Chamam-na democracia. E não é

“Quem dita as regras do jogo são formidáveis corporações econômico-financeiras”, diz escritor Carlos Taibo à Puerta del Sol ocupada

Por Carlos Taibo | Tradução: Luis F. C. Nagao

Nós, que estamos aqui, somos certamente, pessoas muito diversas. Temos projetos e ideais diferentes. Já conseguimos, contudo, nos colocar de acordo em um punhado de ideias básicas. Tentarei resumi-las de maneira muito rápida.

Primeira. Chamam-na democracia e não é. As principais instituições e, com elas, os principais partidos têm mostrado enorme capacidade para funcionar à margem do ruído incômodo que emite a população. Os dois partidos mais importantes, em particular, encenam há tempos  uma confrontação aparentemente dura, que esconde, em essência, uma identidade de ideias. Um e outro mantêm em suas fileiras, por certo, a pessoas de moralidade mais que duvidosa. Não é difícil adivinhar o que há por trás: na realidade, quem dita as regras do jogo são formidáveis corporações econômico-financeiras.

Segunda. Somos vítimas com frequência de grandes cifras que nos são impostas. Em maio de 2010, por  exemplo, a União Europeia exigiu do governo espanhol que reduzisse em 15 bilhões de euros os gastos públicos.

Para compreender, vale a pena uma rápida comparação com outras cifras. Há alguns anos, esse governo espanhol que acabo de mencionar destinou, a princípio, 9 bilhões de euros ao saneamento de uma única instituição de poupança, a de Castilha-La Mancha, que estava à beira da falência. Estou falando, portanto, de uma cifra que se aproximava a dois terços da exigida em cortes pela União Europeia. Durante dois anos fiscais consecutivos, esse mesmo governo ofereceu 400 euros a todos os que fazemos uma declaração de renda. A todos o mesmo, diga-se de passagem:  do senhor Botín1 ao cidadão mais pobre. Segundo estimativas, esse presente custou, a cada ano, 10 bilhões de euros. Estou falando do mesmo governo, que se autointitula socialista, que não vacilou em suprimir o imposto sobre patrimônio (que pela lógica incide sobre os ricos),  enquanto incrementava outro tributo, o IVA2, que castiga os pobres. O mesmo governo, por fim, que nada faz para lutar contra a fraude fiscal e que mantém a legislação mais frouxa da União Europeia no que toca a evasão de capitais e paraísos fiscais.

Terceira. Se há um deus que adora políticos, economistas e muitos sindicalistas, esse deus é o da competitividade. Qualquer pessoa com cérebro sabe, contudo, em que se traduziram, para a maioria dos que estão aqui, os formidáveis lucros nos últimos anos, em matéria de competitividade: salários cada vez mais baixos, jornadas de trabalho cada vez mais prolongadas, direitos sociais que retrocedem, precariedade por todas as partes.

Não é difícil identificar as vítimas de tanta miséria. A primeira a são os jovens, que engrossam maciçamente nosso exército de reserva de desempregados. Se não houvesse muitas tragédias por trás, seria divertido examinar esta evolução terminológica, que há cinco anos criou a expressão mileuristas3 para retratar uma situação delicada. Hoje, somos tentados a falar em quinhentoseuristas e amanhã, se as coisas persistirem como vão, seremos obrigados a inventar trezentoseuristas.

A segunda vítima são as mulheres,  sempre com os piores salários e condenadas a ocupar as escalas inferiores da pirâmide produtiva, muitas vezes obrigadas a fazer o trabalho doméstico. Uma terceira vítima são os esquecidos de sempre: os anciãos, ignorados em particular por esse dois maravilhosos sindicatos, Comissões Operárias e UGT, sempre dispostos a firmar o infirmável. Não quero esquecer, um quarto e último lugar, nossos amigos imigrantes, convertidos, segundo as conjunturas, em mercadorias de reposição. Estou falando, ao fim e ao cabo, de uma pequena minoria da população: jovens, mulheres, anciãos e imigrantes…

Quarta. Não quero deixar no esquecimento os direitos das gerações vindouras e, com eles, os das demais espécies que nos acompanham no planeta Terra. Digo-o porque neste país confundimos há muito crescimento e consumo, por um lado, com felicidade e bem-estar, por outro. Falo do mesmo país que permitiu,  orgulhoso, o enorme aumento de sua pegada ecológica e a ruptura de precários equilíbrios ambientais. Aqui estão, para testemunhá-lo, a idolatria do automóvel e de sua cultura, esses maravilhosos trens de alta velocidade que permitem que os ricos se movam com rapidez enquanto deterioram-se as alternativas de transporte ao alcance das classes populares, a destruição talvez irreversível, de nosso litoral ou, para não esquecer, a dramática desaparição da vida rural. Nada retrata melhor onde estamos que a posição da Espanha diante do aquecimento global. Estamos no último vagão da União Europeia, com um governo que alimenta a vergonhosa  compra de cotas de contaminação em países pobres que não estão em condições de esgotar as suas.

Quinta. Entre as reivindicações levantadas pela plataforma que promove estas manifestações e concentrações, uma refere-se expressamente à  urgência de reduzir o gasto militar. Parece de grande pertinência, ainda mais porque, nos últimos anos, pudemos comprovar como nossos diferentes governantes rebaixaram de maneira muito sensível a ajuda ao desenvolvimento. Nunca será demais repetir: o momento mais tétrico de nossa crise nos coloca num cenário claramente preferível ao momento mais confortável da situação da maioria dos países do Sul.

Volto, contudo, ao gasto militar. Este último, visivelmente subestimado, responde a dois grandes objetivos. O primeiro é manter a Espanha no núcleo dos países poderosos, com os deveres correspondentes, em matéria de apoio às guerras de rapina global que os Estados Unidos lideram. O segundo vincula-se com a vontade de preservar franco apoio ao que fazem tantas empresas espanholas no exterior. Alguém já teve notícia de que algum porta-voz do Partido Socialista ou do Partido Popular se atreveu a criticar, ainda que levianamente, as violações de direitos humanos básicos praticadas por empresas espanholas na Colômbia, Equador, Peru, Bolívia, Argentina ou Brasil?

Acabo. Gostaria nestas horas de recordar alguém que nos deixou em Madri, na última terça-feira. Falo de Ramón Fernández Durán, que iluminou nosso conhecimento no que respeita às misérias do capitalismo global e nos alertou sobre o que nos espera nesta verdadeira idade das trevas em que, se não lutarmos, entraremos a força. Não me ocorre melhor maneira de fazê-lo que  resgatar uma frase repetida muitas vezes por meu amigo José Luis Sampedro, cuja saudação escutaremos, por certo, dentro de uns minutos. A frase em questão, que reflete com muita clareza nossa intenção dessa tarde, foi pronunciada por Martin Luther King, o principal animador do movimento de direitos civis nos Estados Unidos, cinquenta anos atrás. Diz assim: “Quando refletirmos sobre nosso século, o que nos parecerá mais grave não serão os urros dos maus, mas o silêncio dos bons”. Obrigado por terem me escutado.


1 Referência a Emílio Botín, o principal acionista do grupo financeiro Santander – nota do tradutor

2 Semelhante ao ICMS brasileiro, o IVA incide sobre o preço das mercadorias, independentemente da renda de quem as adquire. Por isso, é insignificante para os endinheirados e onera os monetariamente pobres – nota do tradutor

3 O termo mileuristas designa, na Espanha, profissionais qualificados forçados a aceitar empregos precários, em que recebem em torno de mil euros – nota do tradutor

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2 comentários para "Chamam-na democracia. E não é"

  1. benjamim lima disse:

    Muito boa a sua intervenção, Admin. A “democracia” do capital, das multinacionais, dos governos corruptos é exatamente como você colocou – uma democracia que visa a iludir o povo, sob o falso argumento de que é o povo que escolhe os seus governantes. Na verdade, trata-se de um jogo de cartas marcadas em que só ganham aqueles que defendem o status quo, embora digam o contrário.

  2. marcelodellapoor disse:

    Bem aonde eu ouvi fala serio isto e fato em toda classe independente de cultura ou nível nos Estados Unidos já ouve vários casos de filhos de pais bem sucedidos que cometeram atos sangrentos só você e que não sabe disso? Mas não quer saber, não a sistema infalível, mas o que assistimos há todos os dias e falência da família e você não sabe disto e os casos que no Brasil que a filha de pais muito ricos e bem sucedidos e os matou e o caso do filho que planejou o seqüestro do pai e a garota que a madrasta matou e o pai jogou do apartamento e você não sabe também, fora o que não esta na mídia e você me dizem aonde que eu ouvi isto aonde você esta na terra ou no mundo. Nos Estados Unidos no fantástico vários temas de pais que eram ate médicos e professores, mas seus filhos no berço das drogas o mundo este sim perdido pela pregação que estudar e tudo e isso não e verdade estamos sim criando um vinculo entre o sucesso como tudo na vida e isto e uma ilusão o que vemos no Brasil e a troca de valores sócios para uma sorte e cada um ao seu próprio destino, mas, não se esqueça de uma coisa o mundo segue a novas guerras sim guerras que nem eu ou você posso parar. Não sou o dono da verdade, mas nossa sociedade perdeu o rumo ainda tem gente muito boa, mas e minoria entre tantos e nunca tantos deveram a tão poucos, hoje se meninas brigam como bestas e porque tanto os governos liberais são sim em parti culpados pela liberação sem restrição hoje em dia vemos filmes de sexo ate nos desenhos e não rimos, mas meu só tem violência diferente dos desenhos antigos como você acha que nossas crianças vão crescendo achando que isto e normal certo analista militar disseram se você falar todo dia que a que o menino e menina ora um dia ele vira menina se você ensina na sua inocência sexo como a televisão ensina a criança vai querer fazer e você não viu isto ainda não sou contra o direito do meu próximo, mas a onde esta nosso direito? Esta política de liberdade ate para física isto e impossível foi neste contexto que surgiu uma transição entre o realismo imoral e o Modernismo. São obras publicadas para política em ação Hitlerista com cara de liberdade assim como o povo e um política de interesse de governantes que manipulam nossa sociedade a Historia como em 1914 ate a queda do muro de Berlin em 1989 falaram que não haveria, mas guerras, mas isso seria impossível com o capitalismo aonde nos somos o produto e o mundo que vemos hoje e a copia de ontem tudo de novo e você não viu isto. O estilo da época são introduzidos por pensamento e desejos mas falam de uma maneira comum: o realismo amoroso vai alem dos exercícios contidos nos séculos, há no final um túnel e uma serie de razoes para manipular a opinião destorcida de valores que foram tabus, extrair isto com vestibulares mesmo significativos e iludir a razão de um pais e o jogo de interesses um painel iconográfico que une acontecimentos literais a nossa cultura perdida de um mudo cheio de professores mas pobres em amor.

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