Os jantares tristes de Luís Felipe Pondé

Irritam-no as mulheres, os jovens, os pobres. Em sua cruzada contra a esquerda nosso autor expõe, talvez sem se dar conta, os preconceitos e frustrações que povoam sua alma

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Por Thiago Dias da Silva

Alguns pensamentos e sensações me ocorrem regularmente quando leio os textos de Luiz Felipe Pondé. Talvez o mais frequente se resuma na seguinte exclamação: este cara deve viver no pior círculo social da cidade! É claro que ninguém tem controle completo sobre as pessoas que compõem o entorno, mas parece existir alguma coisa que o aproxima de pessoas chatíssimas, que o aborrecem talvez diuturnamente. O resultado é a insistência com que ele reclama em seus textos das situações sociais em que se vê enfiado.

Esta impressão se impõe desde pelo menos seu grito contra os “jantares inteligentes”, apresentados com muito deboche, mas com uma precisão e uma argúcia acessíveis apenas a quem os frequenta. Estes jantares são marcados por um refinamento falso, fútil e passavelmente informado que satisfaz aos convivas por garantir-lhes sua posição na competição social mais mesquinha. Ninguém está inteiramente livre deste tipo de disputa, evidentemente, mas há níveis e aquele descrito pelo colunista é certamente um dos piores.

Em sua descrição, Pondé oferece uma lista do que é bem visto nestes lugares e curiosamente vincula à esquerda aquela situação toda. Digo que é curioso porque frequento o círculo social da FFLCH-USP há mais de uma década e a experiência mais próxima que tive de um “jantar inteligente” foi lendo aquele famoso texto de Joel Silveira sobre os grã-finos de São Paulo. Talvez este estranhamento não esteja tanto no conteúdo da tabela ali apresentada, mas na incapacidade do colunista em notar os afetos tristes que organizam todos os preconceitos ali colocados e que tão pouco têm a ver com a esquerda.

Neste “antro comunista” que frequento há anos, as festas raramente têm vinhos bons (quem dera!) e as cervejas baratas em botecos sem nome são a regra. Todo mundo prefere cervejas artesanais, mas, sabe como é, elas são mais caras e o pessoal em geral trabalha com educação…

Nestes encontros, até acontece de algum novato, talvez impressionado pelos diplomas e títulos acadêmicos dos presentes, aparecer falando seriamente sobre isto ou aquilo. Se ele for um pouco esperto, no entanto, percebe rapidamente que a única filosofia ali aceita por mais de dez minutos é a de boteco; nota que a única discussão que pode durar muito é entre um anarquista e um psolista embriagados, que interrompem a discussão às gargalhadas quando se lembram que ambos votaram na Dilma.

Talvez seja por isto que Pondé tenha reclamado que seu pessoal não é lá muito bom em “pegar mulher”, para usar os termos dele. Do lado de cá, é óbvio, há uns mais hábeis e outros menos, mas ele tem razão ao afirmar que a abertura aqui é muito maior. Ela é tão mais ampla, aliás, que é bastante comum – pasmem! – ver mulher pegar homem, e com muita habilidade. Isto sem falar dos homossexuais, sempre muito bem-vindos e dispensados de serem “exóticos”, como parece ser necessário nas soirées chiques que torturam o colunista.

Mais recentemente, Pondé afirmou ainda que é importunado reiteradas vezes com a pergunta a respeito da capacidade dos jovens de hoje mudarem o mundo de amanhã. Ele responde com a velha crítica aos melhoradores do mundo (tão antiga quanto Nietzsche, talvez Burke). De modo bem característico, no entanto, sua resposta vem na forma de um “choque de realidade”.

O chacoalhão se dirige claramente aos grã-finos de seus tristes jantares inteligentes, para quem é necessário repetir que “os jovens estão com medo, e com razão.” Isto porque a situação do capitalismo atual é assustadora e os laços sociais estão destruídos, de modo que “generosidade é um termo desconhecido no mundo em que os jovens habitam.”

Ora, o movimento dos estudantes secundaristas mobilizados nas ocupações das escolas oferece a evidência exatamente oposta. Eles também são jovens e também se veem diante desta “máquina do mundo [que] tritura esperanças, projetos e corpos a cada dia mais e de modo mais veloz.” Sua reação, no entanto, não é se apoiar no afeto triste do medo, mas se organizar em uma luta contra esta máquina, do que resulta a produção de muitos afetos alegres que se multiplicam na sociabilidade quente que eles têm criado. Entre esses jovens, a generosidade é abundante!

Além de colunas de jornal, Pondé escreve livros também. O único que eu li foi aquele que resulta de sua tese de doutorado – muito bom, aliás. Li ainda na graduação por insistência de um dos “vários” professores esquerdistas da FFLCH que “impedem o acesso a autores conservadores”. Certa vez, em pé numa livraria, comecei a ler seu Guia politicamente incorreto da filosofia. Lembro-me que o livro se abre com o relato em primeira pessoa de uma deslumbrante experiência de turismo feita, é claro, longe dos lugares comuns, como Paris e New York, e viajando de classe executiva, não no pombal que é a classe econômica. Perfeita para contar em um jantar inteligente, não?

Elaborando uma captatio benevolentia daquela classe média aspirante a grã-fina que reclamava do “rebaixamento” dos aeroportos a rodoviárias, Pondé mobiliza o mesmo “horror a povo” por ele denunciado no jantar inteligente. Como o livro parece ter vendido bastante, imagino que a captura deve ter funcionado e resultado na ampliação do círculo social que tanto o perturba. A sedução não me atingiu e minha leitura do livro, é claro, se interrompeu ali.

Mas não parei de ler porque a demora no check-in e os biscoitinhos das companhias aéreas me agradam. Parei porque não são estes os elementos que mobilizam meus afetos diante da tímida inclusão de pobres na sociedade. O incômodo gerado pela estreita estrutura por onde mais gente agora deve passar tem pouca força porque tem que conviver com a satisfação diante da alegria de ver alguém viajando pela primeira vez. A alegria dos recém-chegados à sociedade vence o incômodo que possam causar. O oposto acontece diante do faniquito de quem “perdeu seu aeroporto” ou “não aguenta mais esse país”.

Estas diferenças de afetos e sociabilidades devem ter algo a ver com o fato de Pondé se situar à direita no espectro político e frequentar o círculo social a ela correspondente. Embora eu tenha dificuldades de definir com precisão o que é a esquerda hoje em dia e tenha algumas reclamações a fazer do meu círculo social, fico bastante contente de estar ao lado de pessoas animadas pelos afetos opostos.

 

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8 comentários para "Os jantares tristes de Luís Felipe Pondé"

  1. caio l disse:

    ou seja: pondé, tomar a parte pelo todo e ainda não gostar da parte que escolheu é um tremendo bola fora. Simplesmente levanta e vai pra outro lugar.

  2. Luiz Martinelli disse:

    Pondé encontrou seu filão para destilar suas amarguras. O lado em que escolheu, consome seus livros, paga seus charutos e cachimbos. De repente faria bem ao “filósofo” uma visita numas escolas públicas, pegar um buzao para zona leste, descer a serra para o Guarujá, tomar uma cerva nos botecos da Augusta, visitar um acampamento do MST ou a ocupação do MTST em São Bernardo, talvez o ressentido que ele tanto alude seja ele mesmo, vai saber!? Quantos as “mulheres”, sei não (desculpe me o cinismo)…

  3. Osteobaldo Gonzales disse:

    Muito bom artigo Thiago.

  4. é rola essa ideia idiota mesmo: ou vc é petista ou então vc é sozinho! kkkk

  5. prefiro jantar sozinha do que ser pitantra!

  6. Fiquei curioso pelo local da tal viagem e fui ver o livro. Achei um pdf pelo google (calma Pondé, já deletei, e também não passei da primeira página). O que me chamou a atenção: eu também (e acho que todo mundo) prefere viajar de executiva: o espaço é muito maior, o assento tem uma inclinação também muito maior, o que permite que vc descanse e chegue inteiro após uma longa viagem, descansado, sem dores no pescoço, nas costas, e pronto para curtir seu destino. Então eu entenderia se ele dissesse que “não suportaria estar numa classe econômica, com seus assentos apertados, que não permitem nem descanso nem uma posição que permita a seus ossos e músculos se adequarem, e você chega ao destino como se tivesse saído de um ringue contra Mike Tyson.” Ao invés disso ele escreve textualmente: “Estou voando, na classe executiva, não suportaria estar numa classe econômica, um galinheiro de gente.”. O problema não é então o aperto, o desconforto: são as pessoas!! Também parei por aí.

  7. Ricardo disse:

    Eu estou realmente cagando para a tristeza desse cabra.
    Tudo o que ela me sugere, com seu obsessivo confessionalismo travestido de intelectualidade, é o tamanho descomunal da vaidade individualista de quem se acha o umbigo do mundo, uma diva do pensamento.
    Essa presepada no máximo pode ser objeto de etnografia sobre os nativos de uma “cultura do narcisismo”, mas não de algum reconhecimento de virtude intelectual.

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