A eterna adolescência de Daniel Filho

Ao articular universo jovem com problemas sociais contemporâneos, “Confissões de Adolescente” converte-se em entretenimento inteligente, algo raro na produção brasileira

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Ao articular universo jovem com problemas sociais contemporâneos, “Confissões de Adolescente” converte-se em entretenimento inteligente, algo raro na produção brasileira

Por Jose Geraldo Couto, no blog do IMS

A adolescência é uma época de descobertas, trapalhadas, crises de identidade e de autoconfiança, medos medonhos, euforias ferozes. No centro de tudo, claro, está o sexo, com seus mistérios e desafios: primeiro beijo, primeiro amor, primeira menstruação (ou primeira ejaculação), primeira transa e, não raro, primeira gravidez.

Por tudo isso, é um período da vida altamente cinematográfico, podendo gerar desde dramas memoráveis como Houve uma vez no verão até um besteirol idiota como American pie.

No Brasil não são muito frequentes os bons filmes destinados ao público adolescente. Nos últimos anos houve As melhores coisas do mundo (2010), de Laís Bodanzky, e Antes que o mundo acabe (2009), de Ana Luiza Azevedo, e uns poucos outros.

É esse terreno relativamente pouco explorado que Confissões de adolescente vem ocupar, buscando reencontrar o êxito da peça de Maria Mariana encenada em 1992 e da série de TV exibida em 1994 sob direção de Daniel Filho.

No longa-metragem, o acerto fundamental dos diretores Daniel Filho e Cris D’Amato foi adaptar a trama aos novos tempos, preservando, entretanto, os personagens, a estrutura dramática e o tom carinhoso do original.

Classe média e internet

Logo a primeira cena já dá o contexto social e geográfico em que os personagens se movem. O pai advogado (Cássio Gabus Mendes) convoca as quatro filhas e comunica que, para cortar despesas, eles terão de se mudar do espaçoso apartamento em que moram num condomínio da zona sul carioca. Os apertos da classe média agravados pelo encarecimento do Rio de Janeiro às vésperas da Copa e das Olimpíadas. Mais concreto impossível.

Igualmente concretos são os problemas de cada uma das meninas, da mais jovem (Clara Tiezzi), de 14 anos, à mais velha (Sophia Abrahão), que já está na faculdade. Cobre-se assim todo o espectro da adolescência.

Outra astúcia dos realizadores foi incorporar o mundo da internet e da comunicação virtual não apenas à trama, mas à própria textura do filme, com a inserção de janelas e links na tela – recurso que já havia sido usado, é verdade, em outros longas, como Meu tio matou um cara (2004), de Jorge Furtado, e o já citado Antes que o mundo acabe. Assim como nesses exemplos, o procedimento aqui não é novidadeiro ou fetichista, mas está integrado organicamente à narrativa.

Humor visual

Por fim, há que saudar a leveza da encenação e o caráter essencialmente cinematográfico de Confissões, algo que pode soar óbvio mas não é, nestes tempos de dramaturgia televisiva e cacoetes correlatos. O humor do filme é predominantemente visual, produzindo momentos memoráveis, como o da menstruação inesperada de uma das meninas na praia, ou o da primeira trepada de Alice (Malu Rodrigues) e Marcelo (Christian Monassa), povoada pelas imagens dos pais e amigos dos dois jovens amantes.

Se há um ponto fraco em Confissões, a meu ver, é o personagem da gostosona Talita (Tammy Di Calafiori), “a garota mais popular da escola”: aqui o filme resvala para o maniqueísmo, pagando tributo às comedinhas e telesséries teen americanas que infestam nossas telas.

No mais é o que se pode chamar de entretenimento honesto, coisa rara em nossa produção, cindida em geral entre filmes autorais que pouca gente vê e sucessos de bilheteria que não respeitam a inteligência e a sensibilidade do público.

Em tempo: Deborah Secco, revelada ao encarnar uma das irmãs na série de TV, aparece aqui no divertido papel da mãe de um garoto da turma (João Fernandes, ele próprio um tremendo comediante), e Maria Mariana, autora da peça e atriz da série, faz uma ponta como a advogada que submete a mais velha das irmãs a uma entrevista de emprego.

Aqui, para quem tiver curiosidade, um episódio da série exibida em 94:

Kubrick no Rio

Quem estiver no Rio não pode perder a Mostra Kubrick que o Instituto Moreira Salles exibe de hoje (10 de janeiro) até o próximo dia 26. É uma retrospectiva ainda mais completa (porque inclui o primeiro longa, Medo e desejo) do que a exibida em São Paulo em outubro passado e sobre a qual escrevi.

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Um comentario para "A eterna adolescência de Daniel Filho"

  1. Ruy Mauricio de Lima e Silva Neto disse:

    Sei não, José Geraldo,a julgar por este trailer fico muito tentado a dizer: Não vi e não gostei.Tudo o que de mais pavoroso têm as horripilantes novelas que há quase 50 anos inculcam a superficialidade (quando não a boçalidade) na juventude (e por extensão) no público brasileiro ali estão presentes: os diálogos modernosos, os estereótipos de uma juventude tida como homogeneamente esfusiante e consumista, e sobretudo a monotonia dos enquadramentos que é tabu para a telenovela. Ou seja: close no rapaz, ele fala;close na menina,ela dala;close no rapaz,ele fala;close na menina, ela fala, isto por uns 5-6 minutos quando então corta para outro ambiente e nova profusão de closes, entre duas ou tres pessoas se inicia.Isto para mim é nada menos que o Anti-Cinema, que nem os primitivos da Europa e dos Estados Unidos, que teriam todos os motivos para facilitar a identificação dos personagens para um público desabituado com a nova linguagem, chegaram a recorrer.Aqui, como sabemos, temos a linguagem espúria das imagens de telenovela concebidas para um público supostamente rasteiro porque assim toda uma ampla gama de telespectador estaria conquistada.E o triste cinema da (só podia ser) Globo Filmes vem agora infestar o nosso cinema impondo no tapa os seus cacoetes novelescos.O final vai ser como em “1984” – estaremos todos adorando O Grande Irmão.

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