Primeiros na revolta, primeiros no voto

Enquanto democracia retrocede ou cai em descrédito na Europa, árabes decidem levá-la a sério. O caminho da revolução à eleição pode parecer marcha atrás, mas não aqui

Por Santigo Alba Rico, Gara | Tradução: Antonio Martins e Tadeu Breda

“Aqui começaram as revoluções árabes e aqui se celebram as primeiras eleições”, afirmava Zineb, uma jovem de 25 anos, designer de móveis, enquanto esperava sua vez para votar na Praza Bab Assueiqa, em Tunis. Protegia-se do sol implicável sob uma bandeira de seu país, na companhia de três amigas da mesma idade, que insistiam, como ela, no caráter “exemplar” das eleições para o resto do mundo árabe. Duas com véus, duas não, cada uma iria optar por uma lista diferente, mas garantiam que todas votariam “pelos mártires e a liberdade da Tunísia”, e não pelos partidos.

Era um dia de verão, quase tórrido, mas isso não impediu que os tunisianos enfrentassem longas filas diante das urnas, desde as primeiras horas da manhã. Em Hay Tadamun, um dos bairros mais populares e pobres da capital, as taxas de desemprego são as mais altas da cidade, as escolas superlotadas carecem de recursos e as moradias precárias se inundam quando chove. Mas, ontem, centenas de pessoas faziam fila pacientemente, com uma seriedade infantil, para deixarem de ser crianças: das salas de aula convertidas em salas de votação, saíam com um dedo tingido de azul, sinal da nova cidadania recém-estreiada.

O processo era muito lento, mas pouco antes dos colégios fecharem as portas, 70% dos eleitores inscritos já haviam votado. “Para nós, é uma festa”, dizia o interventor do partido islâmico En Nahda enquanto mostrava a imensa cédula de papel, povoada de símbolos partidários, onde os eleitores deveriam marcar uma cruz.

O En Nahda tem uma forte influência neste bairro castigado pela pobreza. Hay Tadamun deu nove mártires à revolução de janeiro, e muitos de seus vizinhos foram encarcerados devido à sua militância islâmica durante o governo de Ben Ali. Um impressionante tecido social de familiares de ex-presos assegura ao En Nahda um apoio que não existem em outros partidos. Garantem também financiamento, organização e recursos.

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Amen, uma inteligente jovem de 19 anos, não quis revelar seu voto — mas nem pecisava. Estudante de Humanidades, ela cobre sua cabeça com o véu enquanto ostenta um sorriso. “Reivindicamos liberdade para todos, inclusive para as pessoas que queremos usar o véu”, dizia, ao passo que aprovava a lei eleitoral elaborada pela Alta Instância para a Realização dos Objetivos da Revolução, que permitirá a entrada de pequenos partidos na Assembleia Constituinte e uma ampla representação das 1.520 listas que se apresentaram para o pleito.

Em Mutuellevile, em Menzah ou Nasser, bairros burgueses, o comparecimento também é muito alto. Aqui, homens e mulheres chegavam de carro e vestidos como ocidentais para votar, sobretudo, nos partidos laicos, socialdemocratas ou liberais: o Partido Democrático Progressista, o Polo Modernista ou Ettakatul. Também, talvez, pelos partidos que escondem os velhos partidários de Ben Ali, agora reciclados como “revolucionários”. Um deles é o Mubadra. Parte de sua estratégia eleitoral esteve erroneamente dirigida a polarizar a sociedade tunisiana em torno do laicismo, fonte de legitimidade da ditadura, favorecendo sem querer os interesses do En Nahda, para quem muitos tunisianos votariam no domingo, por reação, como referente honesto de identidade islâmica.

Os partidos de esquerda, fugazmente reunidos no Frente 14 de Janeiro, não caíram na mesma armadilha e preferiram centrar-se em questões econômicas e sociais — enquanto aceitavam em seus programas referências à majoritária indentidade religiosa —, mas chegaram desunidos às urnas.

Nos últimos meses, após a queda de Ben Ali, as potências ocidentais recuperaram o terreno, os problemas sociais se agravaram e parte do impulso inicial se perdeu. Em Hay Tadamun, um rumor muito eloquente dizia na semana passada que muitos dos jovens que fizeram a revolução em janeiro aproveitariam as eleições para subir num bote com rumo à Itália. Uma rápida profissionalização da política, com esse tumulto de mais de 100 partidos e quase 11 mil candidatos, parecia ter envelhecido o país em poucas semanas.

Mas a jornada eleitoral de domingo, com a inesperada participação, maturidade e felicidade dos eleitores, renova, de outra maneira, a surpreendente exigência de liberdade de um povo de quem nada esperava nada. Como diziam Zeineb e suas amigas, o processo de mudança em curso nos países vizinhos depende do que acontecer na Tunísia.

Não deixa de ser estranho que, enquanto a democracia retrocede ou cai em descrédito na Europa, os árabes decidem levá-la a sério. O caminho que leva da revolução à eleição pode parecer uma marcha atrás, mas não nessa região do mundo, petrificada durante décadas em benefício do Ocidente, nem nesses momentos de contrarrevolução global.

Agora, temos que saber qual e quanta democracia terão os tunisianos, e que farão para defendê-la quando tentem congelá-la, erosioná-la ou roubá-la.

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Santigo Alba Rico

Santiago Alba Rico é um escritor, ensaista e filósofo espanhol de formação marxista e de esquerda. Já escreveu diversos livros nas áreas de filosofia, antropologia e política, além de colaborar com diversas publicações como "Gara", "Rebelión" e "Archipiélago: Cuadernos de crítica de la cultura".

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