O futuro dos e-books

Duas das empresas que lançaram há algum tempo leitores de livros digitais anunciaram simultaneamente ontem a redução, nos Estados Unidos, dos preços de seus produtos. O Kindle, da Amazon, passará a custar 189 dólares (e não mais US$ 259); o Nook, da Barnes & Noble, que custava o mesmo preço, caiu para US$ 199 (ou US$ 149, na versão que se conecta à internet em Wi-Fi, mas não em 3G). As baixas são prenúncio de um enorme movimento na produção de livros eletrônicos. Entre as grandes mudanças dos próximos meses, estão a entrada em cena do Google Books (um site para baixar livros e, mais tarde, um leitor) e a possível queda do preço dos e-readers para abaixo dos US$ 100 (previu-se, ontem, que ocorrerá em menos de 12 meses).

As novidades repercutirão muito além da tecnologia. Para alimentar a reflexão sobre o tema, vale visitar (por enquanto, em inglês), dois textos profundos publicados pelo New York Review of Books. Ambos estão abertos à leitura livre, na internet. O primeiro é um ensaio de Jason Epstein, um editor norte-americano veterano e premiado. Debate as transformações que o novo formato imporá à atividade editorial. Com a autoridade de quem fez carreira longa e bem-sucedida no ramo, Epstein adverte os que duvidam do advento dos livros eletrônicos. Para ele, a transição do papel para os bits é “tão inegociável como os terremotos” — e, além de tudo, muito benvinda. O artigo destaca, como principais vantagens, a popularização e a possível diversidade. Ao invés de cada vez mais concentrada, em poucas e gigantescas empresas, a edição de livros será, em breve, uma atividade acessível aos próprios escritores. Eles se beneficiarão do mesmo tipo de liberdade e alcance conquistado pelos músicos, que agora produzem álguns quase sem custo e os difundem em todo o mundo sem necessidade de uma gravadora.

Como riscos a ser evitados, Epstein aponta a possível destruição dos acervos bibliográficos por regimes autoritários (ele recomenda, para isso, que nunca se interrompa a impressão dos livros). Também condena a tentação fácil de acreditar que o futuro produzirá, também, “o escritor que não necessita comer” — desprezando a necessidade de remunerar os autores.

O segundo artigo é uma cuidadosa análise, escrita pela jornalista Sue Halpern, sobre o IPad, o leitor eletrônico lançado há poucas semanas pela Apple (com repercussão midiática mundial). Sue é profunda (chega a examinar os dois sistemas de “tinta eletrônica” que permitem o funcionamento dos dois modelos principais de e-reader) mas também crítica e mordaz. Seu ensaio destaca algo quase ausente na mídia tradicional: o caráter proprietário do IPad — que tem inúmeras funções além da leitura de livros, mas só pode ser “abastecido” nas lojas virtuais da própria Apple.

“As utilidades do IPad podem ser ingênuas. Podem ser divertidas e atraentes. Podem ser úteis. Só não serão, jamais, livres do controle da Apple”, fustiga o texto. Em outro trecho, ela destaca: “A aposta da Apple é a antítese da abertura que despertou muito da criatividade e ingenuidade que definem e dirigem a internet. Desde o lançamento do primeiro navegador, há 17 anos, ela tem sido campo aberto e irrestrito, acessível para todos. É graças a sua abertura que alguns governos a temem, que algumas companhias são ameaçadas por ela, que um cantor antes desconhecido pode vender um milhão de álbuns, que um garoto de Mumbai pode ajudar a construir um código de computador, agregando sua contribuição a um software desenvolvido em Amsterdam e distribuído em todo o mundo”.

TEXTO-FIM
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