Sobre a faixa que levarei às ruas

“Parem de matar os índios” simboliza, para mim, crise de civilizações e esperança de resolvê-la superando violência, injustiça e devastação

7d982138d85111e2a88722000a1f90d0_7

Por Rosemberg Cariry | Imagem Ideafix

Precisamos compreender que há um mundo que se desfaz em suas arrogâncias e certezas, há uma crise civilizatória de um modelo economicista e predatória que se esgota…

Manifestações como as das últimas semanas estão acontecendo no mundo todo, não é apenas no Brasil… É como se maio de 68 fosse apenas um ensaio para o que vivemos hoje, sendo que o que vivemos hoje no mundo é mais significante e intenso, pois trata-se da agonia de uma civilização, de um modelo violento e injusto.

Este é o momento de um parto. Não sabemos ainda quem é a criança e com quem se parece. O movimentos dos indignados é contra tudo que “aí está” e acontece em todos os lugares: em Nova Iorque, Madrid, Berlim, no Rio, em Atenas, no Cairo, em Fortaleza, em Ancara, em Teresina… Neste momento não existem pautas e nem podem existir pautas. Existem esperanças que revigoram o mundo e a humanidade.

As multidões podem produzir transformações para o bem e para o mal. Em todas estas transformações profundas teremos o caos. Sempre foi assim em toda a história da humanidade. “Do caos a luz”, já dizia Nietzsche.

Poderíamos dizer que desta civilização apodrecida pode nascer uma flor de lótus (um novo processo).

Dizem que Buda Shakyamuni, certa vez, em silêncio, girou no dedos uma uma flor de lótus, como “sermão”, apenas um dos seus discípulos, Mahakassyapa, percebeu o ensinamento, sorriu e se iluminou. Ele compreendeu que aquela flor branca e puríssima vinha dos pântanos e do caos. Da mesma forma no caos aparente é preciso compreender o novo, a luz que da nova ordem civilizatória que se anuncia.

Talvez, estejamos vivendo um momento assim e ainda não temos a capacidade do discípulo de Buda para compreendermos e nos iluminarmos.

O mundo como está é insustentável e insuportável.

Mesmo que estas manifestações, no Brasil, cessem amanhã, nada será como antes e o processo continuará, pois o mal-estar é mais profundo e vai além dos discursos políticos tradicionais de esquerda ou direita que se uniram achando que “esquerda e direita unidas jamais serão vencidas”. Serão sim!

Embora seja um texto antigo, recomendo a leitura do Mal-estar da Civilização de Freud. Faz tempo que este modelo de civilização vem apodrecendo… O que foi a primeira guerra mundial com os seus 50 milhões de mortos? Foi um sangradouro armado pelo capitalismo em defesa de seus privilégios.

A esperança é que pipoquem em todo o mundo mil e uma revoltas de indignados, se possível com canções, flores e poesia.

Afinal de contas “Há algo de podre no reino da Dinamarca”. (Hamlet pela escrita de Willian Shakspeare).

Achei bonito ver meus filhos e meus netos nas ruas. Amanhã eu também vou.

Como cada um pode se expressar livremente, vou levar um cartaz dizendo: “Parem de matar índios. Este genocídio já dura quinhentos anos”

Gostou do texto? Contribua para manter e ampliar nosso jornalismo de profundidade: OutrosQuinhentos

Leia Também:

Um comentario para "Sobre a faixa que levarei às ruas"

  1. OS ÍNDIOS
    Milton Schelb filho
    Resposta do poeta ao assassinato de mais um índio
    Aqui estavam quando outros vinham;
    Em árvores para ver os nobres, subiam;
    Rezavam sempre que chamados eram ;
    Queriam o respeito humano que não tinham.
    O tempo fez com que eles soubessem,
    A reza não era para comunhão,
    Era só para dominá-los,
    Impondo-lhes a escravidão
    Branco não cedeu no que Deus queria.
    Tomou-lhes a terra na qual viviam.
    Ensinou-lhes rezas que não lhes serviam
    Com maldade tomaram o que tinham.
    Enquanto os séculos se passaram
    O encontro humano não se via.
    O homem branco se impôs com ferro
    Contra tudo o que Deus queria.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *