[Podcast] Enchentes: o fracasso da cidade do asfalto

Chuvas de verão escancaram concepção falida de planejamento urbano. Governos apostam em grandes obras de engenharia e esquivam-se do cerne: compreender ciclo das águas e apostar em justiça ambiental e direito à Habitação

Luciana Travassos em entrevista a Rôney Rodrigues

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Nas tempestades de verão, três grandes capitais brasileiras sofreram com enchentes e desmoronamentos. Em Minas Gerais, foram 65 mortes; 13 delas só em Belo Horizonte. Na do Rio de Janeiro, foram três. São Paulo tem confirmadas seis vítimas fatais até agora e, segundo o Corpo de Bombeiros, só na segunda-feira (10/2) foram 932 casos de enchentes, 176 desmoronamentos e 182 duas árvores caíram.

Os grandes prejudicados são aqueles que vivem nas periferias, geralmente em áreas de várzea, e que arriscam perder casas e até suas vidas quando chove. São milhões de pessoas que, entre vários fatores, são expulsas da chamada “cidade formal” pelo desemprego e alugueis caros e ocupam áreas próximas aos rios e sujeitas a inundações. 

No Tibungo dessa semana, entrevistamos a urbanista Luciana Travassos, doutora em Ciência Ambiental pela Universidade de São Paulo (USP) e professora da Universidade Federal do ABC (UFABC), sobre como nos reconectar com os rios, compreender as dinâmicas das águas nas cidades e promover soluções criativas que envolvam planejamento urbano e políticas públicas – não apenas grandiosas obras de engenharia que fazem fortuna às empreiteiras. 

Afinal, os estragos das “chuvas atípicas” se repetem periodicamente. As mudanças climáticas agravaram o volume das precipitações, assim como a seca, mas grande parte do problema está na forma como construímos nossas cidades. Áreas de mananciais são ocupadas de forma desordenada. Há excesso de concreto em nossas ruas e avenidas. Faltam espaços verdes e nossas águas urbanas são tratadas com descaso. Mas governos prioriza “soluções mágicas”, caras e ineficientes…

A Prefeitura de São Paulo, por exemplo, deixou de gastar, nos últimos cinco anos, R$ 2,7 bilhões no controle das enchentes. Alega crise econômica e falta de repasse de verbas do governo federal, mas, como aponta a urbanista Raquel Rolnik, a Prefeitura destinou, no mesmo período, vultuosas soma de recursos públicos para pavimentação de vias e usinas de asfaltos. Ou seja, investe-se dinheiro para impermeabilizar o solo, sem pensar alternativas.

Frente a cidades que ocuparam o espaço dos rios e alteraram solos e fluxos de superfície, ações são necessárias para que moradores convivam em segurança com as chuvas. E, com as cabeceiras do rios já impermeabilizadas, restam então as obras de contenção como a construção de reservatórios para segurar um maior volume de águas durante as chuvas, além de parques lineares ao longo dos rios e córregos, para que as águas acumuladas possam invadir uma área vazia — e não casas.

Mas é preciso ir além. Como, então prevenir enchentes como essas, promover políticas urbanas que valorizem os rios e as áreas verdes, principalmente onde vive a população mais vulnerável?


Apresentação e edição de áudio Gabriela Leite | Entrevistado Luciana Travassos | Entrevista e roteiro Rôney Rodrigues | Direção Antonio Martins | Fale com a gente [email protected]

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