SP: No palco, mensagem de Teerã

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Maria Fernanda e Guilherme Weber, na performance de 23/5

Com inovações formais e repercussão mundial, “Coelho Branco, Coelho Vermelho” sugere que experimentação artística já não é atributo exclusivo dos ricos


Parceria Outras Palavras:
O site apoia a divulgação da peça. Os leitores têm 50% de desconto, nas duas últimas semanas da temporada. Os participantes de
 Outros Quinhentos têm entrada gratuita.  Em ambos os casos, basta colocar nome na lista

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No momento em que o Irã volta a ocupar papel destacado no cenário geopolítico internacional, é curioso termos em cartaz, em São Paulo, uma peça iraniana inovadora e aberta. Mais que isso, um espetáculo cujo motor é justamente o inesperado e a possibilidade de estabelecer um contato com o outro, um desconhecido por excelência.

Não saber é, aliás, um dado para todos os presentes na arena onde acontece Coelho Branco, Coelho Vermelho, do jovem autor iraniano Nassim Soleimanpour.  Pouco se pode adiantar sobre a experiência sob pena de estragá-la, pois nem o ator que interpreta conhece o texto de antemão. Ao subir ao palco, ele recebe um envelope lacrado e efetivamente encara a primeira leitura diante do público e, em muitos sentidos, com o público. Nas próximas duas semanas, esse encontro se dará no teatro Ágora, em São Paulo, em oito apresentações, de quinta a domingo (veja programação ao final).

A peça nasceu desse desejo de encontro. Por negar-se aos dois anos de serviço militar obrigatório no Irã, o autor perdeu o direito ao passaporte e ficou sem poder sair do país. O texto foi então concebido – e muito ardilosamente bem escrito – como um mecanismo para produzir o encontro. Nassim consegue, de fato, fazer-se presente e conversar “em pessoa” com o performer e sua plateia. Aos poucos, percebemos que é também uma máquina com uma finalidade bem diversa, que chega a provocar reações emocionais e urgentes… mas isso já não é algo que se conte, só se saberá assistindo…

Cada apresentação é obrigatoriamente realizada por um ator ou atriz diferente. Por isso mesmo, torna-se única. Como diz Patrícia Ceschi, da Aymberê, produtora responsável por trazer a experiência ao Brasil, “uma vez que entregamos o envelope ao ator ou à atriz, perdemos completamente o controle sobre o texto”. O entendimento do intérprete, a atmosfera do público, a maneira como vai acontecendo pode transformar completamente o espetáculo de uma performance a outra.

Desde a estreia, a peça foi lida por grandes atores de diversas nacionalidades ao redor do mundo, e a partir de 2012 também por brasileiros. A experiência da leitura é tão intensa que se torna quase um fetiche entre os atores: muitos querem participar do jogo e submeter-se ao experimento do iraniano. No Brasil, gente como Hugo Possolo, Celso Frateschi, Domingos Montagner, Lília Cabral e Fabio Porchat, entre cerca de duas dezenas de outros grandes nomes, já viveram a leitura da peça, que já esteve no Festival de São José do Rio Preto, Campinas, São Carlos e Rio de Janeiro, além de uma temporada no Sesc Vila Mariana, em São Paulo, em junho desse ano.

TEXTO-MEIO

É preciso dizer que a aproximação daqueles dois fatos (os movimentos da geopolítica internacional e a peça) nada tem a ver com as circunstâncias em que a obra foi escrita ou por que é agora encenada no Brasil. Isso é da ordem dos fatores externos que ressignificam a obra. Escrita em 2010, estreou no Festival de Edimburgo, na Escócia, no ano seguinte – portanto num momento bem anterior ao novo papel que o Irã parece querer representar no palco do mundo. Entretanto, que a dramaturgia capaz de propor uma nova relação com o performer e o público surja num país como o Irã diz muito do tempo em que vivemos. A inovação cultural hoje é cada vez menos o resultado de uma evolução tecnológica, por assim dizer. Deixou de ser atributo exclusivo dos centros econômicos onde a pesquisa artística de ponta era possível, para tornar-se produto de uma inteligência que, ao fazer-se periférica, talvez seja capaz de mudar a relação entre os termos constitutivos da linguagem.

A criação de Nassim é comparável a um software livre, um mecanismo que se operacionaliza no compartilhamento e, pelo seu uso coletivo de pessoas as mais estranhas entre si, ganha novos sentidos, coletivos e libertadores. Sem sair de seu rincão, Nassim produziu uma máquina de experiências que nada tem de nacional-regionalista. É fruto de uma cultura da conexão, internacionalista em essência, que inclusive faz uso da internet como recurso cênico.

Tive a oportunidade de conversar com o Nassim. É um jovem inteligente e perspicaz, que se mostra extremamente inquieto com o que pessoalmente está vivendo desde que “Rabbit” (como ele chama sua obra) tornou-se um fenômeno e começou a lhe render comunicações e direitos autorais mundo afora. Queria saber do Brasil, de São Paulo, queria saber de mim, do que estava acontecendo. É ainda um garoto ávido de contato, de saber, de estar junto, de pensar e mudar os seus caminhos e os do mundo. Talvez como qualquer outro de nós. Para ele calhou de inventar o seu próprio instrumento para isso.

Coelho Branco, Coelho Vermelho
De 5 a 15/12
Quintas a sábados, 21h | Domingo, 20h
Teatro Ágora, São Paulo
Rua Rui Barbosa, 672 (mapa)

Ingressos: R$ 40 – R$ 20 para leitores de Outras Palavras (nome em lista a partir de 4/12)
Grátis para participantes do programa Outros Quinhentos (idem)

Com os seguintes atores:

Quinta, 5/12: Raul Barretto
Sexta, 6/12: Fernando Nitchs
Sábado, 7/12: Chico Carvalho
Domingo, 8/12: Heitor Goldflus

Quinta, 12/12: Maria Fernanda Cândido
Sexta, 13/12: Rubens Caribé
Sábado, 14/12: Otávio Dantas
Domingo, 15/12: Denise Del Vecchio

TEXTO-FIM
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