Jim Jarmusch capta a encruzilhada do Ocidente

 

140503-OnlyLovers

Em “Only lovers left alive”, casal vampiro erudito percorre séculos da História humana, oscilando entre pessimismo e esperança fundada em desejo e revolução

Por Bruno Lorenzatto

Pode dizer-se contemporâneo apenas
quem não se deixar cegar pelas luzes do século

e consegue entrever nessas a parte da sombra,
a sua íntima obscuridade.

Giorgio Agamben

Seria preciso não se deixar enganar pela mitologia pop e gasta da imagem do vampiro. O tema subjacente ao novo filme de Jim Jarmusch – Only lovers left alive [2013, com lançamento no Brasil previsto para agosto], foge às abordagens usuais que evocam este tipo de ficção. Trata-se menos de habilidades sobre-humanas, do que de um excesso de vivência histórica e a relação com o presente dos personagens, num mundo a beira de sua própria destruição.

A literalização de uma metáfora através do cinema: o que poderia significar uma experiência histórica milenar, vivida e refletida, por um homem?

TEXTO-MEIO

A maldição segundo a qual a ficçção determina o destino dos vampiros, sabe-se, é o desejo humano de imortadidade. Viver para sempre pode significar o sofrimento de uma angústia constante, interminável. A história dos homens como um fardo quase insuportável.

Embora vivos desde um passado remoto, é precisamente nesta inatualidade para com o presente que os vampiros de Jarmusch são contemporâneos, se pensarmos na definição do filósofo italiano Giorgio Agamben: “é verdadeiramente contemporâneo aquele que não coincide perfeitamente com este, nem está adequado às suas pretensões, e é, portanto, nesse sentido, inatual, mas, exatemente por isso, exatamente através desse deslocamento e desse anacronismo, ele é capaz mais do que os outros, de percerber e apreender o seu tempo” (P. 58)*.

O cineasta americano materializa na tela Adam e Eva (símbolos da grandeza e da queda dos primeiros seres humanos, segundo a mitologia cristã), um casal de vampiros eruditos e solitários que viveram centenas de anos da história do Ocidente. Desde a Idade Média eles observaram de perto as injustiças absolutas, as guerras e revoluções, a superação de sistemas econômicos, o devir da arte e a miséria humana. Isso os faz ter uma visão distanciada e crítica das ações dos homens em nosso tempo, os quais são chamados de zumbis pelos vampiros. Trágica e cômica inversão que evoca o ser humano como uma caricatura de si mesmo. O zumbi é a figura mítica de um morto-vivo, aquele que não sente ou pensa; imagem do homem que age segundo uma força externa que o controla. Essa metáfora, em Only lovers left alive, nos remete ao capitalismo. Nesse sentido, há quase dois séculos, Marx dizia o que permance atual: o capitalismo não cria objetos para sujeitos, mas sim, sujeitos para objetos. Na linguagem de Jarmusch, esse sistema econômico cria zumbis – nós –, que só nos daremos conta do processo de extinção da vida “quando for tarde demais”.

No filme, Adam é retratado num estado depressivo e suicida. A razão de sua crise, ele o conta a Eva: A maneira como os “zumbis” tratam o mundo.

A contrapartida do pessimismo de Adam é a lucidez de Eva, que encontra no simples fato de estar viva e cultivar elementos fundamentais como a amizade, a generosidade e o prazer do corpo na dança, razões suficientes para continuar, além da crença na transformação da história, que não cessa de operar o seu devir. À angustia de Adam, que vê no presente o colapso do mundo, Eva responde na forma de uma profecia que insinua a mudança ou a revolução; talvez se aproxime o tempo em que a ampulheta será novamente virada.


* Trecho extraído do artigo de Giorgio Agambén, O que é o contemporâneo, disponível em: http://cinescontemporaneos.files.wordpress.com/2013/05/34498541-agamben-giorgio-o-que-e-contemporaneo-e-outros-ensaios.pdf

Trailer:

Download: http://thepiratebay.se/torrent/9615024/Only.Lovers.Left.Alive.2013.HDRip.XviD.AC3-RARBG

TEXTO-FIM
The following two tabs change content below.

Bruno Lorenzatto

Licenciado em história e mestre em filosofia pela PUC-Rio