“Vadias feministas”

Sete artistas apresentam no documentário Too Much Pussy! sua visão do queer, da pós-pornografia e da emancipação da mulher.

 

Por Bruno Carmelo, editor do blog Discurso-Imagem.

TEXTO-MEIO

O título completo desta empreitada pode surpreender muitos leitores. Em português, a tradução resulta em algo como Vaginas Demais! Vadias Feministas no Show Queer X. Principalmente no Brasil, mas também na Europa de modo geral, as noções originalmente norte-americanas de queer, de pós-pornografia e de militância sexual ainda não fazem parte do vocabulário corriqueiro, nem das práticas culturais cotidianas.

De um modo geral, pode-se dizer que o queer consiste numa crença contemporânea na superação dos sexos e dos gêneros, da noção de que um indivíduo é necessariamente um homem ou uma mulher. Para os engajados nesta causa, esta dissociação é apenas uma convenção social a ser superada para se atingir o bem-estar e a autossatisfação pessoais. O queer engloba o feminismo tradicional, heterossexual, com a homossexualidade (feminina em particular) para produzir uma ode à liberação pessoal, ao prazer sem limites e sem culpas. “Por que pensar que o sexo é ou algo sagrado, ou algo sujo e profano? O sexo é simplesmente bom, as pessoas deveriam saber disso.” diz uma entrevistada.

Seguindo estas noções, Too Much Pussy ! é o tipo de filme que dificilmente chegaria às telas de cinema francesas, se não fosse o grande sucesso de público obtido num festival prévio, com temática LGBT. Este documentário de baixíssimo orçamento é feito com uma estética trash e precária, imagens de baixa resolução, acompanhando o show queer de sete feministas, mostrando com a mesma empolgação suas ideias, as transas entre elas e (literalmente) o colo de seus úteros. A trilha sonora, inteiramente feminina, grita frases de liberação e de desprezo pelas convenções sociais. O conjunto é tosco e orgulhoso de sê-lo – este documentário parece chamar todo filme “bem feito” de burguês, convencional, antigo.

Mas o que faz este grupo de mulheres? Em que consiste suas performances? Sobre os palcos, elas realizam um tipo de cabaré burlesco e sexual, misturando nudez, sangue, urina e algumas cenas de fist fucking explícitas. Nos bastidores, sem maquiagem, elas transam diante das (e exclusivamente para) as câmeras, fazendo do sexo “comum” – entenda-se: não sobre os palcos, sem plateia – uma reivindicação política. Elas falam de suas ideias, de suas vidas, do tipo de meninas que as excitam. Elas viajam e cantam, provocam, mostram os seios. Existe um senso de liberdade neo-hippie nesta empreitada de mulheres que, segundo elas mesmas, “não gostam das regras da sociedade e decidiram fazer algo a respeito”.

Assim, compreende-se que o show feminista não é apenas uma encenação, mas um estilo de vida. Estes seres performáticos atuam durante o filme inteiro, tanto em cena quanto diante das câmeras. Seja porque as sete “vadias feministas” só desejavam mostrar este lado de si mesmas, seja porque apenas este lado interessava à diretora, Too Much Pussy ! não nos mostra suas vidas diárias fora da turnê. Aprendemos inclusive, em determinado momento, que uma delas seguiu uma carreira universitária dentro dos “queer and gender studies” nos Estados Unidos, mas que abandonou a academia para abraçar a prática. As meninas nunca saem do contexto “show”, tampouco a teoria queer é retirada da provocação dos palcos.

Este documentário é inteiramente “mis en scène”, feito para o público, o que lhe confere, por fim, um aspecto bastante fictício. Sabemos que a trupe e que a turnê são efêmeras, mas não sabemos o que estas mulheres representam em seus cotidianos, nem como vivem o feminismo dentro de casa, no trabalho. Too Much Pussy ! faz do queer, uma das teorias sociais mais práticas, um espetáculo fetichista, voyeurista. Assiste-se a estas mulheres libertárias como se vê alguma fera selvagem, algum animal perigoso: com admiração, mas com distância. Afinal, esta é a particularidade do choque: criar uma separação entre eu e o outro, uma distância essencial que impede a integração social destas ideias – algo que é, ironicamente, a base do pensamento queer.

Too Much Pussy ! Feminist Sluts in the Queer X Show (2010)

Filme francês dirigido por Emilie Jouvet.
Com Judy Minx, Madison Young, Mad Kate, Wendy Delorme, Sadie Lune, DJ Metzgerei.

TEXTO-FIM

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Bruno Carmelo

Mestre em teoria do cinema pela Universidade Sorbonne Nouvelle - Paris III, e autor de duas dissertações sobre a crítica de cinema. Trabalha como editor e crítico de cinema no site AdoroCinema.