Miguel Gomes, cineasta português desconcertante

As mil e uma noites

Um dos diretores mais criativos do novo século articula, em “As mil e uma noites”, os  absurdos e paradoxos da globalização com dispositivos narrativos da tradição árabe

Por José Geraldo Couto, no blog do IMS

Um dos grandes cineastas do mundo hoje é o português Miguel Gomes. Com apenas quatro longas-metragens até agora (A cara que mereces, Aquele querido mês de agosto, Tabu e a trilogia As mil e uma noites), sua obra é uma das mais criativas e desconcertantes do novo século.

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Os cinéfilos cariocas têm até o dia 6 de julho a rara oportunidade de ver, em sequência ou na ordem que preferirem, os três “volumes” do monumental As mil e uma noites, de 2015. Cada uma das três partes tem pouco mais de duas horas e compõe-se, por sua vez, de diversos episódios com tênue conexão entre si.

Liberdade de invenção

É, no conjunto, um extenso e heterogêneo painel crítico do mundo globalizado contemporâneo, com ênfase em Portugal e sua inserção torta na Europa unificada. Do clássico árabe que lhe dá título, o filme aproveita não apenas o dispositivo de uma narradora que encadeia histórias independentes, mas também e principalmente a liberdade de invenção e a fantasia desbragada.

No filme, essa liberdade se manifesta, por exemplo, na mistura de gêneros, ou na passagem abrupta de um a outro. O primeiro volume, “O inquieto”, começa com um documentário combativo sobre a privatização dos estaleiros portugueses e o desemprego de milhares de trabalhadores do setor. Parece uma obra do engajado Ken Loach, até que se entrelaça na narrativa uma história paralela e insólita, o ataque de vespas ferozes às colmeias produtoras de mel.

Depois disso o filme passa para um registro francamente paródico. O próprio cineasta, declarando-se incapaz de fazer um filme sobre o mundo que o cerca, foge de sua equipe e acaba enterrado na areia até o pescoço. Deixa então a tarefa de narrar a Xerazade (que só aparecerá de fato no terceiro volume, “O encantado”). Esse salto metalinguístico vale, por um lado, como uma declaração de que só a fantasia dá conta de abordar um mundo absurdo. Por outro, abre as portas para todos os delírios e incongruências que virão depois.

E não serão poucos, ao longo das três partes. De uma reportagem sobre um concurso clandestino de cantos de pintassilgos a uma reunião de autoridades portuguesas com representantes do FMI que chegam montados em camelos como sultões, da lírica história de um cachorrinho de estimação que passa de dono em dono ao rumoroso caso de um galo que talvez fale e preveja o futuro, os registros se sucedem, se dissolvem, mudam de tom, numa incessante proliferação de sentidos.

Mecanismos de opressão

Se há, no meio desse vertiginoso caleidoscópio, um trecho que sintetiza toda a potência criativa de Miguel Gomes, talvez seja o episódio “As lágrimas da juíza”, no centro do segundo volume. Ali, um julgamento realizado à noite num anfiteatro ao ar livre, tendo entre as testemunhas um gênio da lâmpada e uma vaca falante (que parece saída de um bumba-meu-boi), desvenda de modo hilário e implacável os mecanismos de opressão da sociedade contemporânea, bem como a hipocrisia da linguagem hegemônica.

No contexto do cinema português, Miguel Gomes, que faz parte da geração saída nos anos 1990 da Escola Superior de Teatro e Cinema do Instituto Politécnico de Lisboa, aproxima-se muito mais do humor anárquico e iconoclasta de um João César Monteiro, ao qual acrescenta a ligeireza da cultura pop, do que do rigor clássico-literário de um Manoel de Oliveira. Dele se pode esperar tudo. E mais um pouco.

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José Geraldo Couto

*José Gerado Couto é crítico de cinema e tradutor. Publica suas criticas no blog do IMS. Para ler as edições anteriores da coluna, clique aqui.
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