai, a UNILA é uma iniciativa pioneira voltada à formação de uma comunidade regional de pesquisadores e estudantes dedicados ao estudo da América Latina. A universidade é bilíngüe (Português e Espanhol) e parte do corpo discente vem de países vizinhos. Vem somar a outros esforços de integração do continente em nível acadêmico, como o CLACSO e a FLACSO (Conselho e Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais).

Desse modo, pouco a pouco, vamos corrigindo um eurocentrismo incoerente não só com a realidade histórica deste conjunto de países, mas com sua posição na conjuntura atual do sistema capitalista mundial. Certos processos transnacionais contemporâneos, que encompassam e também são constituídos em países latino-americanos, tornam necessário o estudo da América Latina enquanto região. Talvez, o principal desses processos seja a re-localização dos centros de acumulação de capital em escala mundial, que se transferem do Eixo Atlântico-Norte para a Ásia. Este processo tem várias implicações para a América Latina. A abundância de dólares no mundo associada à crise nos EUA permite a países como o Brasil deter maiores reservas cambiais, habilitando-o a condicionar mudanças na governança das finanças mundiais. O commodity boom associado ao crescimento da China proporciona rendas extraordinárias a exportadores latino-americanos, as quais têm sido gerenciadas e aplicadas de maneiras diversas por cada país. Para a compreensão dessas transformações, a perspectiva transnacional, regional e comparativa é a mais adequada.

Curiosamente, o eurocentrismo acadêmico existente na América Latina é incoerente também com a percepção (e expectativa) que estrangeiros têm de nós. Com base em experiência própria como acadêmico brasileiro em instituição universitária norte-americana, posso afirmar que professores e estudantes americanos não têm o menor interesse em saber o que conhecemos sobre a Revolução Francesa ou sobre a Independência dos EUA. Conosco, eles querem aprender sobre o movimento zapatista, sobre a bossa nova e Evo Morales (e vai passar vergonha quem só souber coisas sobre o Brasil). Nos syllabi de cursos sobre teorias do desenvolvimento em universidades americanas, não se mencionam contribuições de economistas brasileiros ou argentinos à teoria econômica ortodoxa (pois isso eles podem achar em Chicago), mas quase sempre há um par de leituras obrigatórias sobre a teoria da dependência.

Este desejo dos americanos no que é genuíno do subcontinente é justificado. A América Latina, crescentemente, vem sendo reconhecida não mais como problema, mas como fonte de inovações em políticas públicas e mobilização social. Mesmo expoentes do pensamento conservador, como Francis Fukuyama (autor de O Fim da História), já reconhecem, por exemplo, que a América Latina é seio de “pensamento inovador em política social” e o Brasil, em particular, exemplo de uma “nova política industrial” no pós-crise, capitaneada pelo BNDES. Conforme observado por David Harvey, pensador marxista da City University of New York, olhando para a forma como os EUA e a União Européia têm reagido contra a crise econômica mundial, vemos uma re-edição das políticas de austeridade fiscal que transferem o ônus da crise para grupos sociais desprivilegiados sob hegemonia das altas finanças. Na América Latina é que vemos novidades em relação aos decênios passados, como um keynesianismo equilibrado no Brasil e políticas sociais re-distributivas de windfall profits na Argentina.

Logo, estudar a América Latina como região, compreender-nos relativamente aos nossos vizinhos, é ponto de partida apropriado para que possamos oferecer a nós mesmos, e ao mundo, alternativas originais para os desafios sociais, econômicos e ecológicos que o mundo enfrenta. Aos brasileiros, às vezes relutantes em se reconhecerem como latino-americanos, cabe lembrar que, se culturalmente somos parcialmente distintos por falarmos o português, territorialmente somos o país com o maior número de fronteiras com países latino-americanos. A mentalidade eurocêntrica nos faz ver a associação com a América Latina como motivo de vergonha; hoje, essa associação é empowering (política e analiticamente).

Felipe Amin Filomeno é sociólogo e economista, doutorando em Sociologia pela Johns Hopkins University, com apoio da CAPES/Fulbright. Tem artigos publicados nas revistas Economia & Sociedade, História Econômica & História de Empresas, e da Sociedade Brasileira de Economia Política.

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3 comentários para "De frente para a América Latina"

  1. Pedro Vieira disse:

    Prezado Felipe,
    Se alguém quiser estudar a fundo o Brasil estará dando uma grande contribuição para o conhecimento da América Latina e além disso, vai ter pouco tempo para estudar os demais países da América Latina.
    Claro que devemos conhecer o máximo sobre AL, assim como sobre Europa, África, Ásia, etc….
    Não creio que só porque os americanso precisam conhecer a AL nós passaremos vergonha se não soubermos dizer o que eles querem. Se assim agíssemos, não estariamos agindo como colonizados?
    Parabéns pela coluna,
    Um abraço,
    Pedro Vieira

  2. Luiz Rossi disse:

    Bom dia, Felipe.
    Achei interessante sua coluna, realmente não é fácil estudar AL no Brasil, mas aos poucos começa-se abrir cursos e grupos de estudos relacionados a essa área, aqui em São Paulo por exemplo, além da USP, a PUC tem seu Grupo de estudos (que me foge o nome no momento) e oferece também cursos de extensão e luta para ter uma especialização sobre AL.
    Penso que, se na universidades, a própria graduação começar a bater mais nessa tecla, com certeza teremos mais pessoas estudando e se aprofundando na América Latina.

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