Eros vence Tânatos, no cinema de Luiz Rosemberg

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Homenageado na mostra de Outro Preto, autor ressurgiu os 70, sempre criativo e ainda mais refinado. Em “Guerra do Paraguay”, volta a seu  tema paermanente, o combate à opressão

Por José Geraldo Couto, blog do IMS

Dia de falar brevemente de assuntos diversos.

Primeiro: está acontecendo até o próximo dia 27 a 12ª edição da CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto, evento dedicado especialmente à preservação da memória do cinema – e da memória do país por meio do cinema. Este ano serão homenageados o pesquisador e dicionarista Antônio Leão da Silva Neto, a montadora Cristina Amaral e o projeto Vídeo nas Aldeias, criado e capitaneado pelo documentarista Vincent Carelli (de Martírio).

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O filme de abertura do evento, no dia 22 (quinta-feira), Desarquivando Alice Gonzaga, de Betse de Paula, fala sobre a Cinédia, do pioneiro Adhemar Gonzaga, a partir da luta de sua filha pela preservação da memória e do patrimônio fílmico do estúdio carioca.

Outro documentário importante incluído na programação da CineOP é Rosemberg – cinema, colagem e afetos, que está em cartaz no Rio e deve seguir depois para outras cidades. Esse é o segundo assunto que quero abordar aqui.

Rosemberg

Homenageado há três anos com uma retrospectiva na própria CineOP, Luiz Rosemberg é um fenômeno singular na cinematografia brasileira. Cineasta radicalmente autoral, realizou nos anos 1970 obras marcantes como Jardim das espumas (1971), A$$untina das Amérikas (1976) e Crônica de um industrial (1978). Dirigiu ainda uma espécie de metapornochanchada, O santo e a vedete (1982) e depois disso fez dezenas de curtas e vídeos que infelizmente pouca gente viu.

Em 2014, depois de mais de três décadas sem realizar um longa, apresentou Dois casamentos, seguido dois anos depois pelo estupendo Guerra do Paraguay. No mesmo período dirigiu um punhado de curtas provocadores, despudorados, desconcertantes.

Renascimento criativo

Esse renascimento criativo do cineasta depois dos setenta anos, que lembra o caso análogo de Eduardo Coutinho, deve muito ao empenho de um jovem admirador, Cavi Borges, que produziu, com poucos recursos e muito entusiasmo, todos os seus filmes mais recentes. Cavi é também co-diretor do documentário Rosemberg – cinema, colagem e afetos, junto com Christian Caselli.

Pois bem. O documentário fornece de maneira quase didática algumas chaves para penetrar nessa obra única e sem concessões, que foi incluída à revelia no mal chamado “cinema marginal” por pura preguiça classificatória do nosso jornalismo cultural.

O primeiro acerto do filme é adotar, como tema e método, o princípio da colagem. Rosemberg monta há décadas um painel com fotos, desenhos e palavras impressas que de alguma forma expressam, em múltiplas conexões, suas ideias, fantasias e emoções. Há de tudo ali: cenas de filmes, instantâneos de amigos, reproduções de obras artísticas, fotos de jornal, gravuras, textos, rabiscos.

O documentário de Cavi Borges e Christian Caselli, de certa forma, faz o mesmo. Sob o depoimento atual do próprio Rosemberg, em voice over, vão desfilando – ou melhor, se chocando – trechos de filmes seus e alheios, imagens de arquivo e animações de todos os tipos. Longe de compor uma barafunda aleatória e incompreensível, os signos se esclarecem mutuamente, produzem faíscas de lucidez e poesia.

Assim é, em grande parte, o cinema de Rosemberg: uma rearticulação criativa de imagens já existentes, ao lado da produção de imagens potentes e originais. Um diálogo com gêneros estabelecidos, como o musical, o filme erótico, o documentário social – tudo isso com um viés ao mesmo tempo ferozmente político e profundamente amoroso.

Os filmes do diretor, do primeiro ao mais recente, denunciam sistematicamente todas as formas de opressão e todos os discursos de impostura (incluindo os do próprio cinema de entretenimento), e ao mesmo tempo exaltam a liberdade e o amor sob todas as suas formas. A diferença está talvez numa maior depuração formal das últimas obras, numa síntese ou essencialização que se alimenta muito do teatro e que contrasta com a heterogeneidade flagrante de registros e texturas dos filmes dos anos 1970. No mais, qualquer que seja o enredo, o gênero ou o ambiente, é sempre o embate de Eros e Tânatos – e Rosemberg, artista generoso e íntegro como poucos, está sempre, com todas as suas armas, do lado do primeiro.

Tabu na Sessão Cinética

O terceiro assunto da coluna é a exibição de um dos filmes mais lindos da história do cinema na Sessão Cinética de Hoje no Instituto Moreira Salles do Rio.

Estou falando de Tabu (1931), último filme do gênio Friedrich Murnau. A história do trágico amor proibido entre dois jovens nativos de uma ilha dos Mares do Sul – o pescador e mergulhador Matahi e a donzela Reri, prometida ao rei da região – é um fecho à altura de uma obra que tem entre seus pontos luminosos Nosferatu, Fausto, O último homem e Aurora. Mas ao mesmo tempo representa um desdobramento estético que apontava para uma superação do cinema produzido até então por Murnau (que morreu logo depois num acidente de carro).

Aqui, associando-se ao documentarista norte-americano Robert Flaherty como co-roteirista e coprodutor, o diretor alemão matiza seu pendor para a estilização expressionista com a observação etnográfica, mais “realista”, da vida de uma comunidade quase intocada pela civilização ocidental. Continua presente o extremo domínio da luz e da sombra como os elementos essenciais de narração e expressão, mas ao lado de uma sensualidade nunca antes exposta de modo tão carnal em seu cinema.

Uma sensualidade, aliás, que não se mostra apenas nos reluzentes corpos seminus de homens e mulheres, não apenas em suas carícias e danças, mas no próprio ritmo do filme, com seus momentos de excitação crescente seguidos por um ralentar das ações, por um alongamento dos planos, quase como se essa alternância correspondesse a ciclos de desejo e culpa, impulso vital e morte. (Desconfio que Luiz Rosemberg goste muito desse filme.)

Como sempre ocorre nessas sessões mensais, haverá um debate com os críticos da revista Cinética depois da exibição do filme. O próximo título, programado para julho, é Tocaia no asfalto (1962), marcante policial social do baiano Roberto Pires, um dos precursores do Cinema Novo, em que Agildo Ribeiro, mais conhecido como comediante, encarna um matador profissional.

 

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José Geraldo Couto

*José Gerado Couto é crítico de cinema e tradutor. Publica suas criticas no blog do IMS. Para ler as edições anteriores da coluna, clique aqui.

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