Vampiros, subversivos e Amantes Eternos

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Jim Jarmusch inverte radicalmente sentido dos Dráculas e os vê como depositários da cultura humana, num mundo devastado e decadente

Por José Geraldo Couto

São muitas as portas de entrada para uma obra potente e rica de significados como Amantes eternos, de Jim Jarmusch. Vamos tentar o acesso por uma delas, a da relação do filme com o mito ancestral do vampiro, tal como cristalizado no final do século XIX no Drácula de Bram Stoker.

Drácula, obscuro conde da Transilvânia, personificava, de certo modo, uma nobreza parasitária, decadente e antissocial, contraposta à laboriosa e produtiva sociedade burguesa que tinha na ciência seu principal instrumento de afirmação e conquista. O vampiro era, tanto literal como metaforicamente, um sanguessuga, que, ao sorver a seiva vital da juventude saudável, contaminava-a com seu hedonismo libertino, seu culto ao ócio e à vida noturna improdutiva.

Inversão de sinais

Pois bem. O filme de Jarmusch inverte vertiginosamente esses sinais. Os amantes vampiros, com os nomes arquetípicos de Adam (Tom Hiddleston) e Eve (Tilda Swinton), são depositários do que a cultura humana produziu de melhor ao longos dos milênios, em termos de ciência, literatura, filosofia, artes. Quem corrompe e destrói o planeta, contaminando o ar, a água e, de quebra, o sangue são os mortais comuns, que eles chamam significativamente de zumbis.

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A escolha do cenário principal do filme, a cidade onde Adam vive, não poderia ter sido mais certeira. Com a crise da indústria automobilística norte-americana, Detroit virou quase uma cidade fantasma, plena de terrenos e edifícios abandonados, assolada pelo desemprego, pela violência e pelas drogas. Mas no futuro, vaticina Eve, “quando as cidades do sul estiverem queimando”, Detroit voltará a florescer, porque dispõe do bem mais precioso, a água.

O carro e o cinema

Por enquanto, a cidade encarna o fim de uma civilização. Uma das mais belas cenas do filme é a do casal no interior das ruínas de um grande cine-teatro. Adam lembra que foi exatamente ali que Henry Ford construiu o protótipo de seu primeiro carro. Agora esse duplo túmulo do cinema e do automóvel é um estacionamento. Do movimento ao repouso, da potência à estagnação.

A melancolia que tinge todo o filme é matizada pelo humor esperto e constante. Referências artísticas e literárias jocosas pontuam a narrativa. O principal amigo vampiro do casal é ninguém menos que Christopher Marlowe (John Hurt), poeta e dramaturgo contemporâneo de Shakespeare, a quem acusa de ter roubado algumas de suas obras. “Aquele zumbi iletrado”, diz ele a certa altura, referindo-se ao bardo. O próprio Adam, músico e compositor de gênio, teria cedido um adágio a Schubert, dois séculos atrás.

Ambiente retrô e tempo circular

Um dos encantos do filme é o ambiente que Adam construiu para si. Guitarras vintage, amplificadores valvulados, discos de vinil, gravadores de rolo… Sua casa parece um museu vivo do início dos anos 60, como se a cultura ocidental tivesse atingido ali uma espécie de classicismo. Mesmo a tecnologia mais avançada, como uma conversa com imagem pelo Skype, é mediada por um televisor retrô de tubo e válvulas.

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Do ponto de vista da construção imagética, duas coisas chamam especialmente a atenção: a ambientação exclusivamente noturna (numa Detroit e numa Tânger parcamente iluminadas) e a recorrência do movimento circular, seja dos objetos (o disco na vitrola, por exemplo) ou da própria câmera, que do alto observa os amantes e os põe a girar. Os dois procedimentos remetem à situação dos protagonistas: eles só existem à noite e vivem uma espécie de tempo cíclico, cujas intersecções com o tempo cronológico da história (o tempo linear dos “zumbis”) nem sempre são pacíficas.

Com sua elegância fantasmática, os protagonistas revelam, por onde passam, a pobreza estética e espiritual de nossa época, em que, por “medo da própria imaginação”, os zumbis reduzem as potencialidades humanas a uma atividade frenética de consumo e desperdício, cuja capital simbólica é Los Angeles – ironicamente a cidade do automóvel e do cinema.

Bala de madeira

À parte isso, o filme tem pelo menos duas sacadas brilhantes: a ideia da bala de madeira, única maneira pela qual um vampiro poderia se suicidar de modo rápido e indolor, e o duplo caráter de alimento e droga extasiante que o sangue adquire ao ser consumido pelos protagonistas.

A trilha sonora, que vai de Paganini ao rockabilly de Charlie Feathers, é um deleite à parte, bem como a atuação do trio principal de vampiros, que parecem concentrar no olhar hipnótico e no timbre atemporal da voz toda a sabedoria do mundo.

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José Geraldo Couto

*José Gerado Couto é crítico de cinema e tradutor. Publica suas criticas no blog do IMS. Para ler as edições anteriores da coluna, clique aqui.