"Relato dos quatro dias em que vivi na rua"

Paulistano conta sua experiência pessoal em retiro de rua budista – praticado há mais de 20 anos no mundo -, ao passar quatro dias dormindo em papelões e à procura de comida, apenas com a roupa no corpo, praticando meditação e misturando-se a outros que vivem assim o tempo todo

Por Arthur Cursino, no Coletivo Verde

Paulistano conta sua experiência pessoal em retiro de rua budista – praticado há mais de 20 anos no mundo -, dormindo em papelões e à procura de comida, apenas com a roupa no corpo, praticando meditação e misturando-se a outros que vivem na rua o tempo todo

Por Arthur Cursino, no Coletivo Verde

Cheguei. Estou aqui em plena Praça da Sé no centro de São Paulo com a missão de passar os próximos quatro dias e três noites morando e vivendo na rua.

Não estou sozinho, somos nove pessoas no total, participando do primeiro retiro de rua da América Latina. Essa atividade chamada de retiro de rua é praticada há mais de 20 anos pela comunidade Zen Budista de Nova Iorque e agora, pela primeira vez, estava sendo realizada no Brasil.

Moradores de rua na praça da Sé

Ao nosso dispor a roupa do corpo, um documento com foto e a disposição de pedir tudo que for necessário para as pessoas na rua.

Onde vou dormir? O que vou comer? Não sei. Cada coisa será descoberta em seu tempo e sua necessidade.

O retiro foi realizado no segundo semestre do ano passado. Em quatro dias aconteceram muitas coisas, que não poderão ser contadas em apenas um relato. Vou contando a história aos poucos, abrindo espaço para perguntas que forem surgindo nos comentários.

 

O melhor e o pior de morar na rua

sopao sp

O pior: o sentimento de desaparecer; de uma hora para a outra estar completamente à margem da sociedade, simplesmente por não mais atender aos padrões estabelecidos.

O melhor: ouvir e compartilhar das histórias e do carinho de muitos moradores de rua; perceber que eles são seres humanos como eu, com suas fraquezas e coragens.

Sem dúvida uma das experiências mais intensas da minha vida, mas vamos com calma, onde estava mesmo? Ah sim, Praça da Sé!

 

Seu Bezerra e as preocupações da vida

Sentados na escadaria da igreja, esperando por outros participantes do retiro que ainda não tinham chegado, somos recepcionados por um morador de rua, Seu Bezerra. Magrelo, sem dois dentes e com aparência bem acabada, não só pela rua, mas pelo álcool, que segundo ele, foi o que o levou para essa situação.

Seu Bezerra nos apresentou seu filho da rua (um rapaz de uns 20 anos que morava no centro também e foi adotado por ele). Em algum momento da conversa, não me recordo bem porque, alguém comentou sobre as preocupações da vida e um rapaz do nosso grupo fez graça dizendo que estava literalmente ficando careca de tanta preocupação. Seu Bezerra levantou a camisa, mostrou três cicatrizes: duas de bala e uma de faca e disse:

– Você tá preocupado com cabelo?

Foi nesse momento que eu senti na pele: isso aqui é de verdade

 

Em busca de alimento

Depois dessa recepção fomos caminhar pelo centro, precisávamos encontrar um lugar para meditar e conversar sobre os primeiros passos. Meditamos na Praça do Patriarca, enquanto várias pessoas tiravam fotos com suas câmeras e celulares quando passavam por nós. Depois discutimos onde poderíamos comer; um membro do grupo disse que um morador comentou sobre um sopão distribuído no bairro da Liberdade, ali próximo. Sem outra opção levantamos e fomos em busca do sopão.

sopão sp

Em cima do viaduto deviam ter umas 100 a 150 pessoas, todas esperando pela Kombi do sopão. Pegamos nosso lugar na fila e enquanto esperávamos ansiosamente pela comida, ouvimos um morador comentar alto: “tomara que hoje eles venham, ontem não vieram”. E se não vierem? Vamos reclamar com quem? Pensei eu. Vamos passar fome, cheguei à conclusão.

Por sorte o sopão chegou e estava uma delícia. Com a barriga cheia partimos para a próxima missão que era encontrar um local relativamente seguro para dormir. Depois de uma maratona pelo centro, finalmente chegamos ao Largo São Francisco, onde muitos moradores se ajeitavam para dormir.

sopão sp

Estendi no chão o papelão cuidadosamente coletado no lixo algumas horas antes e me deitei. Olhei para o lado e cruzei olhar com um amigo, que comentou: “chegou a hora”, dei risada, era exatamente isso que eu estava pensando. Dormir na rua deve ser muito difícil.

 

“Eu não durmo, não durmo nunca!”

Foi o que o menino-adulto de 16 anos me disse quando perguntou se o que a gente fazia na rua era meditação. Respondi que sim e ele disse que também fazia meditação do jeito dele e que, por isso, ele nunca dormia.

Estendemo-nos na conversa, seu nome era Rafael e ele tinha fugido de casa aos 9 anos, porque apanhava muito do pai. Contou que era esperto e que ao invés de viver de furtar os estudantes da Faculdade São Francisco, como outros garotos da idade dele faziam, trabalhava passando drogas na Cracolândia. Disse ainda que tinha um caderno de poemas e músicas e cantou um trecho de um rap seu sobre sua mãe, não me lembro da letra, mas lembro que os olhos encheram de lágrimas.

Rafael nos encontrou no final do segundo dia do retiro. Antes disso, no entanto, fiquei de contar como foi nossa primeira noite de sono.

 

A primeira noite na rua a gente nunca esquece

Apesar de ser novembro e fazer calor durante o dia, a brisa da madrugada incomodou bastante e, apesar de estar com uma blusa de gorro, passei muito frio. Não muito longe de nós, ouvimos gritos durante toda a noite de um grupo de adolescentes que se drogava. Não bastasse isso ainda fomos visitamos por duas ratazanas que resolveram brigar próximo do nosso grupo e quase caíram em cima de um colega.

morador de rua

Na manhã seguinte comentei com o pessoal que não consegui dormir de verdade, foram uma sequência de cochilos e a impressão que tive é que fiquei a madrugada inteira virando no papelão de um lado para o outro. Meus amigos disseram que sentiram o mesmo; acho que ninguém dorme de verdade na rua.

 

Todos os dias às 6 horas da manhã a cidade acorda

Os trabalhadores começam a chegar, o movimento dos ônibus e carros aumenta, os comércios abrem e os moradores de rua acordam. Ao nosso lado um morador escovou os dentes na calçada, penteou o cabelo, colocou suas coisas na mochila e partiu para mais um dia. Tentei rememorar quantas vezes cruzei na rua com pessoas como ele e nunca imaginei que muitos podem ter passado a noite no sereno.

Ainda cambaleando de sono fomos atrás do café da manhã. Descobrimos rapidamente que o café da manhã é uma refeição de luxo na rua. Não existe distribuição de comida ou sopa, como no almoço ou no jantar. Em nossa caminhada um morador nos disse que o McDonald’s do centro oferece café de graça aos moradores. Achamos bastante estranho, mas mesmo incrédulos fomos até o Mc para ter a agradável surpresa de que o morador dizia a verdade. Quem diria que iria tomar um cappuccino logo cedo? Coisas da rua.

Depois do café fomos à estação de metro da Sé para usar o banheiro e depois nos reunimos no Pátio do Colégio para meditar e discutir sobre como seria o dia. Ficamos sabendo de uma instituição que oferece almoço no Belenzinho, o local devia estar a uns 7 km da onde estávamos então foi um dia de bastante caminhada.

Lembro-me de uma cena que marcou muito no caminho de ida. Eu tinha uma garrafa de água descartável que peguei no lixo, e no dia anterior tinha pedido para um rapaz que lavava a calçada com uma mangueira encher. Dessa vez não encontrei ninguém com uma mangueira, então entrei em um bar e pedi para o balconista encher na torneira.

O monge que coordenava o retiro comentou que quando pedíamos algo, tínhamos de ter algo onde receber as doações, como um chapéu ou boné, porque as pessoas não gostam de encostar em moradores de rua. Eu estendi a garrafa ao rapaz do balcão, ele não olhou para mim, não falou comigo, apenas pegou a garrafa encheu e quando foi me devolver, estendi a mão para pegar no ar, mas pouco antes de alcançar a garrafa ele desviou e a colocou no balcão. Foi bem nítido: ele não quis correr o risco de encostar em mim; naquele momento senti profundamente que com pouco mais de 24 horas na rua a sociedade já tinha me excluído.

Chegamos ao local do almoço, era um galpão grande embaixo de um viaduto, nos espalhamos para poder ter mais contato com os moradores. Sentei em uma mesa ao fundo e estava tão cansado que enquanto aguardava a distribuição da comida me deitei sobre a mesa para descansar um pouco. Nessa hora senti que estava com o mesmo cheiro dos moradores de rua, um cheiro de sujeira misturado com suor, que nada mais é do que nosso próprio cheiro, sem perfumes e fragrâncias para esconder.

O almoço estava uma delícia, arroz, feijão, salada e peixe. Comemos, conversamos, sorrimos. Alguns se deitaram para dormir, enquanto eu e mais alguns colegas pegamos vassouras e panos para ajudar a limpar o local. A faxina comunitária é uma prática importante no Budismo e me senti praticando profundamente enquanto empurrava as sobras de cima das mesas para dentro do lixo.

Essa instituição também oferecia chuveiros para banho. Aproveitei para me lavar, sem sabonete, shampoo, condicionador, toalha, chinelo ou muda de roupa. Apenas meu corpo e a água fria; que delícia.

 

Novamente na Praça da Sé

Partimos. Na volta em pleno Brás alguém comentou que podíamos tentar esmolar alguns farrapos nas lojas de tecidos para nos cobrirmos a noite. Passei em frente a uma loja, vi um rapaz novo que me olhou e rapidamente entrou me ignorando. Abordei uma atendente e perguntei se ela tinha algumas sobras de pano para doar, ela disse para conversar com o gerente e apontou para o rapaz que me ignorou na porta. Fui até ele sem esperanças, expliquei nosso retiro e pedi alguns farrapos. Ele me pediu para esperar um pouco e em seguida voltou com 12 lençóis novos para usarmos. Nunca imaginei que ele me daria algo, que dura lição sobre o pré-julgamento. Coisas da rua!

Chegamos finalmente na Praça da Sé e encontramos um espaço chamado de Tenda, onde os moradores de rua podem usufruir de banheiro, chuveiro e uma televisão. Passamos agradáveis momentos na Tenda e partimos para buscar o jantar. Dessa vez esperamos no Largo São Francisco, onde mais uma vez uma longa linha de moradores se formava esperando pela distribuição. Foi ali que o Rafael nos encontrou.

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Jantamos e nos recolhemos para dormir no Pátio do Colégio; Rafael nos acompanhou o tempo todo e permaneceu ao nosso lado durante a noite, guardando nosso sono. Ele realmente não dormiu. Poderia dizer que ele fez isso apenas para provar que não estava mentindo, mas estaria pré-julgando novamente. O que importa mesmo é que aquele menino de 16 anos, que eu provavelmente mudaria de calçada se visse caminhando na minha direção em outro momento, mostrava ter uma riqueza que poucos encontram: um coração puro.

Rafael só queria conversar com alguém que o entendesse. E quem não quer?

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5 comentários para ""Relato dos quatro dias em que vivi na rua""

  1. É uma experiência e tanto, mas é diferente se vc. escolhe esse tipo de vida. Bom seria se todos tivessem suas cassa e emprgos, sem precisar esmolar nas ruas.

  2. Valter Menezes disse:

    Parabéns por essa triste e real experiência. Nesse mundo de nosso Deus, existem muitas pessoas ruins, mas muito mais pessoas boas.
    Por certo, muito desses últimos você conviveu nesses dias. Parabéns pela coragem e que Deus ajude os que ajudam os outros todos os dias.

  3. Paulo Cezar de Mello disse:

    Há uma grande, imensa diferença entre escolher viver na rua por um período, voltando para casa depois, e viver na rua por absoluta falta de alternativas (econômicas, sociais, existenciais). O primeiro é um caso de imitação, pode trazer aprendizado puramente pessoal e pouca coisa além disso. Buda ensinou que todos os fenômenos da vida são resultado da combinação momentânea de causas e fatores, e que eliminando ou modificando essas causas e fatores você modifica a vida. Não seria muito mais consequente conhecer as causas e fatores da miséria e contribuir para mudá-los do que brincar por alguns dias de mendigo? Quem faz isso não estará simplesmente reforçando a ideia de que certas coisas são como são e é melhor não mudá-las, apenas sentir de vez em quando uma compaixão vazia?

  4. Imagine se não existissem essas pessoas que levam comida e se não existissem essas sociedades beneficentes onde os mendigos tomam banho…. venha a nós o vosso Reino, porque ele ainda não chegou aqui e parece que vai demorar…….

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