Sinal dos tempos: Boulos já não escreve na Folha

“Seguirei meu caminho. Continuarei escrevendo, em outros lugares. E continuarei lutando, com meus companheiros, por moradia e igualdade social — ocupando e resistindo”

Guilherme Boulos fala durante assembleia geral da Ocupação do MTST na av. Paulista

Guilherme Boulos fala durante assembleia geral da Ocupação do MTST na av. Paulista

Por Guilherme Boulos | Imagem: Mídia Ninja

Recebi nesta quarta-feira (8) uma ligação da direção da Folha dizendo que esta seria minha última coluna. Não estranhei. Estranhei, na verdade, que essa ligação tenha demorado tanto tempo para acontecer. Tenho posições antagônicas às do jornal e, principalmente, uma militância que incomoda a maior parte dos leitores e anunciantes que o mantém.

O argumento dado foi de uma renovação “natural”, uma rotatividade de colunistas. Pode ser. Porém, até pelo momento em que ocorre, me parece impossível não relacionar o gesto ao acampamento do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto) na Paulista, com todas as reações de hostilidade que gerou em empresários e associações sediadas naquela avenida.

A gritaria de desqualificação da luta do movimento acaba dando o tom na maioria do leitorado da Folha, cada vez mais conservador. Sucumbir a esta grita é tentador.

Saio pela porta da frente, sem ter recuado em nenhuma de minhas posições nesses mais de dois anos escrevendo para o jornal. Devo dizer também que em nenhum momento houve intervenção no conteúdo do que publiquei.

Quando decidi aceitar esta coluna, numa decisão tomada junto com meus companheiros de militância, foi pelo esforço de dialogar com um público mais amplo do que aquele que está próximo dos movimentos sociais.

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Funcionou, para o bem e para o mal. Frequentemente meus textos tornaram-se objeto da ruminação rançosa dos comentadores de internet. É o que sabem fazer. Como disse Criolo, cada um dá o que tem, quem tem ódio dá ódio. Mas os textos também chegaram em gente que lê com espírito aberto e ajudaram a quebrar preconceitos sobre a luta do movimento popular.

Tenho o maior respeito e amizade por vários colunistas da Folha. Gente da qualidade de Gregório Duvivier, Vladimir Safatle, Laura Carvalho, André Singer, Juca Kfouri e tantos outros. Nem tantos, na verdade, alguns…

Não é porque deixo de escrever esta coluna que mudarei minha opinião sobre a importância dos textos desses escritores para o debate público. Tenho também grande respeito pelos profissionais jornalistas que trabalham ali.

Seguirei meu caminho, sem transigir um passo. Continuarei escrevendo textos, em outros lugares. E principalmente continuarei lutando, junto com meus companheiros, por moradia e igualdade social, ocupando e resistindo.

Se isso constrange e incomoda parte dos leitores da Folha e seus anunciantes é apenas mais uma demonstração de que estamos em lados opostos. Até que durou bastante, muito mais do que esperava.

A vida é feita de escolhas. Quando um jornal que pretende ser equilibrado toma a decisão de reduzir seu já restrito grupo de colunistas afinados com o pensamento de esquerda e manter um batalhão de colunistas conservadores e de direita, aprofunda sua opção por um certo tipo de público. Sinal dos tempos.

Aos leitores cativos desta coluna podem continuar acompanhando o que escrevo através de minha página no Facebook e, em breve, em algum novo front.

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5 comentários para "Sinal dos tempos: Boulos já não escreve na Folha"

  1. marcio ramos disse:

    Para quem colaborou com o PIG FOLHA ainda tem os outros PIGs. Vai lá servidão voluntaria, vai que é tua.

  2. É lamentável que qualquer veículo de informação restrinja a voz do cidadão. A voz, entendida como liberdade de expressão, é uma atividade pública e um dos ingredientes na formulação do estado democrático de direito. Exceção feita ao oportunismo de quem consegue beneficiar-se do esforço de terceiros. No entanto, certos veículos de informação, pressionados ou não pelo establishment, ainda persistem em impedir que qualquer cidadão possa expressar em público – com honestidade – as suas ideias, o seu pensar ideológico e religioso, as suas preocupações com o status quo da sociedade. Esse impedimento da liberdade de expressão é próprio dos regimes totalitários. O articulista, que persiste na sua cruzada fascista em busca do bem estar social (welfare state), foi mais um alvo dessa restrição dos veículos de informação. No Brasil atual, não há espaço na mídia para quem não segue a cartilha gramscista imposta pela Turma da Sorbonne/Ibiúna. Na atualidade, os socialistas tupiniquins projetam a conquista do poder por meio da via pacífica, bem ao gosto do discurso gramscista. Ocupações violentas ou pacíficas, marchas e protestos violentos ou pacíficos, realizados em conformidade com a práxis fascista, as quais o articulista promete continuar açulando, mesmo escorraçado da tribuna que o permitiu propagar a sua voz em outros tempos, não constam da formulação gramscista para a conquista do poder. De fato, é o sinal dos tempos. Menos mal. Enquanto isso, meu caro articulista: DEIXE O DALLAGNOL E O MORO TRABALHAREM!!! JUNTE-SE A ELES!!

  3. Luiz Cláudio Fonseca disse:

    Macroforça ou microviolência? O dilema seria tão gramsciano quanto seria keynesiano , não fosse a falácia histórica!

  4. jjosé mjJjário ferraz disse:

    Povo, no atual modo de administração pública mundial, tem mais é de se explodir como dizia o saudoso Chico Anísio. Já é hora de mudar o modo de vida vivido até aqui. Jamais dará certo deixar a riqueza por todos produzida sob a responsabilidade de apenas alguns por ser inteiramente impossível haver alguém com desenvoltura moral para cuidar dela sem meter a mão.

  5. Luiz Cláudio Fonseca disse:

    Pela condução dos movimentos sociais no momento, preocupa-me pouco a existência de um possível oportunismo na relação entre pragmatismo e coletivismo. Quando o pragmatismo é prometido e não se sustenta, é “golpe”. Assim é que, a cada governo, um “golpe” (previdenciário). E por aí, temos ido, pela maior ou menor confusão entre pragmatismo e oportunismo com voluntarismo, sendo esta última, todo o coletivismo que é necessário para derrubar um governo. De fato, o reconhecimento de limites funcionais para uma economia industrializada torna controversa a índole privada da distinção entre patrimônio e gestão, ainda que numa abordagem criminalista possa ser sugerida uma acumulação, ao mesmo tempo privada e funcional, impossível. É impressão minha ou com a negação do universal se tende para a absolvição da classe inclusiva?

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