A revolução dos bichos

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Novo filme do pernambucano Tião combina sátira de costumes, especulação metafísica e alegoria política. Além de provocadora, obra revela inquietação formal comparável à do português Miguel Gomes

Por José Geraldo Couto, no blog do IMS

É tempo de cinema francês nas telas brasileiras. O já tradicional Festival Varilux exibe em 55 cidades dezoito produções recentes e inéditas, além do clássico Duas garotas românticas (1967), de Jacques Demy. Em meio à bem-vinda invasão gaulesa, um filme brasileiro dos mais surpreendentes e originais corre o risco de passar batido. Estou falando de Animal político, primeiro longa-metragem do cineasta pernambucano Tião, que já foi premiado em Cannes com os curtas Muro (2008) e Sem coração (2014).

Trata-se, literalmente, de uma fábula, isto é, de uma narrativa ficcional em que animais falam e agem como se fossem humanos. No caso, um único animal, uma vaca, que se comporta como uma pessoa comum misturada a outras pessoas comuns no metrô, na academia de ginástica, no cabeleireiro, na fila do ponto de ônibus, em casa com a família vendo televisão.

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Humor e estranheza

O efeito cômico e desconcertante é imediato. A mera presença da vaca em ambientes que não são os seus – mas que todos os outros personagens encaram com naturalidade – cria um estranhamento que acaba por iluminar ironicamente o comportamento humano na sociedade urbana contemporânea. A estranheza é ainda maior pelo fato de se tratar claramente de uma fêmea, com generosas tetas de vaca, mas cujos pensamentos são expressos por uma voz masculina.

A par da comicidade, a repetição de situações e a angústia transmitida pela voz em off instilam aos poucos uma curiosa melancolia. Não pode haver um ser mais solitário no mundo do que essa vaca com voz de homem.

Quando esse ponto de partida parece ter-se esgotado e o espectador começa a se perguntar se o argumento não caberia melhor num curta, o filme dá uma primeira virada. Desiludida com a cidade, ansiosa por encontrar seu “verdadeiro eu”, a vaca sai para o campo, o deserto, as matas. Entra em cena então uma nova personagem, uma moça nua que vive solitária numa ilha desde que o barco em que viajava naufragou. A vaca é esquecida por um momento. É toda uma seção autônoma que se inicia, como um curta enxertado no filme.

Mas esse salto implica também uma mudança de tom: o que começou como sátira de costumes do mundo contemporâneo passa para uma dimensão de alegoria política, pois a tal moça (nomeada como “a caucasiana”) sintetiza em sua história e em seu discurso todo um modelo de dominação cultural, racial e de classe que marcou nossa formação.

Depois desse intermezzo, numa outra virada, a vaca reaparece mais antropomorfizada (agora é um homem vestido de vaca, andando com duas pernas, sentando-se no sofá de casa ou no assento do metrô e até ordenhando uma outra vaca).

Solidão metafísica

Tão importante quanto a engenhosidade do argumento e seus desdobramentos é o modo preciso e elegante como Tião constrói e articula suas imagens, sobretudo nos grandes planos abertos que sublinham a solidão da vaca nos mais diversos ambientes: num quebra-mar deserto com Recife ao fundo, em estradinhas de terra, nos vales áridos do sertão. A imagem é sempre límpida, translúcida, de imensidão metafísica, como num quadro de Magritte ou de De Chirico.

Esse viés cósmico-espiritual é introduzido com humor auto-irônico numa passagem em que a vaca encontra os antropoides do 2001de Kubrick, diante do mesmo monolito misterioso.

Enfim, da sátira de costumes à especulação metafísica, passando pela alegoria política, este é um filme que não cessa de surpreender e não se deixa apreender com facilidade. Na sem-cerimônia com que passa de um registro a outro, em sua liberdade de fantasia e em sua inquietação formal, só encontra paralelo hoje, a meu ver, no cinema do português Miguel Gomes (de Tabu e As mil e uma noites).

A vaca de Animal político merece ocupar um lugar só seu no bestiário cinematográfico, em algum ponto entre o jumento da obra-prima Au hasard Balthazar, de Robert Bresson, e o porquinho rosado da comédia familiar Babe, de Chris Noonan. Uma coisa é certa: depois de assistir a esse filme você nunca mais verá com os mesmos olhos uma vaca – e, aliás, nem os seres humanos.

 

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José Geraldo Couto

*José Gerado Couto é crítico de cinema e tradutor. Publica suas criticas no blog do IMS. Para ler as edições anteriores da coluna, clique aqui.