Cinema: Entre a cruz e o maracatu rural

Em Azougue Nazaré, espiritualidades em conflito: dionisíacos caboclos de lança e neopentecostais gris. Transcende a elegia folclórica e, em meio a intolerância religiosa, mostra o potente encontro entre o documental e o fantástico

Por José Geraldo Couto, editor do Blog do Cinema

Azougue Nazaré está em cartaz ao longo de novembro nos cinemas do IMS Paulista e do IMS Rio

Um dos filmes brasileiros mais interessantes e originais dos últimos tempos entra em cartaz em poucas salas e horários. Vale o esforço de tentar ver antes que desapareça. Estou falando de Azougue Nazaré, de Tiago Melo, consagrado como melhor obra de estreante no festival de Roterdã, entre outras premiações internacionais.

A história se passa na cidadezinha de Nazaré da Mata, na zona da mata pernambucana, uma das capitais do chamado maracatu rural. E o maracatu está no centro do drama, em seu embate com a crescente intolerância dos crentes neopetencostais.

O tema, portanto, é atual e candente, mas poderia ser tratado com um ranço etnográfico ou como um libelo em defesa da tradição folclórica. Nada disso: o que torna o filme vivo e pulsante é o modo inventivo como articula a observação do cotidiano e os voos da fantasia; o realismo e a alegoria.

Entre Dioniso e a cruz

É possível mesmo ver ali dois filmes que se entrelaçam. De um lado, há a crônica social do dia a dia do lugar, com seus personagens entregues a diversas ocupações, aos pequenos prazeres, aos encontros e desencontros amorosos. De outro, há o entrechoque – que ganha a dimensão do fantástico – entre duas visões da espiritualidade: uma dionisíaca, colorida e sensual, encarnada no maracatu; a outra, cinzenta e austera, baseada numa leitura torta da Bíblia.

Dois personagens resumem essa polarização (para usar uma palavra da moda): o cabloclo de maracatu Catita (Valmir do Coco), atormentado pela esposa evangélica (Joana Gatis) que quer levá-lo para a igreja; e o pastor Barachinha (Mestre Barachinha), ele próprio um ex-participante do maracatu convertido à “palavra de Deus”. Um, Catita, tem o conflito dentro de casa; o outro, Barachinha, dentro de si mesmo.

O desenvolvimento do entrecho, em que o documental invade ocasionalmente a ficção, é um tanto irregular e desequilibrado, mas a força do conjunto é notável. Mais do que nos diálogos, a adesão do filme ao polo do maracatu (isto é, da arte popular, mestiça e plural em confronto com a intolerância religiosa) revela-se na exuberância das imagens, no deleite com que a câmera exibe as cores das vestimentas e adereços, a sensualidade dos corpos em movimento, a textura das coisas (terra, planta, madeira, tecido).

Tradição e modernidade

Em contraste com essa festa cromática e sensorial, um comando de fanáticos religiosos que caça um pai de santo no meio do canavial – todos com capacetes de motociclistas cobrindo os rostos – sai do registro realista e remete a cenas medievais de caça às bruxas, a pogroms, a investidas da Klu Klux Klan. A bela e terrível imagem da plantação em chamas no meio da noite, por sua vez, parece tristemente saída de um telejornal recente.

O que confere graça e energia suplementares a Azougue Nazaré é o fato de utilizar, em seu elenco principal, mestres e caboclos do maracatu e outras figuras da cultura regional, que se revelam atores de uma expressividade ímpar – em especial o impressionante Valmir do Coco, que está também no elenco de Bacurau.

Mas o essencial mesmo é a maneira como o filme trata sem cerimônia a tradição: em vez de encará-la como peça de museu, intocada e morta, faz com que permaneça viva ao entrelaçá-la à modernidade. Repentistas fazem duelos de versos pelo whatsapp, e a força mágica do maracatu se traduz numa corrente elétrica que percorre luminosamente fios de alta tensão e causa blecautes, como num filme de ficção científica. Nisso Azougue Nazaré se insere na melhor linhagem do cinema pernambucano das últimas décadas, que traduz em potente cinema a imbricação entre o arcaico e o moderno na sociedade brasileira.

Adam

Outro filme digno de nota que entra discretamente em cartaz é o marroquino Adam, da também estreante Maryam Touzani, representante de seu país na disputa por uma vaga no Oscar.

Ainda que seu título seja o nome do primeiro homem na tradição judaico-cristã-muçulmana, é uma história de mulheres, da qual os homens estão virtualmente ausentes. Samia (Nisrin Erradi), uma jovem em estado avançado de gravidez, percorre as ruas tortuosas e estreitas de Casablanca à procura de trabalho e abrigo. Todas as portas se fecham para ela, menos uma: a da padeira viúva Abla (Lubna Azabal), que vive com a filha Warda (Douae Belkhaouda), de oito anos.

Aliás, de início também essa porta se fecha. Mas a câmera, que até então tinha acompanhado Samia de perto, entra na casa de Abla, mudando imediatamente o ponto de vista e deixando claro ao espectador que a partir de então essas três mulheres terão uma relação de algum tipo. Isso acontece com poucos minutos de filme, e daí em diante o que se conta é justamente essa relação complexa e delicada entre Samia, Abla e Warda.

Trabalho e afeto

O trabalho cotidiano, o afeto que se infiltra lentamente nos corações e atitudes, as defesas que se desarmam, tudo isso é descrito com atenção e delicadeza pela diretora. Há um movimento psicológico que se repete: de uma dureza desconfiada e autodefensiva à distensão e ao desafogo das emoções. Só uma personagem é transparente desde o primeiro momento: a menina Warda, encantadora em sua doçura, agindo quase como um anjo a suavizar as quinas do mundo e perfurar as carapaças que o sofrimento fez as outras mulheres construírem ao seu redor.

Todas as grandes decisões são adiadas “apenas por uns dias”, e as tensões confluem para a gravidez de Samia, cujo filho, de sexo ignorado, não tem nome nem futuro definido.

Ainda que resvale aqui e ali nos clichês de filmes sobre amizades nascidas do atrito e da adversidade, Adam é um olhar caloroso e inusual à condição feminina num mundo dominado pelos filhos varões de Adão.

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