Internet das coisas ou das pessoas?

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Que esperar da rede? Um mundo mágico e consumista, onde os objetos preveem nossos desejos? Vigilância e controle? Talvez seja possível, ainda, uma alternativa

Por Julia Powles e Jenny Judge | Tradução: Rafael Zanatta

Permitam-me um desvio de rota do debate sobre cooperativismo digital e economias do compartilhamento. Nesse texto, quero introduzir uma discussão sobre “Internet das Coisas” – uma das expressões mais utilizadas e sobrevalorizadas nas mídias de tecnologia.

Certamente, você já ouviu falar ou leu algo a respeito da “Internet das Coisas”. Mais do que um conceito delimitado, a expressão carrega mais a ideia de uma visão. Nos termos da IEEE Computer Society, trata-se de uma “visão de uma infraestrutura global de objetos físicos em rede”.

TEXTO-MEIO

Como explicado por alguns pesquisadores italianos, “o termo Internet of Things é usado como um guarda-chuva para cobrir vários aspectos da extensão da Internet e da Web ao campo físico, por meio da ampla utilização de dispositivos espacialmente distribuídos com identificações embutidas, sensores e capacidades de ação”. Esse ideal prevê “objetos inteligentes” nas grandes cidades, no ambiente de trabalho e nas residências.

Porém, antes de pensarmos em objetos, devemos pensar nas pessoas. Afinal, para que precisamos de uma Internet das Coisas? Como queremos moldá-la? Como os objetos conectados podem estar a serviços das pessoas e não de grandes corporações?

Essas perguntas são enfrentadas pelo provocador ensaio de Julia Powles e Jenny Judge, duas jovens pesquisadores da Universidade de Cambridge. Em 2015, elas publicaram o texto Forget The Internet of Things, We Need an Internet of People no jornal The Guardian.

Selecionei esse texto para tradução pois acredito que ele coloca o debate nos termos corretos, com uma provocação sobre a centralidade dos indivíduos e os possíveis designs dessa infraestrutura. Trata-se de um exercício à imaginação. (Rafael Zanatta)

A “Internet das coisas” é uma visão de conectividade ubíqua impulsionada por uma ideia básica: as telas não são a única porta de entrada para a rede das redes.

O debate público sobre Internet das coisas é polarizado. Os comentadores tendem a expressar ou um otimismo excessivo ou um total ceticismo, com muito pouco no meio dessas duas visões.

Do encantamento à maldição

Os otimistas descrevem um campo mágico de “objetos encantados”, onde os objetos que possúímos gentilmente antecipam nossas necessidades diárias. O cabo do guarda-chuva fica azul quando há previsão de chuva; as geladeiras conectadas nos lembram quando estamos sem leite. Nossas casas se tornam máquinas bem azeitadas, eficientes como qualquer casa vitoriana – mas sem qualquer salário de servos para pagar (ou, ao menos, nenhum que possamos ver).

O outro lado pinta um cenário muito mais sombrio. Argumenta-se que, na melhor das hipóteses, a Internet das coisas é somente outra desculpa para o consumismo desenfreado, cuja única contribuição será lotar nossos porões com tranqueiras desnecessárias.

No pior cenário, objetos caseiros de uso diário serão transformados em espiões inimigos, nos colocando em constante vigilância. Nós seremos empurrados e manipulados a todo o momento. Nossas vidas e posses serão perpetuamente expostas aos hackers. A Internet das coisas irá encher nossas casas com objetos que parecem bons, mas esses objetos estão longe de serem encantados – eles são malditos.

Um terceiro caminho

Parece que estamos em uma encruzilhada onde há dois caminhos: ou uma Escola de Magia de Hogwarts digitalizada ou uma distopia de vigilância e exploração. Nenhum dos dois é atraente. Estamos então presos em uma Internet das coisas estúpidas ou más? Ou há uma outra opção?

A saída é contra intuitiva. Em resumo, nós precisamos esquecer das coisas. Nós precisamos parar com essa obsessão com “objetos inteligentes”, e precisamos começar a pensar de forma inteligente sobre pessoas.

Dificilmente podemos desviar nosso olhar das nossas portas de entrada à Internet. Os dispositivos amontoam-se em nosso caminho. Ficar acorrentado às nossas mesas significa perder parte de nosso tempo de vida. Olhar para nossos smartphones afeta nossa coluna. Estamos perdendo o sono. Nossa visão está falhando. Nossas próprias identidades estão ameaçadas pela opacidade da web.

Algo precisa mudar.

Wearables não bastam

Até hoje, as tentativas de mais alto nível para reimaginar nossas portas de entradaGoogle Glass e Apple Watch – têm sido decepcionantes. Elas ainda são telas, seja no seu rosto ou no seu pulso.

Mas nosso modo padrão de interagir com o mundo não é por meio de telas. Nós respondemos ao ambiente, ao que ele oferece, de um modo automático e intuitivo. Em quase todos os cenários cotidianos, não vemos nossas coisas como coisas em si. Nós simplesmente as usamos. Vemos um martelo e o pegamos. Vemos uma bola de borracha e a apertamos, ou a quicamos no chão.

Esse foi o insight de Heidegger, que também motiva a tese dos objetos encantados. O mundo se apresenta, em primeira instância, como pronto para o manuseio – como disponível para o uso. Manejamos as coisas com nossos corpos sem pensar, executando cálculos imensamente complicados sem mesmo estar cientes disso.


O mundo é cheio de informação que acessamos instintivamente. Mas, até o momento, esse conhecimento tem sido inútil no mundo digital, decididamente bidimensional. O desafio, e a oportunidade, é aproveitar nosso conhecimento de como as coisas reais, tocáveis e quicáveis funcionam, e usá-las para dar forma a experiências mais significativas, conectadas e gratificantes. Mas como?

Em busca de um “Bauhaus digital”

No início do século XX, o movimento Bauhaus definiu-se com dois slogans: primeiro, a forma deveria seguir a função; segundo, o design deveria ser verdadeiro com os materiais.

Os designs Bauhaus eram honestos. Não mais metais com tons de ouro, pedras esculpidas em pétalas de rosa, ou colunas gregas para tornar edifícios sérios. Devemos saber instintivamente o que um objeto faz assim que o encontramos.

Telas não comunicam o que fazem. Elas nos removem de nossos ambientes. E não apenas isso: na medida em que aceitamos despreocupadamente os termos de uso, nossa informação pessoal é desviada para terceiros, de invisível e incompreensivelmente, de modo que logo ignoramos o que está acontecendo.

Mas e se pudéssemos desenhar os objetos que se conectam à Internet de um modo verdadeiramente inteligente, de formas diferenciadas, capazes também de comunicar suas próprias funções? E se pudéssemos entender essas funções de modo intuitivo, sem muito esforço? E se esses objetos nos mostrassem – mostrassem mesmo, por meio de seus elementos de design, seus fluxos de dados e suas condições legais de uso: como nossa informação está sendo usada, quem pode acessá-la, para onde está indo e por quê?

E se, assim como o Centro Pompidou, os tubos fossem usados na parte externa, evidenciando, antes de mais nada – ao invés de assumir implicitamente – por que precisamos de redes?

O mundo digital está em disputa

Esse é o verdadeiro potencial da Internet das coisas. Ela pode fazer nossas vastas quantidades de conhecimento tácito e encarnado trabalhar online. Ela pode unir os mundos físicos e digitais. E ela pode nos colocar no controle de nossa própria informação e integridade contextual, em meio a um compromisso moral e político com os direitos humanos, o estado de direito e a coesão social. Ela pode se tornar uma Internet, não de coisas inteligentes, mas de pessoas inteligentes e empoderadas.

É difícil enxergar como isso pode ser, exatamente. Mas imaginar tal cenário não deveria ser uma tarefa de empresas de tecnologia e oportunistas que estão nesse “ciclo hype”. Artistas, designers, filósofos, advogados, psicólogos e trabalhadores sociais devem estar tão envolvidos quanto engenheiros e usuários de Internet na modelagem de nosso futuro digital coletivo.

A Internet tornou-se uma parte tão onipresente de nossas vidas que tendemos a esquecer que ela está em sua infância. É apenas um protótipo cru do que pode ser. A Internet do futuro não precisa ser como a Internet de hoje: plana, monopolizada e perigosamente opaca. Suas formas, contornos e sensações ainda estão em disputa.

TEXTO-FIM
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Rafael A. F. Zanatta

Doutorando pelo Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo. Mestre em Direito pela Universidade de São Paulo. Mestre em Direito e Economia Política pela Universidade de Turim. Líder do programa de Direitos Digitais do Idec -- Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor