Em O Ornitólogo, o notável João Pedro Rodrigues

Chega ao Brasil filme que sintetiza grandes marcas do cineasta português: trânsito entre real e fantástico, centralidade do corpo e intensa imaginação combinada com rigor da forma

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Obra de cineasta português chega ao Brasil com filme que sintetiza suas grandes marcas: trânsito entre real e fantástico, centralidade do corpo e intensa imaginação combinada com rigor da forma

Por José Geraldo Couto, no blog do IMS

O cinema português é um fenômeno. Mesmo com uma produção relativamente pouco numerosa, conta hoje com pelo menos três dos cineastas mais originais e potentes em atividade no mundo: Miguel Gomes, Pedro Costa e João Pedro Rodrigues, cujo longa-metragem mais recente, O ornitólogo, premiado em Locarno, está entrando em cartaz em cerca de vinte cidades brasileiras. Salvo engano, é o primeiro filme do diretor a ser exibido comercialmente no país.

Mais que isso: toda a rica filmografia de cineasta, incluindo seus curtas e documentários, pode ser conferida na retrospectiva João Pedro Rodrigues promovida pelo Instituto Moreira Salles do Rio de Janeiro.

Liberdade de imaginação

O ornitólogo, de certo modo, é o ápice e a suma dessa obra, pois conjuga num patamar elevado várias de suas linhas de força: o trânsito entre o real e o fantástico, a primazia conferida ao corpo (dos seres e das coisas), os deslocamentos e descompassos culturais, a releitura da religiosidade (sobretudo cristã), o equilíbrio entre a liberdade da imaginação e o rigor da forma.

Tudo começa na mais perfeita, quase idílica, quietude. O ornitólogo Fernando (o ator francês Paul Hamy) percorre um trecho deslumbrante do rio Douro, na fronteira entre Portugal e Espanha, fotografando aves e registrando num gravador informações sobre elas. Uma distração, uma corredeira inesperada, um caiaque virado – e Fernando entra numa viagem de outra natureza, e com ele o espectador.

Não convém antecipar aqui a acidentada jornada do protagonista. Basta dizer que, entre outras coisas, ele cruza com duas chinesinhas devotas que se perderam do caminho de Santiago, com um grupo ruidoso de caretos (personagens mascarados do folclore português, semelhantes aos clóvis ou bate-bolas do carnaval carioca), com amazonas que falam latim e estão armadas de fuzis, com um jovem pastor de cabras surdo-mudo etc.

De Santo Antonio a Santiago

Por um lado, como ficará claro ao longo da narrativa, o filme é uma glosa da história de Santo Antonio de Lisboa (citado em epígrafe), o santo franciscano também conhecido como Santo Antonio de Pádua, cujo nome de batismo era Fernando. Ali estão, transfigurados, alguns episódios da vida do santo. É quase uma hagiografia às avessas.

Por outro lado, O ornitólogo dialoga com O estranho caminho de Santiago, de Luis Buñuel, que também é uma viagem pela mitologia cristã, com um pé no presente histórico e outro no imaginário, digamos, atemporal. Com o acréscimo, aqui, de um homoerotismo difuso, que se concretiza numa bela cena de sexo numa praia de rio, filmada com câmera alta, recurso de estilo caro ao realizador. Neste filme, Rodrigues torna aliás literal a expressão bird’s-eye view, usada para descrever as tomadas aéreas num ângulo vertical ou quase. Há lindas “câmeras subjetivas” do ponto de vista das aves.

Nesse universo ambíguo – eu quase diria anfíbio, dados os atravessamentos entre a terra e a água – tudo ganha possibilidades alegóricas: uma pomba branca de asa quebrada pode ou não ser o Espírito Santo, o rio pode ou não ser uma versão do Estige (rio infernal do Hades), alguns personagens podem ou não ser encarnações de seus homônimos histórico-míticos: Fernando/Antonio, Jesus, Tomé. Para embaralhar ainda mais as coisas, o próprio diretor, João Pedro Rodrigues, aparece fugazmente na pele de seu protagonista.

Há, por fim, um humor poético e insólito, enunciado em várias línguas: português, inglês, mandarim, galego, latim e até mirandês (idioma da região de Miranda do Douro), sem contar a linguagem dos sinais.

No mais, é a paisagem suntuosa do Douro, com suas falésias, remansos, corredeiras, praias e matas, fauna e flora captadas por uma fotografia nítida e translúcida, espetacular nas cenas noturnas. Se é um filme que fala do espírito, é por uma celebração da matéria viva que ele se expressa. É, sem dúvida, o filme mais belo de João Pedro Rodrigues até agora – e um dos mais belos do ano.

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