A elegância do brinde de sidra no copo de requeijão

Dois poetas mostram o vigor estético da literatura de periferia. Em um, pena reluzente, rigor formal e cortejo aos cânones — mas falta-lhe DNA da quebrada. Em outro, o lixo como elemento central — carregado de melancolia e sintaxe das ruas

Imagem: “Favela”, aquarela de Camila Lacerda

Por Eleilson Leite, na coluna Literatura dos Arrabaldes

Compartilho neste texto, a leitura que fiz dos livros 21 gramas1, de Marcio Vidal Marinho (Ibis Libris, 2016) e Viver entre os porcos, sem comer da lavagem2, de Tubarão Dulixo (Edicon, 2015). Os dois poetas atuam como educadores; Marcio na rede pública e Tubarão no ensino não formal com uma importante experiência com arte educação para pessoas privadas de liberdade. O autor de 21 gramas tem 36 anos e é do Jardim Ângela, periferia da Zona Sul de São Paulo e ligado ao Sarau da Cooperifa. Tubarão, por sua vez, nasceu na década de 1970 na Baixada Santista, mas viveu por muitos anos no Centro de São Paulo onde apresentava, com o Alessandro Buzo, o Sarau Suburbano Convicto no bairro do Bixiga, uma das periferias da região central da capital.

Emparelhar esses dois livros numa leitura conjunta, revela o quanto a literatura produzida nas periferias é diversa e rica em abordagens e propostas estéticas. Marcio é um poeta erudito com mestrado em literatura na USP e produz uma poesia formalmente estilizada que se aproxima da tradição literária canônica. A periferia na qual vive é um elemento secundário em sua obra, mesmo nos poemas que tratam do cotidiano urbano. Já Tubarão, cuja formação é em meio ambiente, faz uma escrita visceral que tem nas ruas de quebrada seu tema, mas também sua sintaxe. Marcio segue a norma culta, enquanto Tubarão, autodidata nas artes visuais e da palavra, recolhe os vocábulos do lixo que lhe serve de inspiração. Ambos fazem uma poesia de alta grandeza que fala de amor, da vida cotidiana, das misérias do mundo e de seres de almas imundas. O poeta da Cooperifa elabora seus textos em forma de canto, dada a exaltação que imprime em seus versos. Já o MC do Sarau Suburbano destila desencanto na sua poesia carregada de ceticismo e melancolia. Dois estilos bem distintos que nos ajudam a perceber que a literatura periférica vai muito além dos rótulos que a simplificam.

21 Gramas

Marcio Vidal Marinho, ao lado de Stephanie Catarino, no programa “Aonde é o rolê”

São 42 poemas feitos com esmero, sendo que dois deles têm subdivisões. Um é Velho canto brasileiro. Dividido em 8 partes, esse poema épico pode ser lido como uma atualização do Navio Negreiro, de Castro Alves. O outro é Reino das Almas que tem duas seções. Agrupei os textos em quatro blocos. O primeiro compõe os poemas de combate que são os mais politizados. Nesse grupo tem apenas quatro textos, mas um deles é o já referido poema épico com 8 partes que ocupam 19 páginas. O segundo grupo reúne os 10 poemas que tratam do cotidiano urbano, nos quais o autor discorre discretamente sobre a periferia. O bloco seguinte é formado igualmente por 10 poemas que são mais eruditos, reflexivos e experimentais. No final do livro ficam os poemas de amor com 15 textos que formam o bloco mais homogêneo do livro.

Entre os poemas de combate, se destaca Velho canto brasileiro que também é o principal poema do livro. Um canto, como indica o título, que fala da saga do povo brasileiro, especialmente os negros e os periféricos, mas numa estética de poesia do século 19, com traços do romantismo: “sob a negra noite/Deusa dos sonhos/não saberei cantar a vida/ que é breve”. Poema longo com 16 estrofes somente no primeiro canto, remete a Navio Negreiro de Castro Alves numa atualização que sugere a superação do cativeiro: “Terra preta/Pelo preta/ Alma preta/ Orgulho preto/ Orgulho preto/ Orgulho preto/ o navio não é mais negreiro”. O texto tem uma levada de grandeza épica bem ao estilo do poeta oitocentista que lhe serviu de inspiração.

O poema segue com mais sete partes, todas numeradas em algarismo romano e passa fazer um relato da travessia no navio negreiro: “Esse navio enlouquece a todos/ Há meses no mar/sem saber o destino/ sob o açoite/dos homens/ dos mortos”. O autor assume o eu lírico de um homem negro escravizado: “Estou algemado/ mãos e pés/ sem poder mexer/há dois dias assim”. A escrita de Marcio é muito polida e mesmo narrando tamanho sofrimento, não se arrisca em versos mais viscerais: “meu corpo não aguenta mais a dor/ minhas roupas já não servem mais/fiz minhas necessidades aqui” É difícil de imaginar que um homem sob tais condições se refira ao ato de cagar de modo tão protocolar.

A partir do canto VI, o personagem já se encontra no Brasil e se delicia com as frutas abundantes no lugar. O personagem se depara com outros negros de linhagens distintas e diferentes línguas, todos chamados de negros. Entendeu o sentido de tal palavra: “percebi que assim se refere a mim/ meu nome é Akins/ mas aqui me chama de Silva/Onde é aqui?” No canto VI, a primeira tentativa de fuga frustrada e o castigo; amputação de dois dedos. No canto VIII, o desfecho da história que contrasta com o primeiro canto que sugere um levante.

Os outros dois poemas de combate abordam temáticas distintas, mas que se conectam: Pátria minha e A Vitória. O primeiro é umcanto desolado do poeta arruinado: “acabaram as esperanças/ e no teu céu não brilha/ mais a força, nem aqueles/ que morreriam por ti”.O segundo é um poema narrativo sobre Ferreira, um deputado que almeja ser governador. Descreve, com ritmo frenético, a mutreta por meio da qual o parlamentar corrupto conseguiu a grana para bancar a campanha.

Dos poemas que abordam o cotidiano da vida urbana, três deles têm a morte como elemento central, mas ela não é descrita, é pano de fundo para narrar situações inerentes a ela. Em um dos poemas, a morte é apenas uma possibilidade iminente; noutro ela é um trauma que aflige o irmão da vítima e num terceiro ela é o pivô de uma situação insólita por meio da qual o poeta exercita uma reflexão filosófica.

O trauma está no poema P.M.C no qualum personagem de nome Sr. Ricardo parece ter se envolvido no mundo do crime depois da morte do irmão em decorrência de um assalto. Mas não se sabe se irmão morreu vítima do assaltante, ou se era ele o ladrão e foi morto pela Polícia. Fiquei com a segunda hipótese, pois captei um clima de vingança nas tensões do poema. Neste caso, PMC pode ser as iniciais do nome do irmão, supostamente menor de idade e por isso se usa esse recurso gráfico para ocultar a identidade de um adolescente infrator. Já Reino das Almas é um poema narrativo em primeira pessoa, sobre uma vizinha que morreu, porém, as causas de seu falecimento são desconhecidas. O episódio se passa num prédio: “o síndico foi que contou”. Tem um ritmo de suspense e versos bem elaborados: “estou tão cansado/ que me pesam as pálpebras”. Dividido em três partes, na segunda, o corpo é exposto: “deixou o corpo gelado à mostra/ e o coração triste sem anticorpo”. Na terceira parte, o autor faz uma reflexão sobre o sentido da vida e da morte: “O que pode ser alguém trocar a vida/ pelo escuro do mundo?”

O poema em que a morte não se consuma é 21 gramas, que dá título ao livro. Poema bem elaborado que faz uma alegoria da iminência da morte com o jogo de duas almas em conflito, uma interna e outra externa. A externa se expunha ao perigo enquanto a interna se apegava à vida. O intertexto é do filme homônimo, do mexicano Alejandro Iñarritu (2003). O título se refere a uma tese, segunda a qual uma pessoa perde 21 gramas no momento em que morre. Vidal conclui: “permaneci com meus 21 gramas/ talvez não intacto, mas ainda forte”.

Os demais poemas que tem a paisagem urbana como cenário pouco abordam o cotidiano das periferias. E quando aparece, é de modo secundário, mesmo naqueles em que as margens da metrópole têm alguma relevância. Vejamos dois casos desse tipo. Em Ária para as represas de São Paulo, o autor exercita seu lirismo recorrendo ao gênero operístico da ária que é um momento do espetáculo em que o solista canta ou recita em destaque. Faz na verdade uma ode, sem o uso rigoroso da simetria dos versos, dado o tom laudatório do poema que fala das represas de São Paulo. Nele a citação à periferia aparece bem ao estilo do autor, como um canto de devoção: “e teu corpo espalha-se/ por minhas periferias/pelas margens de minha cidade”. O poema Sou Gente, vai no mesmo diapasão. O autor parece enaltecer sua trajetória que o fez ser o que é apesar das dificuldades inerentes à periferia descrita por ele como: violenta, abandonada e sangrenta. Mas nela, ele fez amigos, amores, pegou gosto pela leitura, pelo berimbau e o futebol: “na periferia/ escolhi correr atrás de bola/ jogar ao toque do berimbau/ e ler o que pudesse”.

Os poemas que classifiquei como os eruditos somam 10 textos, mas o traço experimental está presente em quase todo o livro, pois, Marcio Vidal é um poeta estudioso como já foi dito. Seus poemas têm mais construção do que expressão apesar do lirismo, por vezes eloquente. O exercício da forma está em poemas como No voice, que trata de uma voz inaudível que um dia “farse-se-á audível”. O autor faz um poema curto com uso de mesóclise e título em inglês. Outro exemplo é A folha, um devaneio sobre as folhas ao vento. Todas verdes, parecem iguais, mas “nenhum verde é igual”. No mesmo estilo é o poema Quem?, no qual o autor faz uma reflexão filosófica: “a única verdade que existe é a inexistência de verdade absoluta”. Pode soar um tanto clichê, mas no contexto do poema tem seu vigor.

Em dois poemas, Vidal deixa nítido seu apego ao cânone da literatura. Em A escuridão, o eu lírico do autor clama pelos poetas que estão nas prateleiras da sala. Fecha os olhos e escolhe um livro e lê o poema que está na página aberta aleatoriamente. Pela citação óbvia (E agora José?), trata-se de Drummond. Em A espera ocorre o mesmo. Neste poema narrativo, uma moça aguarda ansiosa a chegada de um homem uniformizado que lhe entrega um envelope, cujo conteúdo provoca na moça uma emoção que a leva ao choro. Ela deixa a carta sobre um móvel e aguarda a mãe chegar para contar a novidade. Enquanto espera, lê um livro de contos do Machado [de Assis], autor que parece ter sido inspiração para o poema.

O auge desse apego de Marcio Vidal à literatura hegemônica está no poema Álvaro de Campos foi à Cooperifa. Poema narrativo no qual o heterônimo de Fernando Pessoa vai até o Sarau da Cooperifa. Chega cedo, se distrai com os livros que formam uma pequena biblioteca junto ao balcão. Duas camisas emolduradas lhe chamam a atenção, uma delas é assinada pelo Rei, “mas não D. Sebastião”, e sim Pelé. Quando se dá conta, o Sarau começou com a energia de um grandioso desfile de escola de samba. Na segunda metade, o poema passa a ser narrado em primeira pessoa. Álvaro de Campos fica arrebatado. É chamado e tenta declamar um texto de sua lavra Tabacaria, um longo e complexo poema, cuja leitura consumiria mais de 10 minutos o que seria inviável para o Sarau. Mas o poeta não segue adiante e, tomado pela emoção, aos prantos, interrompe a fala e é acolhido por Sergio Vaz, o mestre-sala do recital.

Márcio Vidal se enche de empolgação quando aborda o Sarau da Cooperifa, mas ao se referir ao Bar do Zé Batidão, chama a atenção a descrição negativa que ele faz do estabelecimento, algo que não corresponde à realidade: “O local é um bar típico de favela/ pela fama achou que seria mais bonito/pinturas desgastadas, mesas grudadas/ as paredes que vão de encontro à rua/ são grades como se fosse uma jaula”. O bar, pelo contrário, é amplo, limpo e bem estruturado com mesas bem distribuídas, excelente atendimento, comida boa, aceita todos os cartões, etc. Nem é um bar típico de favela e tampouco fica numa favela. O poeta certamente quis realçar o aspecto de quebrada do ambiente, mas resultou num trecho mal resolvido. Creio que este poema explique bem o que acontece com a poesia de Marcio Vidal que é feita na periferia, mas a quebrada não está no DNA de seu texto. Marcio gosta dos escritores do cânone literário e fazer o Fernando Pessoa/Álvaro de Campos baixar como um espectro no Sarau da Copoperifa diz muito sobre sua forma de fazer literatura.

A parte final do livro onde estão os poemas de amor é demarcada pelo texto: “Ah, é o amor que chegou…” Impresso como único texto da página, acaba servindo como abertura do capítulo. Tal poema de verso único é uma boa introdução para a poesia lírica de amor de Marcio Vidal. A maioria dos poemas está alinhada a uma estética do romantismo, cheios de interjeições que acentuam o sentimento do poeta expressos com rasgada devoção a amores, por vezes inviáveis. Outros têm traços mais modernos da poética de Fernando Pessoa e seus heterônimos. Alguns dos textos chegam a ter requintes parnasianos.

Começa com o soneto Amei, poema romântico e singelo: “percebi que vivia numa caverna/porém, o amor ao longe eu avistei/ e em sua direção eu fui, amei”.

Os demais poemas têm, quase todos, a mesma pegada. O autor não parece ter vivido as experiências amorosas que descreve, tampouco se baseou em histórias alheias. Vidal busca inspiração em poemas de outros autores, e do cânone, como já disse reiteradas vezes. Em especial Fernando Pessoa, me parece, dada a recorrente citação do mar, elemento muito fora do contexto periférico dele. Isso fica nítido em poemas como Presente: “amar-te é ter cobertor nos dias frios/ ser o mar nos dias quentes/ no entrelaço das mãos – o macio/ que forma nos corpos os afluentes”. Mas em Amor além-mar, o poeta se esbalda no canto romântico com sotaque português com intertextos de Pessoa: “Ah, se não fosse D. Afonso/ tão bravo e alvino/ para abrir os caminhos/ para eu te encontrar”. Depois desloca o eu lírico: “Ai, meu amado/ receba tua amada/ sinta o abraço de Maria/ E o amor que lhes é vogado”.

Viver entre os porcos sem comer da lavagem

Tubarão Dulixo

Os 59 poemas do livro de Tubarão Dulixo abordam quatro temas que se conectam: a crítica social e política; o amor; o lixo, e o cotidiano na quebrada. Há alguns poemas experimentais que escapam a classificações, mas que atravessam as temáticas citadas. Um deles, sem título, é assim: “aprendeu a limpar a bunda ontem/ e já quer cagar fora de casa…/dá merda…”. Outro é Me solta: “amor é cura/ fecha a porta/ fácil é fuga/ faca corta”. A habilidade poética de Tubarão se evidencia também no poema Sutileza: “naquele mágico instante/ em que o silêncio abundante/ faz mais barulho que qualquer alto falante”.

A questão do lixo é central na vida de Tubarão. Como educador e artesão, ele faz brinquedos e utensílios de sucatas. O poeta tem a reciclagem e o reaproveitamento dos resíduos sólidos como uma causa reforçada por sua formação em técnico ambiental. O tema aparece em várias partes do livro. Mas em três poemas ele tem centralidade. Carcarás é sobre a ave de rapina que habita lixões com a imponência de quem frequenta palácios. O texto fala, sugestivamente, de um artista que morreu no Marapé, bairro da periferia de Santos. Já foi é um poema telegráfico com 54 versos, quase todos com apenas duas palavras o que imprime ao texto um ritmo acelerado e tenso. Neste caso, o poeta está catando o lixo reciclável do qual ele tira o que precisa para reaproveitar fazendo arte. Tubarão faz uma reflexão sobre a relação das pessoas com o lixo: “te conheço/ tu se revela/ no conteúdo do saco preto/ vaidades/ medos/ felicidade/ de plástico/ de vidro e papelão/ aqui na minha mão…” Por fim, em Seu lixo, Tubarão faz um manifesto em defesa da reciclagem: “amontoados escondidos em sacos pretos/ tem de tudo/o que foi trocado ontem/ no hoje a alguém serviu”.

O cotidiano da periferia, que é pano de fundo para toda a obra, tem lugar de destaque em três poemas com muitas dores e delícias. Assim é o poema Baixada, uma declaração de amor e ódio pelas periferias da Baixada Santista. Repete em caixa alta: SOU DA BAIXADA intercalada com versos que descrevem o dia a dia da comunidade em que o poeta morava num pêndulo entre a mazela: “onde sobre palafitas, vivem famílias amontoadas” e potências: “onde no fim de semana no morro tem samba e feijoada”. Os conflitos na quebrada aparecem em No estalar dos dedos que é uma soma de fragmentos que formam um conjunto que converge para a periferia da Baixada Santista: “enxurrada de convites e apostas/fura o olho e age pelas costas/sai da arte minha resposta/tá com nojo… não encosta/ vem dulixo, mais não é bosta…” A violência que assola a periferia é tratada, especialmente, em João que narra a história de um garoto, cujo nome dá título ao poema. Em quatro estrofes é passada a vida do menino que viveu nas ruas cometendo atos infracionais: Nasceu João – Cresceu João – Viveu João – Morreu João. Inspirado em famoso Rap dos Racionais MC’s, os versos finais do poema servem como lápide para o garoto morto precocemente: “nunca soube o que era amor/ somente ódio, frustração e dor/ pelo menos agora estava livre das garras do opressor”.

O amor é tema pouco abordado no livro, mas até pelo contraste, os raros poemas românticos se destacam. São momentos em que o poeta se solta e flerta com o lúdico como no poema sem título: “Amar é… não tá pra peixe”. Diferente de Marcio Vidal, na poesia de amor de Tubarão os corpos se tocam e se entrelaçam sexualmente, ainda que de forma sutil, como em Delírio, belo poema erótico: “admiro você pelo espelho/ nuazinha em pelo/os olhos percorrem com zelo/ dos pés ao último fio de cabelo…”.

A crítica social e política é o que mais se encontra nos poemas de Tubarão Dulixo. Mapeei 17 textos com essa abordagem. Neles, há temas como a redução da maioridade penal e a educação em regime de privação de liberdade para adolescentes infratores. A alienação do povo inerte diante de sua própria desgraça é algo que causa perturbação no poeta santista. A usura capitalista e o apocalipse ambiental completam o cenário de caos urbano que a poesia de Tubarão expõe. Em um poema sem título ele cria uma imagem corrosiva que representa bem seus textos: “água do mar que salgou a poesia/já corroída pela fina maresia/expôs a estrutura carcomida…/pelas intempéries da vida”.

O rancor do poeta é uma constante e não incide apenas nos problemas sociais. Pessoas são alvo de sua ira ressentida. Isso fica bem evidente no poema Inveja, vigoroso texto que faz uma representação desse sentimento cretino que habita nos medíocres e oportunistas: “companheira dos incompetentes/onde há trabalho, ela está ausente”. O autor termina o poema ressaltando a letalidade da inveja: “como foi no início assim será no fim/a inveja mata o homem/ como Abel foi morto por Caim”. Em Desespero, o autor engata sua metralhadora cheia de mágoa num texto em prosa que abusa das reticências, recurso de pontuação usado a exaustão pelo poeta em todo o livro. Parágrafo único, tenso e intenso com sugere o título, atira para todo lado: o burguês nefasto; o político corrupto; os playboys ativistas, monumentos impatrióticos, a violência atroz do estado. Nada escapa da mira do poeta em desencanto.

A alienação da massa caminhando a esmo em direção do abismo, é um uma constante na obra como já foi dito. No poema Herança, o autor destila seu enfado com a sociedade e as pessoas: “olhos perdidos expelindo medo/mãos estendidas aos montes/para pedir para empurrar/ouvidos antenados prontos para condenar/várias luzes acesas de autoestima apagada”. Termina em tom apocalíptico: “na UTI agoniza a esperança/ no futuro para nossas crianças/cavalo de troia como herança”. Em Confortos, ele faz um recorte de classe por meio de uma crítica à sociedade do trabalho que padroniza comportamentos e a vida cíclica do trabalhador explorado: “tudo igual, segue o calvário…/ vidas ainda são compradas… amor dos tempos modernos…/ tá na porra de um salário”.

Já em 2 mil e alguns passos, Tubarão apela para Cristo em busca de salvação. Neste poema narrativo, os 31 versos formam um cenário de conflitos e desesperança para os que vivem na quebrada em tom melancólico: “nenhum paraíso serve enquanto não se conhece o inferno/ amor não está nos planos do mundo moderno”. Desacredita da sociedade que esqueceu os ensinamentos de Cristo: “só nasceu Hum para compartilhar do pão e do vinho”. A frustração prossegue: “as calçadas andam cheias e todos seguem sozinhos (…) As rédeas apertaram tanto que causaram cegueira”.

Dulixo, porém, tem consciência das causas da desigualdade que cria uma massa de miseráveis. Em dois poemas, especialmente, sua pena é certeira. E agora?, sobre a destruição causada pelo empresário capitalista: “de nada adianta o bolso cheio e o coração vazio/ pra peso na consciência…/ não adianta travesseiro macio”. Condena a usura que destrói o meio ambiente e questiona o déspota endinheirado: “até quando vai aguentar seus blindado?/reproduziu para os dias de hoje a escravidão do passado?”O outro poema é Mudança, texto que temo ritmo de andança: “Passa dia/ passa ano/mudam-se rumos/ mudam-se planos”. E segue com uma colagem de situações dispersas que ganham sentido no conjunto com a questão ambiental que é um tema recorrente do poeta: “mudança mesmo só no clima/lixo e água contamina/por ganância segue a sina”. E prossegue: “Planeta azul, agora é cinza/ fauna e flora agoniza/ dá de ombros, ironiza/que com o tempo cicatriza”. E termina com uma sentença moral em face da mudança (climática): “logo mais bate em sua porta…/ a natureza cobrando caro/ o preço da derrota!”

Mas no coração do poeta melancólico habita a esperança, ainda que seja desconfiada. Em Cotidiano, Tubarão narra seu corre de poeta e das incertezas de quem quer se juntar com a mina e construir família: “Meus sonhos, eu mesmo faço/ e não falo de doce… e sim de espaço/mas se quiser lhe dou um pedaço/ porque viver sem rumo é que é o fracasso”. Em Lavagem, poema cartão de visitas do livro, o autor narra o rolê na Baixada como um flaneur da quebrada. Registra tudo o que vê e destila sua indignação com quase tudo que sua lente capta: destruição do planeta, corrupção, miséria, consumismo, a manipulação da mídia. E o poeta redentor dá a letra: “por isso não caia na armadilha… faça você mesmo sua trilha/ não fortaleça o sistema… corra por sua família”. E termina com o verso do qual extraiu o título do livro: “vivendo entre os ‘porcos’ sem comer a lavagem esse é o desafio de minha passagem”. O autor escreve porcos entre aspas para acentuar o sentido figurado da palavra que, no caso, não se refere ao animal e sim aos seres humanos moralmente imundos que fazem da sociedade uma pocilga.

A beleza do precário

Márcio Vidal Marinho ocupa um lugar muito particular na literatura periférica paulistana. O poeta da Cooperifa, como se observou, é um escriba de pena reluzente que corteja a literatura canonizada. Com sua escrita requintada, ele produz uma literatura periférica de tipo acadêmica, pode se dizer. Ele mostra com seu livro 21 gramas e em toda sua biografia que é possível fazer poesia erudita num contexto até arredio às normas cultas. E faz isso muito bem. O problema é que seu texto, de tão elaborado formalmente, perde força como literatura marginal, pois a linguagem rebuscada o afasta da realidade da qual pretende retratar. Ele fica em outro plano. Há um desequilíbrio a ser corrigido pelo poeta, na medida em que ele exalta sua origem periférica e sua vinculação com um sarau tão emblemático como é a Cooperifa, cuja vitalidade poética não é perceptível em sua obra.

Já a poesia de Tubarão está para a literatura periférica como as composições de Bezerra da Silva estão para os sambas dos morros cariocas. Nos dois casos, a criação é indissociável da personalidade do artista e do seu lugar no mundo. Os textos são igualmente bem elaborados, mas sem preciosismos formais. São poemas viscerais, lascivos, desconcertantes e perturbadores escritos com a sintaxe das ruas (gírias, jargões e figuras de linguagem). Uma literatura que tem os aromas e odores dos lixões, nos quais nascem flores também, já disse o poeta Mano Brown. E assim como as flores que, inusitadamente, surgem em lugares inóspitos, elas aparecem nas frestas da poesia de Tubarão que é, no todo, ácida, indignada e melancólica. Mas é uma poesia com estilo próprio e radicalmente periférica.

A leitura das duas obras pode nos ajudar a avançar na reflexão sobre o tipo de arte que se faz na periferia. A atriz Naruna Costa, disse certa vez, que a estética da periferia é a expressão da beleza do precário. Faz muito sentido essa visão. Ela exercita essa tese no teatro que faz no Grupo Clariô, do qual é diretora. A poesia dos Racionais MC’s é também um belo exemplo, pois tem forma e conteúdo elaborados a partir do cotidiano da quebrada por quem nela vive e para ela anuncia. Dessa química sai pérolas como o verso: “o cheiro é de pólvora, eu prefiro rosas”(Racionais MC’s, Vida Loka parte 2). Eu creio que Tubarão Dulixo alcança essa elaboração no poema Brinde, por exemplo, no qual demonstra a elegância de se beber sidra no copo de requeijão. Há nesse poema uma sofisticação belíssima, como no famoso haikai: “em casa de menino de rua/ o último a dormir/ apaga a lua”(Giovani Baffô). A mim me parece que tais textos representam bem o que chamamos de poesia periférica, do ponto de vista estético e não, somente, do lugar de fala. Dito isso, os poemas de Marcio Vidal Marinho, arrisco a afirmar, pertencem a outra tradição, ainda que seu lugar de anunciação seja a periferia. Isso não faz dele um poeta fora do lugar. Mostra, apenas, que na literatura de periferia há uma ampla diversidade de estilos o que denota o vigor estético dessa produção.


1 O livro tem formato 14 x 21 e 97 páginas. A capa, assinada por Romildo Gomes, explora graficamente o número 21 do título. Sob o nome do autor vem a informação de que a obra recebeu menção honrosa do Programa Nascente, da USP. Na orelha tem um texto de apresentação muito generoso de Heloisa Buarque de Hollanda. O prefácio é do poeta Sergio Vaz. Trecho dos textos de ambos estão impressos na contracapa. 21 gramas foi precedido por dois títulos: Receitas para amar no século XXI ( Edicon, 2010) e A vida em três tempos (Ibis Libris, 2014) e sucedido por Posso escrever os versos mais lindos esta noite ( Ibis Libris, 2019), todos de poesia. Marcio Vidal é professor da rede pública e mestre em literatura pela USP.

2 O livro tem formato 14 x 20 e 86 páginas. A capa de Renato Duarte tem um mosaico de imagens que parece compor os contrastes da sociedade brasileira. O texto da orelha é do escritor e agitador cultural, Alessandro Buzo e o prefácio é do poeta Akins Kintê. Eduardo Brechó, músico integrante da Banda Aláfia, tem um poema em homenagem ao autor impresso na contracapa. Viver entre os porcos é o primeiro livro de Tubarão Dulixo. Em 2019 ele publicou sua segunda obra: Sobre viver dos restos de seus desejos (Ciclo Contínuo Editorial) , obra, cujos textos , são na maior parte, de prosa. Tubarão é educador que atua com arte-educação não formal e em espaços de privação de liberdade.

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2 comentários para "A elegância do brinde de sidra no copo de requeijão"

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