A psicologia do subúrbio

A comédia Tout Ce Qui Brille aborda os sonhos de ascensão social e a marginalidade na França.

Por Bruno Carmelo, editor do blog Discurso-Imagem.

A melhor tradução para o título do filme francês Tout Ce Qui Brille é provavelmente “nem tudo que brilha”, em referência ao provérbio “nem tudo que brilha é ouro” (tout ce qui brille n’est pas de l’or). Anuncia-se portanto um filme sobre as aparências, sobre o desejo de enriquecimento e sobre a separação entre classes sociais.

É preciso explicar, neste contexto francês, a imensa separação que existe entre Paris e sua periferia. Os preços exorbitantes dos apartamentos na capital e a fraca política de integração do governo empurram a grande maioria dos habitantes de baixa renda em direção à periferia, orbitando em torno de Paris, cidade onde quase toda a atividade econômica e comercial está concentrada. Muitos deles são imigrantes ou filhos de imigrantes, o que cria uma tendência ao gueto em moldes não muito distantes da separação de bairros vista nos Estados Unidos, por exemplo.

É neste panorama social que são criadas Ely e Lila, duas garotas de origem magrebina que sempre moraram “a 10 minutos de Paris”, numa posição geográfica considerada privilegiada pelos pais, mas insuportável para as filhas. Afinal, morar perto de Paris não é morar em Paris, ser francês de ascendência estrangeira não equivale culturalmente a ser um francês “da gema” (de souche), expressão balançada frequentemente pelos políticos de direita. A separação entre o centro e a margem, entre o rico e o pobre se somam às dificuldades da entrada na fase adulta para ambas.

Tout ce qui brille poderia ser uma grave denúncia do abismo social instaurado nesta capital, ou apenas uma diversão ressaltando os aspectos culturais que distinguem homens de mulheres, jovens de adultos, árabes de cristãos. Ora, ele consegue esquivar estas duas vias ao deixar apenas no pano de fundo a questão da religião e do determinismo social: ao invés de “vítimas da sociedade”, ambas são amadas pelos pais, têm pequenos empregos precários mas estáveis como qualquer parisiense de classe baixa e pertencem tacitamente a um sistema político que funciona há décadas desta maneira.

TEXTO-MEIO

Ou seja, à primeira vista, Ely e Lila “pertencem ao sistema”, não fazem parte da margem. Mas o desejo de enriquecer e de pertencer a outro grupo social leva ambas não exatamente a atos de delinquência, mas a outra solução que os brasileiros poderiam identificar como “malandragem”. As garotas não roubam bancos, no intuito de enriquecer definitivamente, elas simplesmente tomam táxis para sair à noite e saem correndo do veículo, sem pagar. Elas roubam um item ou outro de lojas, nada que possa danificar o caráter das duas jovens aos olhos do espectador. Elas apenas tentam “se virar” – outra expressão bastante brasileira.

O mais interessante talvez seja o que o filme faz destas personagens. Nem ascensão ao poder, nem lição de moral, as pequenas artimanhas e trapaças das duas são todas efêmeras, levando-as de volta à estaca zero. Tout ce qui brille insiste acima de tudo na “normalidade” (no sentido estrito do termo) desta pequena delinq.uência, no caráter inconsequente dos atos e na falta de perspectiva de mudança. As amizades se reforçam em torno da situação social comum a ambas, mesmo se o final adota um tom meio amargo: depois de fingirem participar da alta sociedade, de roubarem e insinuarem que moram no bairro rico, elas são obrigadas a voltar ao bairro da periferia onde realmente moram.

Neste momento o conto de fadas acaba, elas são obrigadas a aceitar o fato de estarem, afinal, a dez minutos de Paris. O filme transita entre esta doce ilusão de adolescente e a dura realidade dos adultos franceses de periferia, marginalizados no interior do próprio sistema. Tout ce qui brille tem cara de algum bombom recheado com um licor um tanto amargo.

Tout ce qui brille (2009)
Filme francês dirigido por Géraldine Nakache e Hervé Mimran.
Com Géraldine Nakache, Leïla Bekhti, Audrey Lamy, Virginie Ledoyen, Daniel Cohen, Manu Payet.

TEXTO-FIM

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Bruno Carmelo

Mestre em teoria do cinema pela Universidade Sorbonne Nouvelle - Paris III, e autor de duas dissertações sobre a crítica de cinema. Trabalha como editor e crítico de cinema no site AdoroCinema.