Literatura dos Arrabaldes: Dor, amor e identidade

Nas obras de duas autoras periféricas, um ato de emancipação. Racismo e machismo estruturais as calaram, mas na poesia encontram espaço para refletir sobre suas trajetórias e sentimentos — de forma crua, verdadeira e insurgente

Por Eleilson Leite, na coluna Literatura dos Arrabaldes | Imagem:
Ayéola Moore, Mulher-Objeto-Mulher

Os livros que analiso neste artigo são Infinito Rubro – Carmim, de Guiniver Santos (2019) e Corações – Aurora de poemas, de Débora Garcia (2014). Livros de poemas de duas escritoras negras e da mesma geração. Guiniver alcançou os 40 anos e Débora ainda tem mil dias para chegar a essa faixa etária. A primeira é de Pirituba, periferia da Zona Oeste, onde o sol se põe, e a segunda é cria das bordas da Zona Leste, mas trabalha e atua no movimento cultural de Suzano, cidade da Grande São Paulo que fica também na região onde o sol nasce. Ambas têm formação universitária: Guiniver é graduada em artes e Débora em Serviço Social.

Corações e Infinito Rubro – Carmim são seus primeiros e únicos livros solo e a publicação das obras representa para elas um ato de emancipação. Cada uma a sua maneira, as duas fazem um balanço de suas trajetórias revelando as dores, os amores e a afirmação de identidade, num movimento que corresponde à estrutura de sentimento1 que orienta a leitura de suas obras. Um percurso que não é linear, embora as autoras organizem seus escritos de uma forma compartimentada. Guiniver conduz seu percurso de modo poeticamente cronológico e Débora por fases de sua vida tendo fio condutor a metáfora da coroa: de espinhos, de flores e o Ojá (turbante). Tal procedimento ajuda a evidenciar a modulação de sentimentos de impulso, contenção e tom que mapeia as tensões dos textos.

Guiniver

O livro de Guiniver Santos foi lançado no inverno de 2019 em noite de aniversário do Sarau Elo da Corrente, coletivo do qual a autora faz parte desde 2014. É um dos primeiros títulos da editora criada pelo grupo recentemente com o subsídio da Lei de Fomento à Periferia. Com formato 14 x 21, o livro tem 80 páginas nas quais os 40 poemas estão uniformemente distribuídos em oito capítulos. Todo o livro foi feito por mulheres. A edição é da escritora Sonia Bischain que também assina a ilustração da capa, uma foto pintura sobre o registro de Maria Aparecida P. C. Augusto. As escritoras Raquel Almeida escreve o texto da orelha e Jenyffer Nascimento assina o prefácio. A própria autora se encarregou do texto da contracapa que serve de apresentação da obra. Guiniver, além de poeta, é artista plástica e arte-educadora. Atua na educação de jovens e adultos e em cursinho popular.

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Débora Garcia

Corações foi publicado em 2014 pela própria autora com um esmero editorial que chama a atenção. Um invólucro que confere beleza e elegância à obra repleta de escritos de alta densidade poética. Em formato 15 x 21, o livro tem 103 páginas nas quais 65 poemas estão equilibradamente distribuídos em três capítulos. Diferente de Guiniver, Débora está cercada de homens. Sacolinha faz a apresentação e Marco Aurélio Pinheiro Maída, assina a orelha. Marcio Barbosa e Akins Kinte foram escalados para os textos de contracapa. Mas há duas mulheres fundamentais. Nina Vieira é responsável pelo projeto gráfico, capa e ilustrações (que divide com Fernando Santos) e Priscila Teodoro faz a revisão. Antes de publicar Corações, Débora participou de várias coletâneas, porém, escrevendo mais prosa do que poesia, especialmente no Cadernos Negros e nas antologias da Associação Cultural Literatura no Brasil da qual já foi diretora. Há cinco anos ela atua no Sarau das Pretas, grupo de lítero-musical formado por cinco mulheres do qual é uma das cofundadoras.

Infinito Rubro – Carmim

O livro de Guiniver tem quarenta poemas divididos quase que igualitariamente em oito partes. A organização dos capítulos, por sua vez, segue uma cronologia que corresponde à trajetória de vida da autora. Inicia no giro de saturno, na transição dos 30 anos, estabelece nuances para demarcar períodos nos dez anos seguintes até chegar aos 40 anos igualando assim sua idade com a quantidade de poemas contidos na obra. Essa estrutura, porém, não está dada de bandeja para o leitor. É preciso ler o livro para entender o que a autora chama de “autobiografia com roupagem poética”. Poeta com bom domínio dos vocábulos, Guiniver tem sutileza na criação de imagens e texturas que denotam uma estética muito coerente com a formação da autora nas artes plásticas, além de uma certa organização pedagógica que tem a ver com sua profissão de educadora.

Infinito Rubro – Carmim tem uma leveza que é apenas aparente. Os sentimentos não são expressos de modo rasgado e dilacerado. São alados, como sugere o título do livro acrescido do rubro-carmim que é um tom sobre tom de vermelho que dá uma densidade e espessura para algo que poderia soar fugidio. Essa ambiguidade marca os versos de Guiniver encharcados de sentimentos dúbios porque são sinceros, na busca pela “recuperação da autoestima”.

Mas o livro é sobretudo de poemas de amor. Metade dos textos podem ser assim identificados, mas poderiam ser quase todos, não fosse o impulso de catalogação de alguém se propõe a comentar uma obra. Outros sete poemas tratam de identidade associada à afirmação da negritude e outros quatro tem um tom de sofrimento e dor. Nove poemas fogem a essas classificações e guardam entre eles um acabamento experimental onde a autora ocupou-se da forma tanto quanto do conteúdo.

O amor em Guiniver é mais idealizado do que vivido ou mesmo que vivido, é narrado mais em função dos sentimentos do que da experiência física entre os corpos. Logo no primeiro poema do livro, denominado Na minha leitura, ela se dirige a um amor senão impossível, improvável: “Na insanidade/ de imaginar-nos nus” Um amor assumidamente platônico: “estive contigo/tantas vezes/em intenção e pensamento”. E por ser assim intangível, se converte em devaneio: “No silêncio/nas leituras/ de aura e energia/na sinergia.” Como o próprio título do capítulo indica, Prólogo dos 30 anos, esse poema sinaliza o tom que vai conduzir a maior parte dos demais poemas de amor. Ainda no mesmo capítulo, há outro poema cujo título é autoexplicativo: Platônico. Nele a autora já indica sua habilidade em manejar sentimentos dúbios e associa o amor às artes: “porque lhe encontro: na arte/na música/na prosa/na poesia”, outro traço recorrente na sua escrita.

O segundo capítulo, Mais uma do ano seguinte, é todo de amor, sem exceção, e o mais tórrido também, ainda que mais imaginado do que vivido. Sob o luar, poema carregado de tensão sexual retórica, é uma declaração de amor na qual a autora faz um uso bem apropriado de clichês de sedução: “hesito em render-me/ mas me tomas/ insano e febril/ num ímpeto de luxúria/… desvenda os segredos/ de minh’alma”. Página de diário, é mais um libelo de paixão no qual o eu lírico exala desejo por todos os poros numa noite de solidão, ávida por sexo: “me invade louco/ me devora sedento/ satisfaz a minha libido/ sacia sua volúpia”.

Os demais poemas do capítulo formam uma trilogia do amor desesperado: Libido explora mais uma vez a dualidade de sentimentos: “desejo e fúria/ entre o êxtase e o drama” Anseia por viver o sentimento ainda que fugaz e livrar-se da culpa: “prefiro ser errante/ somente neste breve momento”. Impulsos é uma sequência de versos curtos, a maioria de uma palavra só para representar a sensação incontrolável de prazer. Máscaras é um jogo de sedução de duas pessoas que nutrem entre si um sentimento ambíguo de querer e não querer: “e como saber/ o quanto cabe nesse querer?” Um amor que não se define: “disfarces perfeitos/ cabem em mim/ em você”.

A autora faz uma pausa no terceiro capítulo e volta a carga no seguinte com quatro poemas apaixonados. Very importa person, é o título estranho para um poema em que os corpos finalmente se encontram, mas com sutileza poética: ‘”anjo, textura e ternura/ sob as linhas/ de tua tez escura/ descalça e nua/ despida de toda a dor”. E quando chega às vias de fato, o ato é pura poesia: “teu cheiro doce exalando/ misturado no meu/ intensa sensação de Paraiso/ gemidos suados/ pedaço do céu”. Nossa canção I e II são poemas de inspiração musical: “ignoro essa pauta marcada em Dó/serena canção que embala minha voz”. E no poema narrativo O mar me inspirou mais uma vez explora a dualidade: “brisa, leve remanso/ chuva brava e hostil/ sol, calor e saudade/mar de beleza sutil”

Nos capítulos finais do livro, a abordagem do amor corresponde à fase mais madura da autora. Aqui ela apresenta um pouco mais os contornos do homem amado, fala de gestação e uma criança aparece. Expressa tudo em nuances. Como a própria autora alertou e foi anteriormente citado, trata-se de uma autobiografia poética. Das três idades discorre sobre um homem que tem feição de “moleque espoleta”; “homem amante”; “malandro negro velho”; “pai sábio”. No final do poema, se declara: “é lindo te olhar homem/ e te perceber menino”.

O penúltimo capítulo é todo de amor narrado com esmero poético. Como uma dança tece a imagem de um ato sexual do flerte ao gozo: “meu corpo, o seu/ o breu/ sussurros. Gemidos/ sobre nós, o céu”. Enquanto não passa é um poema longo para tratar de um momento fugaz de atração e flerte. Encontro é uma peça de amor toda estruturada com palavras iniciadas em E: “envolta/enroscada/emaranhada/enfim”. O poema seguinte dá continuidade e é denominado Encontros II, mas poderia se fundir com o anterior. Ausência discorre sobre a ânsia que consome um corpo sedento à espera da pessoa amada, sem saber se ele vem. E finalmente Beijo, um poema delicado, romântico de uma inocência pura de adolescente: “é o externo esquecido/ sonho aquecido/ segredo trocado”.

Dois poemas formam o ponto alto do bloco de textos de amor de Guiniver. Rubro – carmim e Balde de pipoca. No primeiro, se refere a uma palavra que designa o tom avermelhado intenso do vinho. A autora faz uma ode à bebida mais antiga do mundo ocidental. No rodapé do poema há a frase em latim: in vino veritas est (no vinho está a verdade), atribuída a Plínio, o Velho, intelectual romano da Antiguidade, mas que apenas foi citado por ele, uma vez que se trata de um dito popular originário da Grécia. Mas isso não importa num poema que destoa pela temática em face dos assuntos abordados na obra. Por fim, Balde de pipoca é um longo e belo poema que aborda em tom de acalanto o desejo de ter um companheiro com quem possa dividir o balde de pipocas numa tarde fria de julho, mas, principalmente para acompanhar o crescimento de um bebê que se revela nos versos: “mãozinhas diminutas/ procurando apoio/ amparar passinhos”. Balde de Pipoca poderia ser o título do livro.

Os poemas de dor em Guiniver são centrados nela mesma e autocríticos. A sós aborda uma certa decepção com o que é em face do que desejaria ser ou ter. Uma luta contra o próprio espelho: “lutando contra meu ego/ minha vontade”. Em Pudera, o conflito é com erros do passado: ‘tivesse visto/o que hoje é perigo/ quem sabe/ fugido ao encanto?” Estruturado em estrofes, cada uma dá conta de uma situação formando camadas de arrependimento: “tivesse pensado mais/ agido menos/ quem sabe deixar de ser/ este eu inconstante”. Das coisas que trago reconstrói sua trajetória de cicatrizes, dores e amores para chegar na maternidade: ‘”do ventre cheio de vida”. Por fim, Para você fiz um poema também, destila ressentimento ao mesmo tempo em que homenageia o progenitor sem chamá-lo de pai.

Já os poemas de identidade, afirmam a negritude, invocam os orixás e exaltam a ancestralidade. Estão quase todos agrupados no capítulo Idade celeste. Deixa girar, imagem de uma macumba numa encruzilhada feita por uma mulher “cigana cingida”, adiante definida como “mandigueira/ preta matreira”. Resposta é todo embalado por referência a orixás e seus cantos: “ao som dos teus tambores/renasci e me encontrei”. Memória é uma exaltação às ancestralidades: um canto de adoração, uma prece. Tecer o girofaz a imagem de um batismo na cachoeira: “é volta, evolta/mudança”.

Outros dois incidem mais sobre a personalidade da autora. Deusa de ébano é uma ode à mulher negra e seu fascínio. Em Tatuagens fala com sutileza e de forma cifrada o que vem a ser as tatuagens que carrega no corpo. Imagens que representam sentimentos distintos, porém, complementares: “liberdade e resiliência/uma à esquerda/ e outra à direita”. As imagens impressas nos ombros são “duas feras”: “uma é sombra/outro é alento”. “Autoestima/ estampada no braço (…) ninguém me tira os impressos”.

Corações – Aurora de poemas

O livro de Débora Garcia reúne sessenta e cinco poemas que estão distribuídos em três capítulos que correspondem não exatamente à cronologia como o de Guiniver, mas às fases da vida da autora. Os títulos dos capítulos exploram a metáfora da coroa e toda a sua potência simbólica: coroa de espinhos; coroa de flores e Ojá (turbante). Segundo a própria autora, essa organização tem a ver com as coroas que vestiu ao longo da vida e expressam a dor, o amor e a identidade, evidenciando a tonalidade de sentimentos que orienta a leitura de seu livro, assim como o de Guiniver e de toda uma geração de mulheres negras que surgiram no contexto da literatura periférica nos saraus na primeira década e, mais recentemente, nos slams.

Os poemas de dor, da Coroa de Espinhos, formam o conjunto menor com 20 poemas; a Coroa de Flores tem 22 e o Ojá reúne 23. A diferença é sutil, mas denota uma escala que faz sentido. O primeiro capítulo é o da dor, depois vem o amor que não anula a dor, seguido da identidade que sintetiza ambos, mas numa perspectiva libertadora, de tomada de consciência, de emancipação. São camadas que são melhor entendidas no todo do que separadamente.

Os escritos da Coroa de Espinhos tratam do sofrimento lírico da autora em face de seus dilemas pessoais, amorosos ou de fobia de baratas, mas o que predomina é a denúncia dos problemas sociais para os quais a autora tem um olhar sensível devido a sua profissão de assistente social e seu ativismo combativo. Tal impressão é corroborada pelo primeiro poema de nome Paisagem que, em tom de denúncia, chama a atenção para a desigualdade de uma grande cidade que por um lado tem “opulências mil” e nela vivem os “esquecidos do Brasil”. Uma contradição naturalizada a ponto de fazer parte da paisagem a qual se refere o título do poema. Em Corpo e Alma, aborda outro grupo social marginalizado: as prostitutas.

Não se mete a colher fala com tensão e boa elaboração poética do drama da violência doméstica. Evolução da espécie, poema em tom de indignação, aborda a miséria que passam as crianças em situação de rua e que buscam alimento nas latas de lixos dos prédios e casas e no Lixão, onde disputam o alimento com ratos e urubus. Dos anjos a borda o sofrimento de mulheres pobres em busca de trabalho: “bate em diversas portas/ mas todas estão lacradas/ como concreto da indiferença/ que mata e violenta”. Gauches é um alerta indignado contra a marginalização e criminalização das crianças, adolescentes e jovens que não se ajustaram à sociedade que os abomina: “ vadios/ pivetes/ trombadinhas/ pixotes/ querôs/ falcões/ laranjas/ marginais/ menores…”

Débora avança em outros poemas para uma compreensão da razão dos problemas sociais denunciados remetendo à estrutura capitalista da sociedade. Em Limites, elabora sua crítica com ironia ao questionar os preços dos alimentos como o tomate que custou “os olhos das caras borradas/ dos palhaços assalariados”. E a crítica é na era petista: “sediamos a copa do mundo/ nosso desejo!/ e assistimos de nossos quartos de despejo”, parafraseando Carolina de Jesus.Desabafo segue na crítica à exploração do trabalhador em face das demandas pessoais de amar, comer, descansar. A mesma crítica está presente em Ideologia: “quando saio está escuro/ quando chego, anoiteceu/ gozar meus dias ao sol/ confesso é um sonho meu!”. A mídia também não escapa dos protestos da autora no poema Farta: “mensalinho/ mensalão” e a cobertura tendenciosa da TV (“Grande Irmão”).

O capítulo Coroa de Flores abre com um prólogo. Trata-se do poema Composição que é uma declaração, a quem possa interessar, sobre o sentido de suas criações: “sensação/ que é existir/ como o êxtase da criação”. Explica também porque escreve: “escrevo, registro, existo”. E porque publica o que escreve: “publico e me exponho em versos/ com o sublime ato da composição”. De fato, esse poema é representativo do que mais há no capítulo que são textos, cuja elaboração não é inspirada num protesto ou um sentimento pessoal, ainda que estejam no conteúdo. Os escritos seguem o curso da criação e da experimentação literária, afirmada em Composição. Vejamos.

Palavraé um poema curto de quatro versos, todos com a mesma forma, alterando apenas o verbo para designar as dimensões da palavra e sua potência: haja, pode, planta, colhe. Vista dos pontos, por sua vez, discorre sobre o sentido do ponto como recurso sintático: “é impositivo, diz o que quer/ mas também é reticente/ exclama e interroga/ expõe a opinião da gente”. Mas também o sentido figurado: ponto de droga; ponto de prostituição, ponto G, o ponto fraco na Nação (exclusão) até chegar no ponto da questão: o Ponto de Cultura.Línguas tem seis estrofes e brinca com os vários sentidos da palavra língua: linguagem, paladar, o beijo, a língua portuguesa, o trava-língua e o linguarudo.O tempo do tempoexplora a longevidade dos gestos: olhar, paladar, cheirar. Demore-se no café, no degustar, ouvir, falar, gozar. “Demora para ir/E seja breve para voltar”.

Há também os poemas em que parafraseia ou se inspira em escritores do cânone literário. Margem terceira é um poema estruturado como uma espécie de resposta ao famoso conto de Guimarães Rosa: A terceira margem do rio. Em As meninas, toma de empréstimo o título do livro de Lygia Fagundes Telles. No Poema das sete ferroadasusa intertexto de Drummond: “mundo, mundo vasto mundo”, diz que seria uma abelha se mulher não fosse, mas uma abelha sem zangão”. Por fim, em Mímese parafraseia Bandeira: “vou me embora pra Pasárgada” e idealiza um lugar bucólico, onde a comida e a vida são abundantes. Um reino das artes: “lá todo mundo é artista/ e alfabetizado/ pé de livro tem de monte/despenca nos quintais/lá também tem plantações/ de instrumentos musicais/os pássaros-maestros/ apresentam seus corais”.

Há também oito poemas de amor no capítulo, quase todos lascivos e luxuriosos. Débora não idealiza muito o amor; vive intensamente a paixão e o sexo. Não sofre (além da conta) com as rupturas e decepções. Na cama se faz de rainha ou se deixa passar por vulnerável. Seu amor é sempre um homem negro trabalhador daqueles que volta suado do batente e chega em casa sedento pela mulher amada (Eu painel). Mas é também o amante folgado, que chega na sua casa, põe o pé na mesa, toma cerveja e fuma seu cigarro. Mas a amou a noite inteira, depois dormiu deixando tudo de pernas para o ar. E confessa que é assim que gosta do moço, pois se enquadrá-lo, pode deixar de gostar (Moço atrevido). Em Sensaçõesdiscorre sobre o amor encantado e excitante, mas que se desgasta com o tempo, porém, deixando suas sensações. Em Cética, poema de quatro versos faz mais uma declaração de amor resignada: “para que eternizar o efêmero?” E se faz literatura em Strip tease, um poema luxuriante no qual faz uso do livro como metáfora para seu corpo sedento: “quero ser sua leitura/ ser um verbo conjugado/ na tua boca carnuda”

Os poemas de identidade estão no capítulo Ojá e discorrem, como Guiniver, sobre a afirmação da negritude e exaltação dos ancestrais africanos por meio dos orixás. Mas assim como no capítulo anterior, a autora introduz o bloco com um poema que diz respeito a sua forma de escrever. Com o sugestivo título de Alforria, o primeiro poema é um grito de liberdade, mas as prisões aqui se referem à literatura: “minha poesia se libertou/ não quer mais usar espartilhos e meia fina/ exigências do opressor”. Mais adiante, no plano da intimidade: “minha poesia saiu da alcova/ revelou os meus segredos…”. Depois sobre a forma: “deixou de ser uma poesia deslumbrada/ cheia de perfumaria/ com grilhões de métricas e rimas”. Porém, aparentemente, o que ela apresenta como ruptura parece não se referir exatamente aos poemas dos dois capítulos anteriores. Mas há sinais de mudança.

Um dos mais evidentes são os dois autores reverenciados. Solano trindade e Carolina Maria de Jesus entram no lugar de Bandeira, Drummond e Rosa. Canção para o amadoque é dedicado a Solano Trindade, saúda o poeta do povo, porém com referências mais aos elementos da cultura popular tradicional do que à poesia do homenageado. Já em Carolina de Jesus, feito para o centenário da escritora (2014 – mesmo ano da publicação do livro) é inspirado em uma passagem de Quarto de Despejo em que aquela escritora sai para vender papelão e consegue dinheiro suficiente para comprar pão apenas para seus filhos. Faminta, ela relata a história em seu diário.

Exceto cinco poemas, todos os demais 18 textos do terceiro capítulo abordam questões relacionadas ao universo do povo negro como já foi dito, o que faz dessa parte do livro um bloco um tanto monotemático no qual ela não alcançou elaborações muito inovadoras. Débora não faz experimentações estéticas e quando aparecem não tem um efeito tão interessante como o poema acróstico Olufela no qual homenageia Fela Kuti e em Aritmética da história brasileira que explica por meio das operações básicas da matemática as camadas que formam as mazelas do Brasil: exploração, catequização, escravidão, desigualdade social e corrupção.

Destaco dois poemas desse bloco me pareceram mais elaborados. Os dois são líricos. Um é extenso e tem uma narrativa mitológica; o outro é curto, porém, denso de sentido. O primeiro dá título ao livro: Corações. O segundo encerra o livro: Revelações. Corações é um canto de devoção a Xangô; um ritual de passagem. Débora liberta-se da coroa de espinhos; purificou-se. As flores da coroa seguinte secaram com o tempo. Mas viu-se desesperada por estar despida de uma coroa: “Com a fronte desprotegida/resolvi resgatar/ um Ojá envelhecido/ que ganhei de minha Iyá”. Renasceu com o gesto e exalta o turbante: “ojá não é adereço/ artigo de exibição/ é a coroa sagrada/ das mulheres de nossa terra…” Revelações serviria tanto de prefácio quanto posfácio do livro: “Sim, assumo/ meu passado foi negro/ e se me perguntar/ digo sem medo de errar/ que meu futuro/ negro será!”

Toda mulher que fala é invencível

Guiniver e Débora Garcia, ao que parece, foram subestimadas como poetas o que faz com que a publicação de seus livros se torne um ato de emancipação. Entretanto, diferente de Débora, Guiniver não se queixa dos que não deram o devido valor a seus escritos. Quem dá o recado por ela é Raquel Almeida na orelha, quando diz: “para nós, mulheres, cada gota é necessária e importante, e a intensidade é tão latente que a dita ‘qualidade’, ditada por homens, nem é a prioridade na hora de desaguar nossos mundos”. E Jenyffer Nascimento completa no prefácio: “escrever e publicar, em nosso contexto de mulheres trabalhadoras é muito mais labuta e coragem, do que vocação inata ou glamour e aplauso”.

Já a poeta da Zona Leste foi direta com seus críticos em dois poemas do livro: Composição e Alforria, como foi visto anteriormente, e também no posfácio no qual assume o risco: “seja bom ou ruim, decidi pelo resultado ora apresentado”. Mas é em num poema publicado posteriormente no Cadernos Negros com o título Trajetórias que ela afronta os “círculos egrégios dos escribas” ( …) “círculos estritamente masculinos/ de literatura branca e elitizada”. Cansada, a autora decidiu: “tomei papel e a caneta/ escrevi e publiquei um livro”.

Definido como “gestação da alma” por Débora e “refazimento pessoal” por Guiniver, Corações e Infinito Rubro-carmim, são livros nos quais as autoras se entregam por inteiro de modo cru e verdadeiro. São peças artísticas que se avaliadas somente pelos aspectos estéticos, que são valorosos, perderia o que tem de mais precioso: os sentimentos em sua forma elaborada como pensamento. O sentimento como é pensado e o pensamento como é sentido. Esse movimento da consciência prática a que se refere Willians, cujo método me serve de referência para a leitura, é muito perceptível nos poemas das duas autoras, mas também em toda uma geração de escritoras negras que surgiram com os saraus e slams nos últimos anos, para as quais a poesia é o espelho da alma e rompem como explosão a pretensa dicotomia entre razão e emoção.

As mulheres, especialmente as negras, sofreram e sofrem um processo atroz de silenciamento. A subestimação intelectual é uma expressão do racismo e machismo estruturais. Por isso, declamar, escrever e publicar poemas é um ato político de subversão. Débora e Guiniver são representativas dessa insurgência das letras pretas femininas. Conceição Evaristo, a diva maior dessa legião, ao prefaciar o livro Querem nos Calar 2que reuniu poemas de 15 autoras, afirma que aquela antologia “comemora a posse da palavra em consonância com a posse do corpo-mulher, em sua autodescrição. E nesse ato se afirma mulher que se nomeia, a que fala e que por isso se torna invencível”, explica fazendo uso de um verso de Ryane Leão, uma das autoras da coletânea.

Jenyffer Nascimento, no prefácio do livro de Guiniver faz loa à linhagem de escritoras que começa com Maria Firmino dos Reis no século XIX, passa por Carolina Maria de Jesus e Miriam Alves e chega nas contemporâneas, Dinha e Elizandra, e outras tantas, entre as quais ela própria que não quis se autocitar. Guiniver e Débora entraram com autoridade nesse panteão que sempre esteve oculto mesmo sendo óbvio. Mulheres unidas “pela dor, pelo amor e pela cor”, como diz o poeta Sergio Vaz. Mulheres invencíveis porque falam e eternas porque escrevem.


1 O exercício consiste em mapear as recorrências de abordagens que estabelecem aproximações entre as obras. Para se chegar a essa compreensão procuro perceber o pensamento como é sentido e o sentimento como é pensado. Tal percepção é possível de se alcançar observando o movimento da consciência prática que é o impulso, contenção e tom na fala dos personagens e dos narradores. Este procedimento foi criado pelo sociólogo britânico Raymond Williams (1920 – 1989) autor dedicado aos estudos da cultura, do teatro e da literatura, fundador dos Estudos Culturais e expoente do movimento New Left que renovou o marxismo na metade do século passado. Sua obra mais conhecida no Brasil é Cultura e Sociedade, publicada pela Editora Vozes.

2 Querem nos calar – poemas para serem lidos em voz alta. Duarte, Mel (org). Editora Planeta, São Paulo, 2019.

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