Boulos: eis o programa do Golpe

Nos eixos de eventual governo Temer, o projeto da elite: contra-reforma trabalhista, ataque a programas sociais, privatização da Petrobras e abafamento da corrupção

O PRETENDENTE E O PATRÃO: Em 27/8/15, Temer fala em jantar

O PRETENDENTE E O PATRÃO: Em 27/8/15, Temer fala em jantar de gala na sede da Fiesp, observado por Paulo Skaf. Também participaram Luís Carlos Trabuco (Bradesco), o usineiro Rubens Ometo (Cosan), Benjamin Steinbruch (CSN) e Flávio Rocha (Riachuelo)

Nos quatro eixos de eventual governo Temer, o projeto da elite brasileira: contra-reforma trabalhista, ataque a programas sociais, privatização disfarçada da Petrobras e abafamento dos escândalos de corrupção

Por Guilherme Boulos

Ao que parece, a votação do próximo domingo será decidida – como num jogo do Corinthians – nos últimos instantes, lance a lance.

Sabendo disso, Temer entrou em campo, como cabo eleitoral de si mesmo, no processo que visa a cassar sua companheira de chapa. A seu favor, tem Eduardo Cunha e suas manobras.

A voz das ruas já não é uníssona. O mesmo percentual que defende a derrubada de Dilma também é contra a permanência de Temer. E as manifestações para barrar o impeachment têm crescido expressivamente nas últimas semanas. A esplanada dos Ministérios estará dividida no domingo.

Aliás, tratando-se de popularidade, a última pesquisa Datafolha mostrou que Temer teria entre 1% e 2% das intenções de voto. Querem impor pelo Parlamento um presidente biônico ao país. Tem cheiro de golpe, tem cara de golpe, enfim, é golpe.

É golpe por não haver comprovação de crime de responsabilidade, condição constitucional do impeachment. É golpe também pela condução ilegítima e imoral de Eduardo Cunha, que em qualquer outro lugar estaria preso –e não definindo os destinos políticos do país.

Mas, para além dos meandros legais, é importante que o Brasil saiba qual o pacote que virá após domingo caso prospere o impeachment. O pacote do golpe, ou Agenda Temer, vem sendo anunciado aqui e ali, em jantares indiscretos, entrevistas e em discursos vazados numa forma rasteira de se fazer política.

Vamos a ele:

1. O vice. Pouco se fala, mas caso Michel Temer se torne presidente com o impeachment, o vice-presidente da República será Eduardo Cunha, nome seguinte da linha sucessória por ser presidente da Câmara. Um escárnio.

2. Direitos dos trabalhadores. O entorno de Temer propõe abertamente uma Reforma Trabalhista para diminuir o “custo Brasil”, isto é os direitos dos trabalhadores. Defendem também a desindexação do salário mínimo e a Reforma da Previdência (esta, vale dizer, encampada também por Dilma). Um ataque sem precedentes. Daí talvez o entusiasmo da Fiesp e de seus patos a favor do impeachment.

3. Programas sociais. Wellington Moreira Franco, braço direito de Temer, deu o tom da política em relação aos programas sociais: corte drástico de subsídios e revisão dos repasses do FGTS. Em tradução literal, isso significa destroçar a rede de programas sociais do Estado brasileiro. Sem subsídios e FGTS, não há Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida ou Prouni. É evidente que uma tal devassa não seria feita de uma só vez, mas sob a forma de “auditorias” e “contingenciamentos”. Ao fim e ao cabo, só muda a dose, o efeito é o mesmo.

4. Petrobrás. O presidente do Credit Suisse no Brasil esclareceu em entrevista recente as razões que levam o mercado a apoiar Temer contra Dilma. Junto a várias das medidas citadas acima, menciona a privatização da Petrobrás, ou “capitalização” segundo o eufemismo utilizado.

5. Acordão. Para ninguém no empresariado e no Parlamento brasileiro interessa a permanência da instabilidade institucional representada pela Lava Jato. Por isso, embora isso esteja entre aquilo que não possa ser dito, os rumores em Brasília revelam a expectativa de um governo Temer com condições políticas para abafar as investigações. A tal “salvação nacional” seria na verdade salvar Cunha, Renan, Jucá e companhia.

Este é o pacote do golpe. São os “sacrifícios” de que Temer falou em seu discurso antecipado de posse. Vale recordar aqui que a última vez que um político sentou na cadeira antes da hora – Fernando Henrique, na disputa com Jânio – foi desautorizado logo em seguida.

Mas, mesmo que venha a sentar, com este pacote dificilmente dura muito tempo.

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6 comentários para "Boulos: eis o programa do Golpe"

  1. C.Paoliello disse:

    Duvivier: precisamos falar sobre Temer
    http://www.vermelho.org.br/noticia/279340-1

  2. josé mário ferraz disse:

    Substituir dona Dilma é ato legítimo pelo estado em que se encontra o Estado. O que está mais do que errado é colocar um bandido (segundo as notícias) no lugar dela.

  3. Eduardo Magrone disse:

    No ambiente democrático do presidencialismo, só existe um modo de substituir um presidente eleito: o voto. Esclarecendo. O voto dos eleitores e não o voto de seus representantes parlamentares. O governo Dilma fracassou na economia, na articulação política, na recomposição de sua base social e na mediação com as corporações públicas. Porém, sua “substituição” antes do prazo, sem crime de responsabilidade comprovado poderia se dar por morte, renúncia, cassação da chapa (Temer incluso) ou golpe de estado. Não há outra alternativa.

  4. Jorge Victor disse:

    Com tais políticas Temer irá deixar grande parte do eleitorado com saudades da Presidente Dilma e do governo do PT que pode então voltar com tudo em 2018.

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