No cinema, o ser fragmentado dos indígenas

Em A Febre, de Maya Da-Rin, os indígenas vistos de forma profunda e original. Na história, o entre-lugar do protagonista: o trabalho, a periferia, a filha que estudará medicina; em casa, o idioma tucano e os contos de seus antepassados…

Por José Geraldo Couto, no Blog do Cinema

A febre, o grande vencedor do recente Festival de Brasília, premiado anteriormente também em Locarno, Chicago e Mar del Plata, pode ser considerado um marco no modo como o cinema encara esse personagem trágico que é o índio no mundo dos brancos – ou, mais precisamente, o índio brasileiro num país entregue desde sempre à voracidade predatória de um certo modelo de civilização.

O filme de Maya Da-Rin leva adiante e aprofunda de modo original uma linhagem cinematográfica que inclui obras tão díspares como Uirá (Gustavo Dahl, 1973), Iracema (Jorge Bodanzky e Orlando Senna, 1975), Brava gente brasileira (Lúcia Murat, 2000) e Serras da desordem (Andrea Tonacci, 2006), entre outros.

Aqui, o protagonista é Justino (Regis Myrupu, melhor ator em Locarno e em Brasília), um índio viúvo, na faixa dos quarenta anos, que trabalha como vigilante diurno no porto de Manaus. Sua filha Vanessa (Rosa Peixoto), que trabalha num hospital público, acaba de ser aprovada no curso de medicina da UnB e está prestes a se mudar para Brasília.

Entre-lugar

Morando na periferia de Manaus, na beira da mata, falando português no trabalho e o idioma tucano em família, Justino representa bem esse entre-lugar ocupado pelos índios na sociedade branca. A primeira imagem que vemos dele – um plano fixo frontal – é eloquente: o colete e o capacete de trabalho não escondem os traços fortemente indígenas, o corpo vigoroso aparentemente incômodo sob uma roupa que não lhe pertence e que o aprisiona.

Mas Justino já deixou um tanto de ser índio. Ainda dorme na rede, conta lendas ancestrais para o neto, mas sua casa se assemelha à de qualquer família pobre de uma periferia brasileira, com fogão a gás, ventilador, televisão, “comida comprada no supermercado” (em suas próprias palavras).

Uma visita do irmão que ainda vive na aldeia e deseja levá-lo de volta à mata realça essa impressão de aculturação. Mas não há volta possível: entre o irmão ainda índio e a filha futura médica na capital, Justino sofre em silêncio e adoece. A febre que o acomete, e cuja origem nem o médico nem os exames detectam, talvez provenha dessa sua condição dilacerada. O filme, sabiamente, não a explica.

A qualidade de A febre reside não apenas em seu tema, não apenas no personagem que retrata, mas também na sua economia narrativa e no seu rigor formal. Tudo é muito enxuto, objetivo, preciso, ainda que o andamento seja cadenciado e o olhar paciente, quase contemplativo.

A rotina de Justino ao voltar do trabalho para casa – caminhada, ônibus, caminhada – é mostrada três vezes, cada uma delas com pequenas alterações de ponto de vista, ampliando aos poucos a percepção do espaço e do movimento pelo espectador. Do mesmo modo, o ambiente impressionante do porto é apresentado de vários ângulos, ora ressaltando a imponência geométrica dos contêineres, o movimento impessoal das máquinas, ora a constrição do espaço (um corredor estreito entre cargas), ora a imensidão do cais, em todos os casos configurando um cenário inóspito, opressivo, inumano.

Bauhaus na selva

As imagens mais expressivas são talvez as do porto em contraste com a selva exuberante à sua volta. De determinados ângulos é como se uma Bauhaus retilínea, construtivista, brotasse no meio da mata tropical. A geometria e o movimento ritmado das máquinas do porto contrastam também com o vívido caos das ruas da cidade, com suas barracas de camelôs, sua barafunda de fios elétricos, sua algaravia de músicas e pregões.

Em face desses dois espaços contrários, a casa de Justino é uma espécie de meio-termo: na confusão dos móveis, objetos e alimentos, há uma secreta harmonia, como em certas naturezas-mortas barrocas – o que a bela fotografia de Barbara Alvarez (também premiada em Brasília) acentua discretamente.

Discreta também, ainda que contundente, é a maneira como se expressa no filme a relação entre índios e brancos. Logo no início, uma velha indígena, atendida num hospital público, fala uma língua que ninguém entende. A enfermeira Vanessa, por ser índia, é chamada para conversar com ela, embora seja de outra nação e fale outro idioma. Para os brancos, mesmo os que vivem no coração da selva, índio é tudo igual.

Outros diálogos breves e significativos se dão entre Justino e seu novo colega de serviço, Wanderlei (Lourinelson Vladmir), que antes trabalhava de capataz numa fazenda e dormia com o trabuco embaixo do travesseiro, “porque lá tinha muito índio”. Ao se dar conta de que está dizendo isso para um indígena, Wanderlei explica: “Digo índio de verdade, flecheiro, não como vocês aqui, que já estão amansados”.

Perpassam toda a narrativa, como pano de fundo, ataques misteriosos de algum animal contra porcos, reses e galinhas da região. Num noticiário de TV, um “especialista” diz que às vezes cães urbanos, quando levados a um ambiente selvagem, podem agir como predadores e desequilibrar todo o ecossistema. Esse paralelo entre o mundo animal e a sociedade humana, evocado também na fábula que Justino conta ao neto, não explica nada, mas torna ainda mais inquietante esse filme notável.

Num país cujo presidente declara que “competente foi a cavalaria americana, que dizimou seus índios no passado e hoje em dia não tem esse problema”, e cujo vice-presidente, ele próprio de ascendência indígena, exalta a beleza do neto como sinal do “branqueamento da raça”, não poderia haver filme mais pungente e oportuno que A febre.

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