Crianças mimadas, adultos tiranos

A pretexto do bullying, pais passaram a interferir no mundo infantil. É péssimo: ninguém deve ser poupado de desgostos e frustrações; e nada melhor que a roda comunal, também entre crianças

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Por Maria Bitarello | Imagem: Fernando Botero, Família presidencial (1967)

Minha irmã andava chegando em casa chateada. Cabisbaixa e evasiva, não queria mais ir à aula. A escola tinha se transformado num sofrimento diário, e minha mãe percebeu. Ela confessou que, de fato, havia uma menina infernizando sua vida no jardim de infância: Lorelei, a tirana do parquinho. Com uma capanga miniatura a tiracolo, tentava oprimir e humilhar aquela garotinha de cabelos negros e sobrancelhas espessas com as armas de que dispunha: intimidação, ofensas verbais, emboscadas. Minha irmã, nada combativa, uma criança introspectiva e tímida, sofria em silêncio. Minha mãe compartilhou sua apreensão com minha tia, contemplando possibilidades – de mudá-la de escola a conversar com a professora.

Mas uma também minipessoa, que entreouviu a conversa, tinha outro plano. Minha prima, da mesma idade da minha irmã, interrompeu as duas: “deixa comigo que vou resolver essa parada”. As mães toparam. No dia seguinte, a prima indômita e topetuda (e tão alta quanto a Lorelei) prensou as duas garotas num canto na hora do recreio e sentenciou: “se vocês não deixarem minha prima em paz vão se ver comigo”. E pronto. Problema solucionado. Elas recuaram, minha irmã foi deixada em paz e, melhor de tudo, não foi necessária a interferência de nenhum adulto.

A escola, como a turma que brinca na rua, é um microcosmo do mundo adulto, do mundo todo. Um lugar ou um grupo como qualquer outro e que, portanto, tem suas regras de funcionamento e aplicação internas – e suas crueldades particulares. O que acontece ali diz respeito a seus integrantes e é tão duro quanto o que nos espera pela vida afora. E pra que as crianças cresçam pra se transformar em adultos autônomos e capazes de viver em comunidade, precisam ir praticando cidadania, coexistência, negociação, discernimento, resolução de conflitos e solução de problemas na medida que sua maturidade emocional permitir. E as mães precisam se conter e não entrar em resgate dos filhotes ao primeiro sinal de infortúnio.

Há sofrimento na vida. Não há como se separar disso. E por mais que o instinto materno possa urrar dentro do peito querendo privar a cria de todo e qualquer mal, não há remédio. Seu filho também vai sofrer nessa vida, como todos nós. E mimá-lo será um desserviço a ele. Se for blindado de desgostos e frustrações, se alguém sempre vier em sua defesa sanar suas desavenças, ele tem grandes chances de virar 1) um adulto mimado e bocó ou 2) um adulto mimado e tirano – e esses são os piores. Ao contrário da criança birrenta, o adulto que esperneia não é uma fase que passe – vira um traço de seu caráter. Então o negócio é trabalhar a mola emocional desde cedo.

Em Minas, onde cresci, o bando de crianças que brincava na rua era um mundo em si. Ninguém levava as questões dali pra casa, pros pais. Se alguém tinha um problema com outrem, melhor era conversar ou brigar ou beijar, enfim, o que fosse preciso, mas sem adultos. Machucados eram escondidos, lágrimas secadas e desavenças disfarçadas. Ou assim pensávamos. Vai ver que as mães sacavam tudo, apesar da dissimulação. Só sei que nunca, em toda minha infância, minha mãe interveio em algum problema que tive com alguém na escola, na rua, no prédio, na praia durante as férias.

Porque isso de chamar os pais pra resolver seus pepinos não se faz, todo mundo sabe disso. É uma questão de honra, uma maneira de se fazer as coisas. Na minha escola, uma criança cuja mãe ou pai interferisse em sua dinâmica social estaria condenada à zombaria massacrante dos colegas pelo resto de seus dias escolares. Sua reputação ficaria arruinada e ela seria considerada, com razão, uma “filhinha de mamãe”. Não sei hoje, já que os tempos mudaram; e também os pais e filhos. Nem posso imaginar como crianças de agora briguem por snapchat – a tela que evita o tête-à-tête e permite que a covardia se torne um traço ordinário do caráter. O indesejado é deletado e pronto.

O que sei é que quanto mais penso nisso, mais me convenço de que a roda comunal, a conversa de igual pra igual na família, no trabalho, no teatro, na escola é a melhor resposta ao bullying, à covardia, aos haters da internet, à polarização sem diálogo que vivemos hoje. É imperativo ver e sentir a outra pessoa na sua frente: ouvi-la, tentar entender seus motivos, se colocar em seu lugar. Olhos nos olhos, e colocando o seu na reta. E reitero: é preciso começar cedo. Pode sair briga, choro e até uns tapas, e tudo bem – isso também é diálogo. A roda, quando toda a tribo se senta e todos se olham nos olhos, é uma aposta no amor; é um “sim” num mar de “nãos”.

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7 comentários para "Crianças mimadas, adultos tiranos"

  1. Michelle Leobibo disse:

    Concordo com as ideias apresentadas de que a vida real, com seus conflitos deve ser vivida nas suas escalas (infantil, adolescência, adulta e idosa) com as armas que a mentalidade de cada fase proporciona a cada um. No entanto, decido aos fatores da formação o caráter geral da sociedade (mídia, filmes estrangeiros de ação, acesso a armas, valorização dos coliseus modernos, etc) os cuidadores ficam na defensiva pois, as crianças e adolescentes estão tirando suas formas de resolver seus problemas dessa atmosfera extremamemte violenta.

  2. Muito verdadeiro as reflexões que vc faz com relação ao crescimento das crianças e saber lidar com os pequenos problemas de nossa infância. Fui criança, brinquei, briguei e nunca vi minha mãe perder tempo para resolver essas questões. Sempre ela dizia: esse problema vc pode resolver. Hoje um grande desafios para as famílias e que como não aprenderam a lidar com seus problemas na infância, também não conseguem ensinar os filhos a fazerem o mesmo. Hoje me considero uma adulta equilibrada, entre vitórias e derrotas. E isto devo a minha mãe.

  3. Edgar Rocha disse:

    O problema é que o institucional já interfere de forma injusta nesta rede de relações. Não sei no seu tempo. No meu – tempos bicudos de ditadura – qualquer briga era submetida a algum tipo de autoridade. E nunca foi vergonha aos filhinhos de papai que os pais recorressem ao institucional para defender os filhos dos “marginais” do bairro pobre. Estes eram expulsos da escola o levavam prensa de gente grande, sem piedade. Creio que atualmente haja uma rede de privilégios um pouco mais ampla (o filho do traficante é
    tratado com igual respeito). Além do que, a questão pedagógica dos conflitos também é vista com alto grau de conservadorismo e cinismo. Deixar que o bulling cresça até as vias e fato sem interferência acaba beneficiando ao educador omisso.
    A questão é complexa. O caráter simbólico de situações-limite reflete o tipo de sociedade que estamos construindo. Ver na ameaça e na equiparação da atitude violenta uma forma de solução, é admitir que nunca foi alvo de injustiça ou vítima de arbitrariedade absoluta, daquelas em que a vítima é culpabilizada quando se defende e fica desamparada(com cara de bocó, entende?) Fora isto,”os que são brancos que se entendam”. Sacou?

  4. Rafael disse:

    Faço minhas as palavras do Edgar Rocha (acima).
    Quando a autora deste artigo diz que o bullying deve ser resolvido pelas próprias crianças/adolescentes envolvidos, ela está aceitando a falha na educação. É quase como exigir que o cidadão adulto resolva sozinho seu sentimento de insegurança numa sociedade de abismos sociais como a nossa — isso seria aceitar a falência total do Estado. No caso do bullying em escolas, há ali uma clara falha educacional por parte dos pais e pedagogos que inclusive adoram esbravejar o bordão reacionário ‘isso é coisa normal de criança’, como num reducionismo velado que tenta isentá-los de qualquer culpa — porque no fundo sabem que educar é algo extremamente difícil. Sim, podemos considerar o bullying algo tão normal como era segregar negros há algumas décadas, como era impedir mulheres de votar, como era proibido homossexuais terem voz e como ainda é normal uma série incontável de pequenas ou grandes barbáries sociais.
    É bastante superficial alegar que ‘na minha época as coisas funcionavam’, como se cada um fosse referência moral ou como se essa reduzida amostragem fosse significativa. Pior: como se houvesse uma análise psicológica envolvida.
    Primeiramente, crianças por definição não estão maduras a ponto de saber resolver todas as situações limite onde se encontram. Depois que nessa idade cada ano a mais ou a menos faz toda a diferença, o que já não acontece com adultos. Finalmente, o que define o bullying não são desentendimentos pontuais — isso talvez até possa se enquadrar na sugestão da autora. O bullying é uma opressão normalmente coletiva em cima de um indivíduo fragilizado por algum motivo — normalmente físico. Trata-se, portanto, de uma injustiça social (ou micro-social, se assim preferirmos) que dá à vítima uma sensação de completa impotência.
    Evidente que autora, por ser mulher, não conheceu ou não se atentou para algumas facetas do bullying entre os meninos, onde a violência não se restringe a intrigas, xingamentos e uns eventuais tapas, mas a um terror onipresente que culmina com humilhação física constante e pública, complicando cronicamente uma fase que já é naturalmente rodeada de inseguranças que normalmente repercutem pela vida adulta. Se a autora acha que isso ‘prepara para o mundo real’, ela talvez esteja ignorando os sérios danos que essa situação pode provocar nas pessoas. Danos esses, aliás, que atualmente já estão bem documentados:
    http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/ciencia-e-saude/2016/10/08/interna_ciencia_saude,552405/bullying-pode-causar-impactos-a-longo-prazo-como-depressao-e-estresse.shtml

  5. Paulo Wagner Marques disse:

    Excelente texto! Disse absolutamente tudo o que deveria ser dito e entendido por pais e psicólogos.

  6. Lídia Nunes disse:

    Concordo totalmente com Rafael e Edgar Rocha. O texto é muito superficial e, pior, não distingue bullying de briga ou desavença de crianças. As duas coisas são antagônicas e a autora cometeu o erro de apresentar como iguais. O argumento “na minha época”, usado para deixar para lá o sofrimento de quem realmente sofre bullying, além de superficial é um tanto egoísta. As crianças que sofrem o racismo, a homofobia, a xenofobia e o sexismo nas escolas é quem sabe onde o sapato aperta. Mas, pimenta…

  7. Cleide Lopes disse:

    Seu texto é baseado no senso comum. Se reporta a uma época cuja realidade e contextos são outros…

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