Mais qualificação, mesma desigualdade

Estudo mostra mudanças no mercado de trabalho, entre 2011 e 2012. Trabalhadores estudaram mais, mas distância entre ricos e pobres caiu pouco

Na Rede Brasil Atual

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Estudo mostra mudanças no mercado de trabalho, entre 2011 e 2012. Trabalhadores estudaram mais, mas distância entre ricos e pobres caiu pouco

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Estudo divulgado ontem (7) pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) questiona o senso comum de análises sobre o mercado de trabalho ao afirmar que existem “evidências contrárias à noção de que haveria uma escassez de mão de obra qualificada no país”. Também relativiza afirmações sobre uma chamada desindustrialização, ao apontar crescimento do emprego formal no setor. Com base em dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad, do IBGE), o Ipea afirma que o mercado melhorou significativamente nos 20 últimos anos. De 2011 para 2012, o cenário “mostrou boas e más notícias”: a renda e o desemprego caíram, mas o ritmo de redução da desigualdade diminuiu.

“As evidências mostram que a oferta de mão de obra qualificada tem aumentado de forma substancial e contínua nos últimos 15 anos, o que é coerente com a redução observada nos retornos da escolaridade no mercado de trabalho brasileiro”, diz o instituto. “Ao longo dos anos 2000, especialmente a partir da segunda metade da década, as ofertas relativas de trabalhadores com pelo menos ensino superior completo e com algum superior apresentam uma aceleração em seu crescimento”, acrescenta o Ipea. Já a expansão do grupo com ensino médio completo “se inicia mais claramente no final dos anos 1990”. O instituto observa que o uso da escolaridade como critério é uma “medida imperfeita” para a qualificação e identifica também “retornos decrescentes”, em relação a ganhos salariais, dos trabalhadores de maior qualificação em relação aos menos qualificados.

O Ipea observa ainda que a oferta de trabalho qualificado, tanto relativa como absoluta, vem aumentando de forma quase contínua, particularmente na última década. O preço relativo da mão de obra também vem caindo. “Mais ainda, os desempregados hoje são em sua maioria qualificados e não o contrário”, diz o instituto, para o qual as evidências sugerem que, se há escassez, é de mão de obra não qualificada. “Cabe notar, no entanto, que essa análise não elimina a possibilidade que setores específicos podem ter experimentado uma escassez de profissionais qualificados e especializados. Porém, este não é o cenário para o mercado de trabalho como um todo. Não obstante, o nível de qualificação da força de trabalho no Brasil segue baixo e com baixa produtividade, o que deixa aberta uma ampla avenida para ganhos futuros.”

O estudo demonstra também que a participação de qualificado no estoque de desempregados “vem aumentando continuamente ao longo dos últimos 20 anos”, enquanto a dos menos qualificados vem caindo. “Assim, o contingente daqueles dispostos a trabalhar, mas que por algum motivo não conseguiram um posto de trabalho, está concentrado em trabalhadores de maior qualificação e não o contrário.” A renda média em 20 anos aumentou 71,62% para quem tinha até três anos de escolaridade e recuou 4,84% para aqueles com 11 anos ou mais.

Sobre a indústria, o Ipea nota que comércio e serviços aumentaram “ligeiramente” sua participação no emprego total de 1992 a 2012, enquanto a indústria acumulou queda de seis pontos, de 27% para 21%, mas de forma não uniforme: caiu quatro pontos de 1992 e 1998, ficou estável durante dez anos e voltou a ter queda acentuada de 2009 a 2011, com “leve reversão” no ano passado. Mas o instituto acrescenta que países com economia mais desenvolvida, como as dos Estados Unidos e da Alemanha, tiveram retrações ainda maiores. “De fato, a tendência de redução da importância da indústria no emprego total – e crescimento do setor serviços – tem sido observada na maioria dos países.”

Mas, ao se separar dados de emprego industrial entre trabalhadores com e sem carteira assinada, o instituto detecta crescimento ininterrupto e acelerado desde 1998. “Portanto, a queda no emprego industrial total observada entre 2008 e 2011 – e a consequente redução em sua participação no emprego agregado – se deveu exclusivamente a uma acentuada queda no emprego informal, iniciada em 2007. Da mesma forma, a leve alta entre 2011 e 2012 parece ter sido induzida pela mudança de comportamento no emprego informal”, constata o Ipea.

De 2011 para 2012, a renda do trabalho cresceu 6,3% em termos reais, com destaque para a região Nordeste (8,7%). A taxa de desemprego, após alta significativa em 2009, voltou a uma trajetória de queda, atingindo 6,7% no ano passado, no menor nível histórico – 5,1% para homens e 8,9% para mulheres. Mas Norte e Nordeste apresentaram menor redução, com taxas totais de 8% e 8,8%, respectivamente.

O Ipea considera “notícias potencialmente preocupantes” as relativas à taxa de participação (relação entre população em idade ativa e economicamente ativa), estável em 2012, após quedas expressivas em 2009 e 2011, além da redução do ritmo da desigualdade entre rendimentos. “Esta queda (da taxa em 2009 e 2011) é surpreendente, tendo em vista o cenário de aparente reaquecimento do mercado de trabalho e contínuo aumento dos rendimentos do trabalho.”

De 1992 a 2012, o rendimento real médio cresceu 60,77%, atingindo R$ 1.432,60, em valores de setembro. Subiu 54,64% para homens e 90,17% para mulheres, 58,39% para brancos e 89,10% para negros, 13,13% para trabalhadores com carteira e 100,19% para sem carteira.

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2 comentários para "Mais qualificação, mesma desigualdade"

  1. Nesta notícia é um horror. Mas sabemos que a miséria e pobreza no Brasil é estrutural e histórica. Não se supera a desigualdade social e a miséria com medidas emergenciais e assistencialistas. Muitas reformas precisam ser feitas, os impostos devem ser progressivos, a reforma agrária e agrícola, pelo menos no semiárido brasileiro com Projetos para os trabalhadores conviverem com a região. A Auditoria Cidadã da Dívida Pública, o pagamento dos juros consome cerca da metade do Orçamento Geral da União, reforma política séria etc. O PRONAF precisa avançar. As escolas boas e o SUS excelente para atender melhor a classe obreira.Saudações,
    Felipe Luiz Gomes e Silva.

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