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Se há tantos outros restaurantes por perto — pergunta-se o garçom parisiense — por que você escolheu logo o dele?

Por Daniel Cariello, de Chéri à Paris

O garçom parisiense, eu acho que ainda não falei suficientemente dele, o garçom parisiense acha que você teve a pior ideia do mundo quando escolheu ir ao restaurante no qual ele trabalha. Ora, se há tantos outros por perto, por que você tinha que aparecer logo ali? Agora ele vai ser obrigado a te atender, ou a fazer algo parecido com isso.

Você chega ao restaurante, escolhe uma mesa, senta e espera que o sujeito venha te falar. E espera. Espera e olha para ele, na expectativa de ser notado, mas ele te ignora de uma maneira que nem o pai da sua ex-namorada conseguiu fazer depois de você ter enchido a cara e dado vexame na festa de aniversário da sobrinha de 2 anos, com toda a família reunida.

E quando você já começa a perder as esperanças, ele chega de supetão.

TEXTO-MEIO

– Alors, o que deseja?

Nessa hora você, inocentemente, comete o erro fatal, a gafe imperdoável, o absurdo dos absurdos: pede o menu. O garçom te olha com cara de quem está morrendo de vontade de te jogar na frente do primeiro ônibus biarticulado e aponta para a parede com o queixo.

– O menu está ali, em letras gigantes.

Inexperiente, você cai no segundo equívoco, o de pedir explicação sobre a comida. Ora, quem nesse mundo não sabe o que tem em um prato chamado “Comme un céviche de daurade royale aux herbes, mesclun aux feuilles de moutarde et pignons de pin”? Se não sabe, por que foi inventar de ir àquele estabelecimento, hein? Contendo o impulso de te mandar catar azeitonas na Grécia com o pé esquerdo, ele dá uma bufada ao mesmo tempo que devolve a pergunta.

– Qual parte exatamente o senhor não compreendeu?

Em um ato de extrema e rara benevolência, o distinto decide te conceder mais 11 segundos do seu precioso tempo e narra um resumo explicativo dos pratos do dia, em uma velocidade de causar inveja em locutor de futebol no rádio. Consternado e já quase pedindo desculpas, você opta pelo único que entendeu, o “steak frites”, que deduz corretamente ser o glorioso bife com batatas fritas. O único que não dá margem a erros. Ou quase.

– Cozimento da carne, monsieur?

O cozimento da carne? Você ainda não pensou a respeito, merde! No desespero, faz uma cara de piedade, na esperança de que ele decida por você, mas o olhar do cidadão é tão congelante que você sente frio até na alma. Em pânico, diz a primeira coisa que vem à cabeça.

– Bem passada, por fa…

Mas não consegue terminar a frase.

– Carne bem passada fica dura e sem gosto. Não presta. Ou você pede outro cozimento ou escolhe outro prato. O peixe com pimentões e tomates é bom.

Apavorado, você aceita a sugestão, sem nem ter escutado direito, com o único pensamento de se ver logo livre do sujeito. Pouco depois, ele traz a sua comida e só aí você se lembra que detesta pimentão. Por um segundo, você chega a cogitar a possibilidade de dizer que não era bem isso o que gostaria de ter pedido, de saber se seria possível ele ser compreensível e trocar pimentões por batatas, mas o garçom parisiense lê o seu pensamento e te manda um olhar glacial e uma bufada do outro lado do restaurante. Nesse exato momento você se convence de que você e o pimentão nasceram um para o outro.

TEXTO-FIM

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Daniel Cariello

Daniel Cariello é colaborador de Outras Palavras e, antes, do Diplô Brasil, desde 2008. Já lançou dois livros de crônicas, Chéri à Paris (2013) e Cidade dos Sonhos (2015), ambos best sellers na Amazon. Foi cronista de Veja Brasília e Meia Um. Este texto faz parte de seu novo projeto, Cartas da Guanabara, com crônicas cariocas. É editor do selo literário Longe.

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