Passagem para a Índia

Bollywood dream é autêntico, realça despojamento e coragem, sugere que o caminho importa mais que o ponto de chegada

Por José Geraldo Couto, editor do Blog do Zé Geraldo

“O que importa é a viagem (ou o caminho), não o ponto de chegada.” A frase, de sabor zen-budista, já virou lugar-comum, mas nem por isso perdeu sua validade e sua potência.

Transposta para o campo da produção artística, a ideia ficaria mais ou menos assim: “O que importa não é o produto final, a ‘obra’, mas o processo”. Essa postura, aliás, serviu de diretriz para boa parte da arte ocidental moderna.

TEXTO-MEIO

Pois bem: o que isso tudo tem a ver com Bollywood dream, de Beatriz Seigner, que entra em cartaz hoje em onze cidades brasileiras? Eu diria que tudo. O filme me parece uma esplêndida afirmação dessa ideia em sua dupla face, isto é, como plataforma existencial e artística.

O argumento é simples e original: três jovens brasileiras (Paula Braun, Nataly Cabañas e Lorena Lobato) decidem ir à Índia para tentar a sorte como atrizes na pujante indústria cinematográfica daquele país. Chegam lá com a cara, a coragem e um parco punhado de dólares. E se perdem entre produtores picaretas, grupos mambembes de dança, dificuldades linguísticas, barreiras culturais, descompassos religiosos.

O filme “se perde” com elas, nos melhores sentidos do verbo, registrados pelo Houaiss: “livrar-se de, desfazer-se de” e “tornar-se absorto, ser tomado por devaneios”. Mais ou menos o sentido dado por Fernando Pessoa no lindo verso: “Viajar! Perder países!” As três moças perdem (ganham) a Índia.

A narrativa de Bollywood dream está sempre à deriva, sua estabilidade é sempre provisória. A própria identidade de cada uma das protagonistas – construída em diálogos esgarçados e  flashbacks um tanto desajeitados – parece oscilar a todo instante, como se a qualquer momento as atrizes (Paula, Nataly, Lorena) fossem falar em nome próprio, assumindo o caráter de “faz de conta” da encenação.

Cabelos ao vento

É interessante saber que, nessa co-produção Brasil-Índia de baixíssimo orçamento (US$ 40 mil), os parceiros indianos queriam formatar o filme de acordo com os padrões do cinema de massa daquele país, com uma fotografia “bem composta” e ventiladores soprando os cabelos das atrizes. A jovem diretora rechaçou essa injunção e resolveu empunhar ela mesma a câmera, o que reforçou o aspecto artesanal, quase de filme doméstico, de Bollywood dream.

Curiosamente, alguns dos mais belos momentos são os que mostram as protagonistas num trem em movimento, com os cabelos ao vento (de verdade). Ou seja, o “efeito”, a “beleza”, não são o resultado de cuidados artificiais de produção; são produzidos pelo deslocamento no mundo, pela ação concreta – pela vida, enfim.

Numa época em que a produção de filmes, não só no Brasil, cerca-se de cuidados e salvaguardas – da formação de equipes profissionais hierarquizadas à realização de sessões prévias para sondar os desejos do público, da laboriosa captação de financiamentos e patrocínios ao não menos laborioso marketing para o lançamento nos cinemas -, Bollywood dream espanta pelo despojamento e pela coragem – ou antes, pela coragem do despojamento. Traz a marca do imperfeito, do provisório, até mesmo do precário. Tem o frescor revigorante do risco e do erro. Como notou Inácio Araujo, não tem um fim. Como se nos deixasse no meio da viagem e não na estação de chegada. O que remete de novo ao início deste texto.

E aqui vai um trailer do filme, só pra dar vontade de ver no cinema.

José Gerado Couto é crítico de cinema e tradutor, foi durante anos colunista na Folha, escreve suas criticas hoje em seu próprio blog e na revista Carta Capital.

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José Geraldo Couto

*José Gerado Couto é crítico de cinema e tradutor. Publica suas criticas no blog do IMS. Para ler as edições anteriores da coluna, clique aqui.