Quem tem medo das famílias não-nucleares?

Diante da crise das relações afetivas tradicionais e aluguéis abusivos, cresce nas cidades a ideia de que há outros arranjos possíveis além do constituído por casal e filhos. Florescem as famílias comunitárias, unidas pela defesa do Comum

Por Marta Martínez Rodríguez | Tradução de Simone Paz Hernández| Imagem: Jacob Lawrence, Shopping Bags (detalhe), 1994

Se existe um lugar onde a comunicação cotidiana, o cuidado e as relações de interdependência se vêem dificultadas, é nas cidades superpopulosas. O individualismo e o anonimato reinam nas grandes capitais, que frequentemente carecem de espaços para pensar e se relacionar a partir e com o Comum. Marina Garcés, autora de “Um Mundo Comum” [Un mundo común – Edicions Bellaterra, 2013], é determinada nesse quesito: “Existir é também depender, e falar numa vida comum é falar do conjunto de relações que tornam a vida humana possível”.

“Em nossas sociedades, o lar e a comunidade próxima constituem as redes que nos fornecem maior segurança”, acrescenta a antropóloga Yayo Herrero. Construir segurança, define Herrero, é a primeira e principal razão da vida social. Por isso, tanto a reciprocidade como o apoio mútuo — individual e social — são os dois aspectos principais que permitem construir estes novos espaços de pensamento a partir dos quais procurar pelo comum e potencializar o bem-estar. Algumas pessoas já tomaram essa iniciativa e favorecem as experiências comunitárias que colaboram com a reflexão coletiva. Inclusive nos lugares mais difíceis de tornar isso possível: nas capitais.

Na busca por alternativas

Quando Petra tinha uns vinte anos decidiu, em conjunto com um grupo de amigas, dar o passo inicial para construir um projeto de Comum em Barcelona, para começar a compartilhar vida e economia. Fizeram isso motivadas pela sua forma de pensar e numa linha inspirada na teologia da libertação. Quarenta anos depois, cinco delas ainda fazem parte do projeto: no bairro são conhecidas como les noies del Carmel (“as meninas do Carmel”)

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Petra e suas amigas se consideram felizes. Defendem que este tipo de organização familiar implica uma relação pessoal muito enriquecedora com todas as mulheres que habitam na casa. “Um casal consiste em duas pessoas na hora de se comunicar, dividir e superar inconvenientes, mas nós somos quatro pessoas que se acompanham, reforçam e compartilham visões a respeito de qualquer problema”, expõe Petra. Definiram um dia por semana e um fim de semana por mês para se reunirem, mas o tempo não é a única coisa que dividem: “os bens materiais também são de todas”.

É um modo de viver que elas gostam — e uma opção de vida que escolheram — mas garantem que não existe um manual de instruções para reproduzir a iniciativa: “A vida se constrói sendo vivida”, afirma Petra. “À medida que você vai vivendo, você estabelece prioridades com base no método de tentativa e erro”. Ela defende a diversidade, lembrando que às vezes pode ser “complicado” aceitar as pessoas do jeito que elas são ou conviver com coisas que você não gosta, mas sustenta que fazê-lo é uma questão de “amor e cuidado”. Les noies del Carmel fazem exatamente o mesmo que qualquer família que se entende e se quer bem faria.

Famílias diversas

Petra considera que seria ideal se outras formas de família fossem viáveis e que tivessem um marco legal sobre o qual se desenvolver. “Se tivéssemos uma educação do Comum e sobre o bem comum, formas de vida como a nossa seriam mais viáveis”. Ela faz alusão à tendência ao individualismo que o sistema facilita e conclui que não é fácil fugir da dinâmica, enquanto se refere a modelos similares que não tiveram sucesso: “Requer um compromisso de verdade. No meio do caminho você aprende a se dirigir e a entender que compartilhar e tolerar é questão de generosidade”. Por isso, Petra incentiva a juventude com entusiasmo a experimentarem uma maneira diferente de se organizar, a partir da generosidade.

Joan López Lloret, documentarista social, publicou recentemente o filme Familia no nuclear [“Família não-nuclear”]. Nele, relata uma viagem cronológica por diferentes experiências de vida comunitária urbana que surgiram dos movimentos dos anos 60 e 70, que questionam o conceito de família nuclear. Através de relatos pessoais, o trabalho reflete a realidade de alternativas familiares em Barcelona, desde a comuna Itaca (1946) até os dias atuais.

López Lloret não participa diretamente das alternativas familiares que documenta, mas já vivenciou experiências de família comunitária e de criação compartilhada quando criança, motivo que o levou a querer saber mais do assunto. Começou a pesquisar sobre comunas e seu desenvolvimento histórico; desde aquelas que nasceram na Califórnia ou a comuna urbana de Berlim até focar-se nas experiências locais de Barcelona, Canmasdeu, Villa Dorita, a Comuna Ítaca e os grupos de criação compartilhada em Poble Sec.

“Esta experiência supõe ter trabalhos normais dentro da sociedade, porém, desenvolvendo uma forma de vida e de organização não formalizada dentro dela”, define López Lloret. “É estar dentro do sistema, mas dando uma alternativa à família nuclear dentro do emaranhado urbano”, comenta, ao mesmo tempo em que ressalta a necessidade de encontrar pessoas com afinidade para as complicações que surgem em algumas ocasiões: formar uma família com a qual dividir as necessidades e chegar a estabelecer vínculos mais fortes do que os sanguíneos”.

Antecedentes e futuro

Joan também reforça que estas iniciativas não são novidade. “É como voltar ao modo de vida que existia no interior, são costumes comunitários que já existiram”, resume. “Houve um modelo que foi imposto nos anos 50 — principalmente nos EUA — que dizia romper com a família do interior que ‘controla e vigia’. Passaram a vender a família nuclear como um símbolo da ‘liberdade’, quando só queriam era impor o modelo de microfamílias para vender mais objetos de consumo”; e defende, “enganavam as pessoas pregando que isso traria maior liberdade, quando, na realidade, estavam cerceando a família”.

O documentarista afirma que o modelo foi exportado para a Espanha e toda a Europa como um símbolo do progresso. E embora seja crítico com o conceito de família nuclear, também sustenta que suas alternativas são ideias que não consistem numa solução única, e insiste no fato de que as pessoas podem adaptar as iniciativas já existentes às suas realidades, tendo uma flexibilidade na sua aplicação.

Para ele, o fato de que possa ser trabalhoso chegar em consensos — especialmente quando há parentalidade envolvida — incentiva a criação de ferramentas para melhorar a comunicação, como por exemplo, assembleias. “É uma forma prática de chegar a consensos e é também um sistema para que tudo não se descontrole. Este tipo de família te torna mais consciente sobre o fato de que você não precisa ter que suportar qualquer tipo de coisa e de que não é tudo permitido com as pessoas só pelo fato delas serem ‘sua mulher’, ‘seu filho’ ou ‘seu pai’”.

Porque, do mesmo jeito que as crianças experimentam um crescimento emocional maior ao superar as relações com seus iguais, os adultos passam pelo mesmo processo. Por exemplo, não se dá todo o peso somente à relação de casal. Tudo é dividido com outras pessoas, o que traz vantagens e dificuldades: “Em Barcelona não é fácil achar um aluguel que aceite essa forma de organização. Você pode formar uma casa com um projeto de cooperativa, mas, burocraticamente, é um processo muito lento, e demora demais até você conseguir entrar”, explica Joan.

Perspectiva ecossocial

Em Madrid, só temos conhecimento de uma experiência de cooperativa ecossocial de “moradia por direito de uso”, é a Entrepatios. Eles se definem como um “grupo heterogêneo de pessoas com um objetivo em comum: por em prática outras formas de habitar a cidade que não permitam a especulação imobiliária, que tenham em conta a sustentabilidade ambiental e que formem comunidade”. Entrepatios imita o modelo uruguaio e o do Centro Europeu de Moradia; não é aluguel nem propriedade privada. É bem mais estável do que um aluguel e não possibilita a especulação.

Berta é cooperativista desde o início da Entrepatios e, desde 2011, esforça-se, junto com outras pessoas, para tornar o projeto viável na cidade. Os que integram o coletivo partilham uma preocupação pela questão ambiental e procuram um modelo de vida comum de bairro onde estabelecer vínculos profundos. Atualmente, o edifício — que foi projetado da maneira mais sustentável possível dentro do orçamento — está bem à frente.

Os interesses para participar desta cooperativa são variados, mas, de modo geral, são pessoas com uma preocupação sociopolítica bem alta, que consideram que este modelo de pensar a moradia e os laços comunitários implica uma maior coerência com seus princípios — e supõe um freio na especulação e no individualismo. “Do jeito que a sociedade é formada, é possível chegar a graus de coerência mais fortes coletivamente do que individualmente”, explica Berta. Algumas das integrantes já se conheciam de antes, outras foram chegando: “Tem de tudo, mas muitas das pessoas envolvidas são militantes em organizações políticas e ecologistas”, acrescenta.

Os moradores estão na faixa etária dos 35 aos 65 anos: “É um esforço econômico do que você não consegue dar conta se for jovem e recém-ingressado no mercado de trabalho. A ideia é que no futuro possa ser assim, mas a realidade é que ainda não é acessível atualmente, já que você precisa de uma renda para fazer isto acontecer”, complementa Berta.

Comentar esta iniciativa contracultural e contracapitalista com o mundo lá fora e com as redes próximas pode trazer algum estranhamento. Porém, valoriza as dinâmicas de apoio e supõe um ponto de encontro, motivo pelo qual aqueles que o defendem apostam em sua difusão: “Seria ideal se o modelo fosse mais simples e estivesse ao alcance de todos, porque satisfaz muitas necessidades profundas, não só de moradia, como também de reconhecimento, pertencimento, participação… É claro que não todos vão se sentir felizes, mas, com certeza, uma porcentagem maior do que você pensa”, resume Berta.

Embora para muitos não seja fácil de imaginar, este modelo demonstra que as comunidades podem se controlar sozinhas, que outras formas de vida não focam no casal como coluna central e que reconhecem que relações alternativas são possíveis. E que podem existir novos imaginários para orientar as decisões das pessoas, de forma consciente, rumo a uma forma de vida mais próxima daquela que gostaríamos de alcançar, ideologicamente.

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