Por que a Aldeia Maracanã resiste

Acendeu-se fogueira da ação. Vieram negros, mulheres, militantes, hackers. Ninguém aceita substituir prédio histórico e polo político-cultural por vazio cinzento

Por Bruno Cava, no Quadrado dos loucos

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Acendeu-se a fogueira da mobilização. Apareceram negros, mulheres, militantes, hackers. Ninguém aceita substituir prédio histórico e polo político-cultural por vazio cinzento

Por Bruno Cava, no Quadrado dos loucos

O prédio do Museu do Índio (1865) é 83 anos mais antigo que o Maracanã (1948). Tem mais do que o dobro da idade do estádio. Isto significa que, quando o Maracanã foi construído, o prédio do Museu, que à época abrigava o Serviço de Proteção ao Índio, existia há mais tempo do que a idade atual do estádio (65 anos). Ali trabalharam pesquisadores, antropólogos e brasilianistas de destaque, como o sonhador Darcy Ribeiro, que sonhava com a primeira Universidade Indígena. Isso por si só, em qualquer governo inteligente do mundo, já bastaria para por um ponto final em décadas de descaso e fazer do lugar uma referência vital da história da cidade e do país. Fala-se tanto em sustentabilidade: como não ver o potencial educativo, cultural, antropológico, e até turístico?

A dignidade da questão é maior. Desde 2006, indígenas preencheram de história viva um marco do passado brasileiro. Os índios ocuparam um espaço que ninguém queria e erigiram suas casas nos arredores, transformando a paisagem. Expressão do movimento indigenista, afirmaram um direito num sistema político que ou os nivela a crianças, ou a aproveitadores; em qualquer caso incapazes de direito e despidos de legitimidade para criar sua própria história. A aldeia Maracanã se torna assim um laboratório de política no coração do Rio. Um indígena cotista da UERJ bate na mesa e declara que está assimilando a cultura branca e não o inverso.

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Os governos só “lembraram” do Museu e dos índios para demolir o primeiro e remover os últimos. Outro pedaço do Rio de Janeiro, passado e presente, é vendido ao aglomerado de interesses imobiliários, financeiros, midiático-jornalísticos e empresariais da construção civil, que mandam na cidade. A justificativa do progresso opõe o futuro ao passado, o moderno ao atraso, o brilho ebúrneo da razão planejadora à escuridão do caos, da pobreza e das “raças inferiores”. Estas todavia falam do subsolo da história, seu rumor convoca outros espectros que rondam as Américas.

Hoje, a dignidade da questão é imensa. Os grupos indígenas na Aldeia Maracanã se multiplicaram e se organizaram. Acendeu-se a fogueira da resistência. Um acampamento fincou raízes pelo assoalho do Museu, produzindo seu discurso, mídia e cultura de resistência. Apareceu o negro, a mulher, o militante, o hacker. Os mundos se misturaram e se transformaram, transformando a própria imagem do que é fazer ocupação e movimento. Coletivos e movimentos sociais, ativistas e representantes, mídias livres e blogues independentes, estudantes, advogados e punks se juntaram para defender a memória vida desta cidade linda e insubmissa. Todos eles determinados a resistir à indesejada “lembrança” pelo poder público, cujo norte maior tem sido o mercado e suas “novas oportunidades”. Não só a resistir, mas a constituir seu espaço e seu tempo. Mais um Pinheirinho, dos mil que as “raças inferiores” continuam proliferando pelos Brasis, num contexto de higienização urbana e desenvolvimentismo.

A ameaça de uma invasão policial ordenada pelo governador paira sobre as atividades na Aldeia, enquanto a Justiça brasileira parece irremediavelmente presa ao formalismo que ampara os poderosos. Contudo, neste caso, nem mesmo as razões formais justificam a remoção e demolição. A FIFA não exige a retomada. O órgão federal de preservação (Iphan) é de parecer contrário. O órgão estadual (InePac), por sua vez, pediu o tombamento do prédio. Juízes já concederam decisões favoráveis pela permanência do Museu, embora rapidamente cassadas pelas instâncias superiores, mais próximas da esfera de barganha dos governos. Mandatários como Renato Cinco e Remoint Otoni, entre outros, — assim como o candidato a prefeito derrotado com 27% dos votos Marcelo Freixo, — trabalham por dentro do sistema representativo atrás de soluções pacíficas para o problema.

Um defensor público, exasperado, perguntou: “Por que vai demolir o prédio então?!” Segundo o próprio governo e o projeto de engenharia, aquela área não é essencial para qualquer estrutura ou instalação do novo estádio do Maracanã, e não impacta significativamente o calendário das obras para a Copa. Ela serviria, simplesmente, de “área de circulação”, para a movimentação dos visitantes. Noutras palavras, pretende-se substituir um prédio histórico, uma aldeia indígena e um nascente polo cultural e político da cidade viva por, nada mais nada menos, que um plano horizontal concretado, vazio, cinzento. Eis a razão de estado: mortiça e desmemoriada.

Como diria o velho mestre Darcy, nunca foi tão detestável estar do lado de quem está “vencendo”.

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Informações atualizadas em tempo real, no ótimo Vírus Planetário

Canal “oficial” da Aldeia, no facebook.

Reportagem “legível” e boa no JB: O que move Sérgio Cabral contra os índios

Outro bom texto, do blogueiro Pádua Fernandes, no Palco e o Mundo.

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5 comentários para "Por que a Aldeia Maracanã resiste"

  1. Cláudio Egidio Hudolph disse:

    Correção: A edificação é datada de 1852! O Prédio do Antigo Museu do índio foi a Casa do Príncipe, Duque de Saxe (genro de D. Pedro II) e de sua esposa Maria Leopoldina, que doaram a construção e o terreno à União para estudos de sementes em 1865 (Conforme documento/ Registro de Imóvel que possuo cópia).

  2. Tudo bem, o Museu Indígena é mais ou tão antigo quanto o campo do Maracanã. Acontece que as circunstancias atuais são outras. POrque com o crescimento do "Templo do Futebol brasileiro" o Museu não foi remanejado para um outro lugar mais apropriado? A importância do Museu não iria perder nada com seu prédio, maior até, em outro lugar. É lamentável o descaso das autoridades, que agora no afogadilho the Copa do Mundo em 2014, queira tirar uma instituição do povo nativo do Brasil, sem maiores considerações. Típico das autoridades brasileiras…lembro do Governador chorando frente as câmeras anti a possibilidade de ter de repartir parte dos royalties the Bacia de Campos…estava aos prantos? kkkkk….

  3. emanoel disse:

    Coitadinho do governador, tão com pena, votem nele ou nos seus correligionários, se o governador chora, é pela iminência de perder a fonte de custeio das obras faraônicas e superfaturadas, nada é pelo povo, e sim para o estado brasileiro amigo dos amigos e autoridades apenas.

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