Uma trincheira contra o anticientificismo

A Coalizão Ciência e Sociedade, formada por diversos pesquisadores e entidades, surge para contrapor as mentiras de Bolsonaro. Em defesa da educação e do meio ambiente, querem ocupar a mídia e dialogar diretamente com a população

Por Ivan Ferreira, no Jornal da USP | Imagem: Jardiel Carvalho

Em um movimento crescente de união da comunidade científica brasileira, em meio aos ataques recebidos, pesquisadores constituíram o grupo Coalizão Ciência e Sociedade. O objetivo é oferecer informações e subsidiar políticas com embasamento científico, a fim de permitir discussões sobre tomadas de decisões e rebater colocações de gestores do governo que consideram ditas em tom evasivo, sem profundidade e desprovidas de sustentação factual ou científica. O grupo, que inclui pesquisadores da USP, também irá contrapor posicionamentos, leis e medidas socioambientais sem fundamentação científica. Os pesquisadores atuam por meio da divulgação de documentos e textos subscritos pelos membros na mídia especializada e de massa. Também participam de comissões e eventos no Congresso Nacional e mantêm interlocuções com deputados de variados espectros políticos.

Em entrevista ao Jornal da USP, alguns dos membros falam sobre sua participação no grupo Coalizão Ciência e Sociedade e dão mais detalhes sobre as manifestações e o que estão denunciando.

Alexander Turra, pesquisador do Instituto Oceanográfico (IO) da USP e responsável pela Cátedra Unesco para Sustentabilidade dos Oceanos, tem sua atuação voltada para a integração entre o conhecimento científico e a tomada de decisão de temas relacionados à ecologia marinha, lixo no mar e mudanças climáticas. Turra afirma que o grupo trabalha em diversas frentes e lembra que, no momento, estão discutindo uma ação estratégica para contrapor um evento que será promovido pelo Senado Federal no segundo semestre, convocando cientistas brasileiros e do exterior que contestem o aquecimento global. “É o Senado dando legitimidade a pessoas que se autointitulam como cientistas.” Uma das possibilidades aventadas pelo grupo seria fazer outro evento paralelo no mesmo dia e horário na Academia Brasileira de Ciências (ABC), diz.

Ciência e educação como ponto em comum

Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física (IF) da USP e membro permanente do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), já há vários anos tem sua atuação voltada para as questões da mudanças climáticas e da política ambiental.

Ele diz que o grupo, composto de 50 pesquisadores, tem uma grande diversidade de temas de trabalho e congrega os cientistas mais ativos nas várias áreas do conhecimento. Há, porém, uma preocupação que os une: a luta em prol da ciência e da educação pública.

O pesquisador considera importante “que as pessoas se mobilizem e reajam aos desmandos que estão ocorrendo no governo” e acredita que o debate deva chegar às ruas. Uma voz crítica aos cortes orçamentários da educação e da ciência, Artaxo diz que o grupo Coalizão Ciência e Sociedade  vem se articulando para combater o desmonte da estrutura socioambiental.

A professora Mercedes Maria da Cunha Bustamante, da Universidade de Brasília (UnB), é a atual coordenadora do grupo, embora diga que está nessa condição para operacionalizar as demandas, já que o espaço “é aberto para o debate de todos”. Até porque, devido à repercussão das ações da rede, tem havido interesse de participação de cientistas de outras regiões.

O movimento, que começou a atuar no início de 2019, ainda não teve sua criação oficializada. “A ideia é divulgar informações científicas de forma clara, em linguagem acessível, bem fundamentada e desvinculada de interesse particular e dogmático, para promover diálogos mais aprofundados”, afirma a professora Gabriela M. di Giúlio, da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP. Segundo a pesquisadora, há iniciativas semelhantes em outros países.

A rede de cientistas é quase que um observatório do que vem sendo discutido, proposto e manifestado sobre questões socioambientais, diz Gabriela. Na medida em que se percebe que há retrocessos no que está sendo colocado, que há inverdades sendo divulgadas ou que há um movimento de não consideração ou de desconstrução do conhecimento técnico-científico que existe, essa rede de pesquisadores se mobiliza rapidamente e tenta produzir artigos para emplacar em diferentes mídias para sinalizar publicamente os agravos, consequências e impactos negativos se determinada discussão ou decisão for adiante.

A interação do grupo acontece via internet, por meio de troca de e-mails, a partir da repercussão de medidas governamentais. Em seguida, eles analisam o que foi anunciado e os impactos sociais do que foi proposto. Se consideram importante, redigem em produção coletiva uma resposta e procuram meios para divulgar o material nos mais diversos canais de comunicação: jornais, sites e revistas de grande circulação e em mídias de órgãos acadêmicos. Alguns assuntos também chegam a eles por meio do monitoramento da mídia, explica Marcia Cristina Mendes Marques, pesquisadora da Universidade Federal do Paraná.

Segundo a professora Mercedes, o grupo dialoga também com as Comissões de Meio Ambiente do Senado e da Câmara Federal e participa de  audiências públicas. De lá,  saiu outra manifestação contra a Medida Provisória 867/2018 sobre mudanças climáticas e do código florestal  do poder Executivo, que dispõe sobre a extensão do prazo de adesão ao Programa de Regulamentação Ambiental (PRA).

Para Alexander Turra, do Instituto Oceanográfico, as posições do grupo têm sido respeitadas porque, embora defendam argumentos contrários aos apresentados pelo governo, as manifestações do Coalização Ciência e Sociedade “são isentas, equilibradas e sem influência político-partidária”. Ele acredita que o grupo tenha potencial de gerar mudanças sociais.

Desmatamento e ataques ao Inpe

Pelo monitoramento das mídias, um dos assuntos que foram altamente debatidos foi o desmatamento da Amazônia. Em entrevista à BBC News, em 3 de julho deste ano, o general Augusto Heleno Ribeiro Pereira, do Gabinete de Segurança Institucional, questionou dados sobre o desmatamento da Amazônia dizendo que as informações existentes eram manipuladas. Contestando a declaração do general, o Coalização Ciência e Sociedade escreveu uma declaração sob o título O governo e o desmatamento: a negação como mecanismo de defesa, publicada no site da Academia Brasileira de Ciências (ABC). No texto, o grupo diz que a psicanálise define a negação como um mecanismo de defesa que se manifesta pela recusa em reconhecer que um evento tenha ocorrido. Refuta o descrédito do governo em relação à comunidade científica brasileira e destaca trabalhos desenvolvidos nesta área, produzidos por institutos de pesquisa e universidades públicas. Finaliza dizendo que o mundo todo é capaz, por meio de uma constelação ampla de satélites com alta resolução e frequência de imageamento, de avaliar o desmatamento da Amazônia e dos demais biomas brasileiros. Por fim, afirma não entender como dirigentes negam dados reais e fundamentados cientificamente.

Poucos dias após a publicação da declaração o tema voltou à mídia, com o ataque ao Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), seu trabalho e direção, feito em entrevista do presidente da República Jair Messias Bolsonaro à imprensa internacional . O ataque foi respondido por diversos membros da comunidade científica, e o Conselho da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) deliberou por unanimidade manifestar seu apoio integral ao Inpe e seu diretor, Ricardo Galvão, face às críticas.

Também a ABC novamente se manifestou “em defesa da excelência do trabalho científico e tecnológico realizado pelo Inpe”. Em nota, o presidente da ABC e membro da Academia Mundial de Ciências Luiz Davidovich afirma que o Inpe “é orgulho do País, realiza trabalho de excelência e os ataques a sua credibilidade científica atacam também toda a comunidade de pesquisadores do Brasil e a soberania nacional”.

Segundo o Inpe, que observa e monitora por meio de imagens a derrubada da floresta, o desmatamento na Amazônia cresceu, em junho deste ano, quase 60% em relação ao mesmo mês de 2018. Saiu de 488,4 quilômetros quadrados (km²) para 762,3 km² de mata nativa.

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