Os que mandam e os que obedecem

“Quem é mais digno de pena? O que bate ou o que apanha?”… A pergunta ecoa em “Jacques e a Revolução”, que contrapõe criados e patrões, maridos autoritários e mulheres “domesticadas”, a subordinação e o pensar libertário

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Por Wagner Correa de Araújo | Foto: MarQo Rocha

Jacques e a Revolução, ou “Como o criado aprendeu as lições de Diderot”

Centro Cultural Parque das Ruínas

R. Murtinho Nobre, 169 – Santa Teresa

De 7 a 30 de outubro, no Rio de Janeiro – sexta a domingo, às 19h

R$ 30,00 reais e R$ 15,00 (meia)

Duração: 80m

Facebook: https://www.facebook.com/jacquesearevolucao/

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“É por natureza que a maioria dos seres comanda ou obedece”, propugnava Aristóteles em sua Política.

E esta dicotomia – dominados e submissos – capaz de colocar uns acima e outros abaixo, feitores e escravos, patrões e criados, maridos autoritários e mulheres “domesticadas”, sexualidades passivas ou ativas, torturadores ou vítimas, continua como uma marca cínica do processo evolutivo civilizatório.

Mas não houve, afinal, em 1789, a surpresa histórica do propício questionamento da abusiva legitimidade divina do poder, até então consentida e resignada? Envolvendo, entre outros, luminares escritores/filósofos como o iluminista Denis Diderot?

No esteio das comemorações bicentenárias 1789/1989 deste marco zero, foi onde surgiu o ideário da peça de Ronaldo Lima Lins – Jacques e a Revolução ou Como o Criado Aprendeu as Lições de Diderot.

Uma escrita dramatúrgica que se viu espelhada na fundamental obra de Diderot Jacques o Fatalista e o Seu Amo, dos anos de aproximação da Revolução Francesa. Como o fizera, em 1971, o escritor Milan Kundera em sua única incursão teatral Jacques e Seu Amo.

Remetendo ainda a uma precedente abordagem desta relação patrão x empregado no Bertolt Brecht de O Senhor Puntila e Seu Criado Matti, em tempo de comédia política. Enquanto no texto de Kundera é retomada a simbologia da viagem, elo condutor original do romance de Diderot, a concepção de Ronaldo Lima Lins envereda pelas relações clássicas do poder, transubstanciadas na contemporaneidade dos domínios de substrato econômico/empresarial.

A dualidade regimental entre o patrão/empresário (Luiz Washington) e o criado/empregado Jacques (Abílio Ramos) contrapõe-se entre o senso da subordinação e o pensar libertário do personagem titular. Dissimulando um desejo, comum a ambos, da convicção de serem apenas eles os donos de si mesmos.

Que alternativamente perpassa numa narrativa dialogal de afeto e ambição, lembranças e atitudes comportamentais, envolvendo e cruzando suas vidas também com personificações do elemento feminino (Ana Luiza Accioly/Katia Iunes).

Onde a coesa e cativante performance dos dois papéis masculinos (Abílio Ramos/Luiz Washington) tem sintonia perfeita num jogo mordaz e irônico de ataques e parcerias. Mantendo-se o ritmo da representação no empenho do elenco feminino (Ana Luiza Accioly/Katia Iunes), mesmo em papéis coadjuvantes e quase incidentais.

Correntes de ferro e cordas sugestionam domínio e prisão, ao lado de figurinos sóbrios (Mariana Ladeira/Thais Simões) e uma bem dosada fisicalidade (Carmen Luz). Tudo, enfim, ambientado sob os belos efeitos do desenho de luz (Renato Machado) e da trilha sonora (Caio Cezar/Christiano Sauer).

O comando diretorial de Theotonio de Paiva confere um olhar crítico e avança, assim, com energia, no desafio de transformar um discurso textual de prevalência da palavra em convicta e reveladora representação dramática.

A ecoar, reflexivamente, a instigante e laminar fala/signo de Jacques e a Revolução:

“Quem é mais digno de pena? O que bate ou o que apanha?”…

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