A política por trás do tsunami monetário

Ao entregar uma enxurrada de euros aos bancos, enquanto nega recursos aos Estados, União Europeia promove brutal concentração de riqueza, que pode ter efeitos internacionais

Por J. Carlos de Assis (*), em  Carta Maior

A investida da presidenta Dilma contra o tsunami monetário promovido pelo Fed e pelo BCE foi um golpe de mestre para justificar a intervenção brasileira no mercado de câmbio através da elevação do Imposto sobre Operações Financeiras (6%). A presidenta também advertiu a Europa para a necessidade de políticas desenvolvimentistas, o que é uma boa indicação de que, aqui, vamos controlar os fluxos de capitais e abandonar o ensaio fiscal tosco que nos jogou na quase recessão de 2,7% de aumento do PIB no ano passado.

Faltou dizer uma coisa de que poucos se dão conta: por trás do tsunami monetário existe uma opção de distribuição de renda a favor dos ricos. Ao contrário dos gastos fiscais, que usam empréstimos do setor privado e receita de senhoriagem para financiar o gasto público de infraestrutura e a favor dos menos afortunados, a política de expansão monetária em sua forma atual beneficia exclusivamente ricos, pois só ricos, via bancos, podem tomar dinheiro na caixa do do Fed e do BCE a custo quase nulo e aplicar a taxas maiores.

As políticas de austeridade, nesse contexto, não passam de um truque semântico da tecnocracia para iludir a opinião pública e o meio político. Afinal, como classificar de austeridade a concessão pelo BCE e o Fed de empréstimos aos bancos privados à taxa de 1% ou 0,25%, quando nada se fez para impedir que esses mesmos bancos continuem se lançando ao mesmo tipo de aventuras especulativas fraudulentas que levaram à bancarrota de 2008? E o lado mais espantoso dessa história é que não estamos diante de uma questão moral, mas de eficácia.

Desde a Grande Depressão nos anos 30, sabe-se que política monetária pode travar a economia, mas não tem como estimulá-la. Ou seja, mesmo que a liquidez bancária esteja elevada, os empresários não tomam empréstimos para investir porque não têm confiança na demanda. Em consequência, o dinheiro “empoça”. A metáfora histórica que descreveu o processo aponta a política monetária como um barbante amarrado numa pedra: ele puxa a pedra, mas não consegue empurrá-la.

Por que, então, a Europa, liderada pela Alemanha, dá preferência a política monetária em vez de política fiscal para supostamente reanimar a economia? A resposta já está indicada acima: a política monetária expansionista é sobretudo a favor dos ricos, enquanto a política fiscal tende a beneficiar os pobres através de políticas públicas, assim como o conjunto da sociedade, e não especificamente os ricos, quando se trata de investimentos de infraestrutura. É claro que o protocolo impedia Dilma de dizer isso a Merkel. Mas ela bem que merecia ouvir.

Vejamos um pouco mais. O BCE a contragosto comprou no mercado secundário títulos dos governos italiano e espanhol, assim como da Grécia: supostamente, seria um benefício indireto aos países. Falso. O alívio funcionou para os detentores originais dos títulos que os havia comprado dos governos no passado. Em nenhum hipótese o BCE assegurou liquidez aos governos, mediante compra direta de seus títulos, mesmo porque isso está proibido pelo estúpido Tratado de Maastricht e pelo Paco de Estabilidade e Crescimento que implementou o euro.

É fato que a compra pelo BCE de títulos dos governos europeus no mercado secundário poderia abrir espaço para os governos colocarem novos títulos, conseguindo assim dinheiro novo para financiar suas políticas públicas e até a retomada do crescimento. Isso, contudo, não acontece, nem pode acontecer: os governos estão atrelados a políticas fiscais ditadas pela troika (BCE, FMI, Comissão Européia) que impede qualquer veleidade de política voltada para o financiamento do investimento público novo.

A Europa está assim no pior dos mundos para a população geral, e o melhor dos mundos para os ricos: de um lado, o BCE bombeia dinheiro para os bancos; de outro, falta dinheiro para os governos financiarem as políticas públicas; de outra parte, o setor produtivo privado, temeroso de investir, “empoça” o dinheiro abundante ou se volta para a especulação. De fato, as corporações globais americanas têm em caixa quase 2 trilhões de dólares líquidos para investir, mas não investem. É que, sem aumento do gasto fiscal, não haverá demanda para sustentar o crescimento dos países industrializados, a despeito de sua elevada liquidez.

Há uma situação em que o tsunami monetário pode se voltar contra os ricos: na medida em que gera inflação, diluirá o valor real dos títulos de riqueza líquida não indexados. No curto prazo, porém, essa hipótese é improvável. Com os países industrializados em recessão e uma imensa capacidade ociosa nas economias, e com a menor pressão da economia chinesa (7%) sobre matérias primas, não há espaço para inflação de origem monetária. No médio prazo, quando surgirem sinais de recessão, o Fed e o BCE apertarão mais uma vez a política monetária, gerando recessão e desemprego, e mais uma vez os ricos estarão a salvo.

(*) Economista, professor da UEPB, autor com Francisco Antônio Doria do recém-lançado “O universo neoliberal em desencanto”, editado pela Civilização Brasileira.

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