Chéri à Paris: En train de râler

“Putain! Tanta coisa pra copiar da Inglaterra, do rock à Naomi Campbell, e a França copia essa maldita pontualidade”

(Chéri à Paris, por Daniel Cariello)

Um casal parisiense sai atrasado de casa para pegar um trem na gare de Lyon.

– Cinco minutos, faltam cinco minutos.

– Não fala, corre!

– Tô correndo, tô correndo. Ufff.

– Merde!

– Que foi?

– Pisei num cocô de cachorro.

– Chegando no trem você limpa na cadeira no vizinho.

– Ele vai reclamar do cheiro.

– Do cheiro? Alô, estamos em Paris!

– Isso se a gente conseguir chegar. O trem sai pontualmente em quatro minutos.

– Putain! Tanta coisa pra copiar da Inglaterra, como o rock, o ônibus de dois andares e a Naomi Campbell, e a França copia essa maldita pontualidade.

– Podia ser pior. Podia copiar a família real, com o príncipe Charles incluso.

– O príncipe Charles tem seus méritos. É o único homem no mundo que teve uma amante com cara de esposa e uma esposa com cara de amante.

– Vamos parar de gracinha e apertar o passo, só temos três minutos agora.

– Não vai dar tempo, não vai dar.

– Se você reclamar menos a gente consegue correr mais.

– Se eu reclamar menos a minha existência perde o sentido.

– Allez, allez! Não vamos desistir, a estação está logo ali na frente.

– Quem falou em desistir? Se não pegarmos o trem pelo menos vou ter um motivo pra bater boca com a companhia ferroviária. Uma boa discussão pontuada por bufadas e palavrões bem colocados pode ser melhor do que uma viagem.

– Dois minutos!

– Tô vendo o trem, é aquele ali.

– Não. É o outro, mais longe.

– Corre!

– Tô correndo, só que tem fila pra entrar.

– Mais quelle bande de connards.

– Um minuto, falta um minuto!

– Fura a fila.

– Mas já tá cheio de gente furando.

– Até parece que você não é parisiense. Fura a fila dos que estão furando a fila, pela direita.

– Vamos lá.

– Conseguimos! Estamos no trem, sentados.

– Ufa…

– Mas e aí, essa carroça sai ou não sai? Ei, chauffeur, não temos o dia todo. Allez, allez!

Daniel Cariello, editor da revista Brazuca, é colaborador regular daBiblioteca Diplô/Outras Palavras. Escreve a coluna Chéri à Paris, uma crônica semanal que vê a cidade com olhar brasileiro. Os textos publicados entre março de 2008 e março de 2009 podem ser acessados aqui.

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