Os muros da pólis caíram?

Ocidente forçou separação entre ser humano e natureza. Mas, cada vez mais, o clima, os vírus, algoritmos e sensores parecem tirar protagonismo de nossa espécie. Como pensar um conceito mais amplo de cidadania, além da humana, para coabitar o mundo?

Massimo Di Felice, em entrevista ao IHU Online

A pandemia, as mudanças climáticas e as inovações das tecnologias digitais são as expressões e as evidências de um protagonismo dos não humanos, perante o qual somos chamados a redefinir o que entendemos por sociedade. A ideia produzida pela cultura e pelo pensamento ocidental que reduz a cidadania e a noção de comunidade apenas aos atores humanos está obsoleta. A pandemia nos mostrou como serão a governança e a construção dos processos decisórios daqui para a frente. Não serão mais apenas os parlamentos e os humanos a tomarem as decisões por meio do debate de suas ideias. Cada vez mais, o clima, os vírus, os Big Data, algoritmos e sensores nos guiarão para onde não queremos ir, tornando-nos potencialmente, enquanto espécie, menos protagonistas e mais inteligentes. As últimas gerações de redes, a internet das coisas, a difusão de sensores e o processo de datification estão nos conectando à inteira biosfera. Estamos, assim, aprendendo a adquirir a consciência dos limites da nossa inteligência. Daqui para a frente, teremos que aprender a coabitar e a tomar decisões em diálogo com os não humanos, com os dados, com as florestas, com os vírus e com as demais formas de inteligência. Os muros da pólis caíram. Bem-vindos à cidadania digital!

A seguir, o Instituto Humanitas Unisinos – IHU publica a entrevista com Massimo Di Felice, concedida à Profa. Dra. Eliane Schlemmer, do Grupo de Pesquisa em Educação Digital – GPe-dU Unisinos, na qual o sociólogo comenta alguns aspectos do seu livro “Cidadania digital, a crise da ideia ocidental de democracia e a participação nas redes digitais”, publicado em português no ano passado, pela editora Paulus. “A minha ideia de cidadania digital parte do pressuposto de que hoje é impossível continuar a pensar a nossa condição, como espécie e como cidadãos, a partir desse paradigma antropocêntrico”, afirma.

Massimo Di Felice (Foto: Reprodução Youtube)

Massimo Di Felice possui graduação em Sociologia pela Università degli Studi La Sapienza, doutorado em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo – USP e pós-doutorado em Sociologia pela Universidade Paris Descartes V, Sorbonne. É professor da USP e professor visitante na Università Roma III (Itália), na Université Paul-Valéry Montpellier III (França) e na Universidade Lusófona (Portugal). É autor de Net-Ativismo. Da ação social para o ato conectivo (São Paulo: Paulus, 2017). Ainda destacamos Redes digitais e sustentabilidade – as interações com o meio ambiente na era da informação (São Paulo: Annablume, 2012), Paesaggi Post-urbani: la fine dell`esperienza urbana e le forma comunicative dell´abitare (Milão: Bevivino, 2010), Paisagens pós-urbanas: o fim da experiência urbana e as formas comunicativas do habitar (São Paulo: Annablume, 2009) e Do público para as redes (São Caetano do Sul: Difusão, 2008).

Confira a entrevista

O título do seu último livro é “Cidadania digital, a crise da ideia ocidental de democracia e a participação nas redes digitais”, já publicado na Itália e lançado no Brasil pela editora Paulus. O que você entende por cidadania digital?

Geralmente, com este termo, indicam-se os estudos sobre temáticas como as novas formas de regulamentação das interações nas redes digitais, como a defesa da privacidade e a comercialização dos dados e, ao mesmo tempo, as práticas das formas de e-governança, ou seja, a utilização de tecnologias digitais e da informática para melhorar as relações entre as instituições e os cidadãos. De maneira geral, portanto, o termo cidadania digital remete a questões de natureza jurídica e governamental. Não é esta a abordagem do meu livro. Do meu ponto de vista, a expressão cidadania digital tem a ver com um nível mais profundo, que remete à transformação da morfologia e da mesma ideia de sociedade, assim como elaborada na tradição do pensamento ocidental.

Desde a pólis grega, por sociedade entendemos o conjunto de pessoas (do latim socius), isto é, o conjunto de sujeitos reunidos que, por meio de suas relações políticas, baseadas nos conflitos de seus interesses e de suas opiniões, deliberam sobre os seus destinos. A redução do social apenas aos humanos é um marco e uma prerrogativa da história e do pensamento ocidental. Esse pensamento que atravessa as épocas e que começa com a civilização grega, chegando até o iluminismo e o surgimento das ciências sociais, em plena época industrial, constrói uma ideia de sociedade formada por uma arquitetura antropomórfica e antropocêntrica, que separa os humanos da natureza, da técnica, do meio ambiente, dos vírus e de tudo aquilo que se acreditou ser externo aos muros da pólis. Para o Ocidente, a sociedade é composta apenas por humanos.

 (Foto: Divulgação | Paulus)

Cidadania digital

A minha ideia de cidadania digital parte do pressuposto de que hoje é impossível continuar a pensar a nossa condição, como espécie e como cidadãos, a partir desse paradigma antropocêntrico, e isso se deve, entre outros, a três motivos principais:

a) o primeiro tem a ver com a recente pandemia e com o advento de um novo ator social, extremamente poderoso: o vírus. Uma entidade invisível aos nossos olhares “sociais”, mas capaz de alterar a economia mundial e todos os âmbitos das nossas vidas;

b) o segundo motivo da crise definitiva da ideia antropomórfica do social encontra-se nas mudanças climáticas, isto é, na consciência contemporânea, científica e cultural, derivada das interações com Big Data, que mostra a interdependência entre o nosso modelo de desenvolvimento, o nosso estilo de vida (antropocêntrico) e a qualidade do ar, a temperatura e o nível de equilíbrio geral na biosfera inteira (teoria de gaia);

c) por fim, o terceiro motivo que justifica a necessidade do advento de uma nova ideia de sociedade e de uma nova teoria social é o crescimento exponencial das tecnologias digitais, dos Big Data, dos algoritmos e das últimas gerações de redes que, depois dos humanos (redes sociais), das informações (Big Data) e das coisas (Internet of Thing – IoT), começaram a conectar as biodiversidades (sensores), o meio ambiente (Sistemas Informativos Geográficos – SIG), num processo que promete conectar a biosfera inteira (the internet of everything).

Essas três transformações, a pandemia, as mudanças climáticas e as inovações tecnológicas digitais, constituem as evidências de um protagonismo dos não humanos, que não somente baseia-se na importância desses para a qualidade do nosso convívio, mas também em seu poder de interferir, modificar e influenciar nossas interações, nossas vidas e, sobretudo, nossas arquiteturas deliberativas.

A constatação do poder de comunicação e de interação dos não humanos, poder esse produzido pelo processo de datificação e pela conexão a redes informáticas (IoT, sensores, Big Data etc.), obriga-nos a repensar a morfologia do nosso social e a nossa ideia de sociedade. Em outras palavras, a minha ideia de cidadania digital tem a ver com a necessidade de repensar a morfologia do social e, consequentemente, a ideia ocidental de política, de governança e de democracia. A partir dessa perspectiva, a cidadania digital pretende descrever uma ruptura histórica, que marca a passagem da ideia ocidental de cidadania a uma outra na qual outros cidadãos, além dos humanos, passam a coabitar o mundo e a modificá-lo pelo poder de suas interações.

O tema da comunicação com o meio ambiente e suas transformações a partir do processo de digitalização e a crise da centralidade do humano já está presente em alguns dos seus livros anteriores: “Paisagens pós-urbanas: o fim da experiência urbana e as formas comunicativas do habitar” (2009), “Redes digitais e sustentabilidade” (2012) e “Net-ativisimo, da ação social para o ato conectivo” (2017). Como você vê a evolução das formas comunicativas do habitar a partir do advento das plataformas digitais para gestão de dados ambientais, da difusão da internet das coisas e da datificação?

No livro “Paisagens pós-urbanas: o fim da experiência urbana e as formas comunicativas do habitar”, a partir de uma elaboração da ideia do habitar, de M. Heidegger, desenvolvi a ideia das “formas comunicativas do habitar”, que se baseia na concepção segundo a qual nossa relação com o meio ambiente é “formada” pelas interações com as tecnologias comunicativas atuantes em cada época. O termo forma foi escolhido inspirado na teoria da “forma formante”, elaborada por L. Pareyson e pelos seus discípulos U. Eco e M. Perniola, que traziam a ideia da qualidade ecológica e interativa da forma.

O livro, que foi traduzido e publicado em diversos países e que foi finalista do Prêmio Jabuti, analisa três tipos de habitar: o habitar empático, que se difundiu na época da tipografia e por meio da tecnologia da leitura; o habitar exotópico, gerado pela eletricidade e pela mídia de massa; e o habitar atópico, formado pelo processo de digitalização do meio ambiente. O habitar torna-se, assim, em linha com a ideia de Heidegger, uma forma comunicativa sujeita ao tempo e, portanto, em contínua transformação, e não um conceito abstrato. O habitar, a partir dessa concepção, torna-se o resultado de interações múltiplas entre tecnologia, ambiente, biodiversidades e pessoas, que acontecem em um determinado momento histórico. A evolução das tecnologias digitais nos obriga a aprofundar e acompanhar tais mudanças. O advento da internet das coisas, das plataformas digitais ecológicas e da datificação tem contribuído para a criação de habitat e de ecologias conectadas.

Comecei a trabalhar tais evoluções no livro “Redes digitais e sustentabilidade” (2012) e no livro “Net-ativismo, da ação social para o ato conectivo” (2017). Em particular nesse último, o objetivo foi aprofundar a qualidade da ação nas diversas ecologias de interações: as das esferas públicas tipográficas, as das esferas públicas eletrificadas e aquela das interações digitais. Se antes o objetivo foi analisar as qualidades comunicativas do habitar, aqui o objetivo foi repensar a ideia da ação, em diversos contextos tecnológicos, para além da sua perspectiva subjetiva e social. Num habitar conectado, que produz ecologia sem sujeito nem objetos, a ação não pode ser pensada como o resultado de um agir subjetivo, nem apenas como a consequência de um agir comunicativo. O conceito do net-ativismo descreve esse novo tipo de ação conectiva, que acontece ao mesmo tempo nos territórios físicos, nas ruas, nas praças, nas cidades, mas, contemporaneamente, nas redes informáticas, nas redes sociais, nos dados etc. Uma info-ação, nesse sentido, diferente da ideia do ator-rede e da ação agregativa proposta por B. Latour, pois é expressa por conexões e por formas de processamentos de dados, e não apenas por agregações.

O livro sobre a cidadania digital é a continuação desse percurso, que, depois de ter analisado as dimensões comunicativas do habitar e a qualidade de um novo tipo de ação não subjetiva e desenvolvida em arquiteturas e redes digitais (net-ativismo), focaliza-se sobre a superação da ideia ocidental de sociedade e de comum, a partir das evoluções do poder conectivo das redes, dos processos de plataformização e de datificação.

Qual é a contribuição que a sua ideia de cidadania digital aporta ao debate internacional atual, nas ciências humanas e sociais?

A narrativa de um novo tipo de social estendido aos não humanos encontra-se numa ampla bibliografia, que passa por diversos autores. Sem levar em conta as contribuições das ciências biológicas ao pensamento social, proposta por H. Spencer, G. Tarde ou G. Bateson, uns dos primeiros a repensar a morfologia do social, em época recente foi M. Serres, com a ideia da passagem do contrato social para o contrato natural, isto é, para um tipo de contrato que contemplasse também as biodiversidades e os diversos membros dos ecossistemas. Essa perspectiva influenciou o seu discípulo B. Latour, que, duas décadas depois, propôs a substituição da ideia sociológica do social com a ideia de redes agregativas de actantes, ou seja, de redes não mais formadas apenas por atores humanos, mas por diversas entidades que, por meio de redes agregativas, contribuem para a realização e o desfecho de uma ação, intervindo de várias maneiras.

Social mais complexo

A ideia de um social mais complexo, composto por humanos e não humanos, funda a teoria do ator-rede desenvolvida pelo próprio B. Latour juntamente com J. Law e M. Callon. Na mesma linha, na antropologia encontram-se diversos autores que, a partir dos estudos etnográficos de populações e culturas não ocidentais, passam a incluir os não humanos e a considerá-los como membros dessas comunidades, estendendo a ecologia da sociedade para além dos limites estabelecidos pela arquitetura da pólis e pelo pensamento ocidental. Penso, sobretudo, nas obras de P. Descola sobre a composição dos mundos e a superação da separação entre natureza e cultura, como aquela de Tim Ingold, com a sua ideia das linhas ou, ainda, aqui no Brasil, as contribuições de V. De Castro sobre o perspectivismo ameríndio. Também na filosofia encontramos diversos autores que, inspirados pelos protagonismos dos não humanos, passam a redefinir a ideia do comum. Além de M. Serres, já citado, tem o Mario Perniola, com o seu sex appeal do inorgânico; D. Haraway, com a ideia da simpoiese; Graham Harman, com a ontologia orientada aos objetos; até os hiperobjetos de T. Morton.

Entretanto, é na filosofia da ciência que se produziram reflexões interessantes, pois, nesse âmbito, o protagonismo dos não humanos está diretamente relacionado à ideia de não externalidade dos “instrumentos” de observação e à produção não apenas humana do conhecimento na ciência. Penso, sobretudo, na obra monumental que elabora o conceito de Cosmopolítica, de I. Stengers, ou na pesquisa nos laboratórios científicos realizada por B. Latour e a sua ideia de Ciência em Ação. Todas essas e outras contribuições apresentam um protagonismo dos não humanos baseado em relações exclusivamente físicas e materiais. Em todos os conjuntos dessas diversas obras, expressões do pensamento de grandíssimos autores, o protagonismo dos não humanos e as formas desse novo tipo de social são arquiteturas concretas que compõem uma morfologia de um comum hipercomplexo, mas material, e tudo em presença.

A contribuição que o livro aporta, bem como sua ideia de cidadania digital, especificamente, é a de que esse novo tipo de arquitetura, esse novo tipo de comum que agrega humanos e não humanos, é o resultado de conexões de redes digitais e de dados. Isto é, não somente os algoritmos, os Big Data, são actantes e entidades que intervêm e que contribuem para a realização de uma ação emergente, hipercomplexa e em rede, mas a própria morfologia do comum passa a acontecer a partir de uma interação de dados, de software, de plataformas e de redes digitais. Em outras palavras, a cidadania digital contribui com o debate internacional contemporâneo no âmbito das ciências humanas e sociais, destacando a “natureza” digital (a-natureza) e as especificidades informativas dessas novas ecologias produzidas pelo processo de datificação e, portanto, pelos processamentos de interações e dados. A cidadania digital se diferencia da cosmopolítica ou dos parlamentos das coisas, ou da ontologia orientada aos objetos, exatamente porque considera o novo tipo de comum um ambiente digitalizado, feito de coisas, plantas, pessoas, superfície e materialidades conectadas. Ou seja, feito de info-coisas, de info-superfície, de info-matéria, de info-ecologias e de info-víduos. Se o processo de digitalização tornou-se uma atividade de extensões de redes que conectou, depois das pessoas e dos computadores (redes sociais), as coisas (IoT), as biodiversidades (sensores) e os territórios (SIG), a datificação, baseada na alteração de todos os tipos de superfícies em dados e na conexão automatizadas desses, apresenta-se como um processo de transfiguração do mundo.

Passamos a habitar um novo comum, feito não apenas de dados, mas de info-realidades, isto é, de materialidades, biodiversidades e superfícies conectadas que se comunicam e interagem entre si pelo processo de digitalização e de datificação. O nosso comum é um info-comum, as nossas comunidades são info-comunidades, o nosso social tornou-se composto por redes transorgânicas, a nossa cidadania, que, como visto, estende-se a novos atores, não somente tornou-se algo diferente do que pensamos, como também é o produto de um processo de conexão de todas as coisas (the internet of everything) e de um processo de alteração da realidade em dados e de processamentos automatizados deles.

O livro termina com um manifesto para a cidadania digital, assinado por importantes autores, como Derrick De Kerckhove, J. Bragança de Miranda, Mario Pireddu, entre outros, de diversos países e universidades. Como nasceu a ideia do manifesto e qual a sua proposta?

O manifesto foi consequência de encontros, seminários e palestras realizadas em vários países e em diversos contextos acadêmicos. Em todas essas ocasiões, era comum compartilhar, junto a um sentimento de impotência, a constatação do atraso e do despreparo das escolas, das universidades e das instituições perante essas qualitativas transformações que marcam a nossa época.

O manifesto nasce de uma reação a esses sentimentos. Tentamos jogar uma pedra para levantar a questão e instaurar um debate. As transformações que vivemos em nossa época nos obrigam a uma mudança de passo, e não há nenhum sinal de que essa mudança esteja acontecendo em cada uma das instituições. Isso, sem dúvida, deve-se em parte à velocidade dos processos inovativos, mas, ao mesmo tempo, à persistência de um conservadorismo generalizado, sobretudo, na universidade e nos setores que deveriam promover, por vocação, a inovação e a mudança.

As humanidades, as ciências sociais, as ciências políticas, a pedagogia e as ciências da comunicação tornaram-se, perante as mudanças contemporâneas, disciplinas conservadoras, que, em lugar de promover e cultivar a experimentação radical e contínua de novas linguagens e novos pensamentos, dedicam-se, com poucas exceções, à perpetuação de pensamentos e paradigmas antigos.

Além desses contextos, o ponto de partida do manifesto é a qualidade das transformações que estamos vivendo. Estas, tomando a ideia dos hiperobjetos, de T. Morton, não se apresentam como mudanças externas. A pandemia, as alterações climáticas, o processo de datificação e a contínua inovação digital não são alterações externas a nós e aos nossos corpos. Cada uma delas, ao se produzir, altera, além de nossas relações, nosso equilíbrio e nossa estrutura interna. É nesse sentido que defino no livro a qualidade dessas transformações e da cidadania contemporânea transorgânicas. Por exemplo, o processo de datificação por meio da transformação em dados das coisas, das superfícies, das biodiversidades etc., permite-nos o acesso a elas de outra forma, isto é, por meio de algoritmos, sensores, softwares, oferecendo-nos uma nova arquitetura do sentir. Nesse sentido, a datificação não pode ser interpretada apenas como um processo tecnológico externo. Enquanto espécie, ao termos acesso ao monitoramento continuado das biodiversidades, do clima, dos vírus e das florestas, passamos a desenvolver uma alteração não apenas da nossa condição habitada, mas da nossa inteira arquitetura perceptiva, pois passamos pelos Big Data, pelos sensores e pelos algoritmos a dialogar com a biosfera e a desenvolver um sentir não mais apenas subjetivo, mas distribuído e ecológico, inédito até então.

A partir desses pressupostos, o manifesto propõe a sensibilização e a formação desse novo tipo de cidadania, que se desenvolve pela conectividade e que abrange a biosfera inteira. Concretamente, o Centro de Pesquisa Internacional da USP, que coordeno, o Atopos, desenvolveu uma plataforma para a formação da cidadania digital que agrega atualmente conteúdos em diversos formatos: verbetes, web series, palestras, aulas, cursos, artigos científicos, produzidos por 20 docentes, de 15 estados do Brasil, e por uma rede internacional de docentes de vários países. A plataforma busca estimular a criação de uma rede de atores que possam contribuir, além da formação, para a implementação e a difusão de práticas de cidadania distribuídas, baseadas em open data, plataformas, blockchain, aplicativos e arquiteturas digitais.

Qual seria o campo disciplinar da cidadania digital?

Do meu ponto de vista, é necessário abandonar a ideia de campo disciplinar. Se P. Bourdieu pensava o campo disciplinar como um processo de construção de objetos científicos específicos, sociais e relacionados, no interior dos quais os cientistas pudessem ocupar posições, perante o protagonismo dos não humanos, as superfícies conectadas e, sobretudo, perante o processo de datificação e a difusão da “data science”, assistimos ao surgimento de ecologias epistêmicas sem sujeito nem objeto. T. Morton, ao definir os hiperobjetos como entidades nem internas, nem externas, nem delimitáveis geograficamente, nem completamente visíveis, mostra-nos o advento de um novo tipo de episteme, na qual as fronteiras entre observador, instrumentos técnicos utilizados e fenômenos observados não são mais exatamente delimitáveis, mas são abertas, tornando impossível pensar em uma delimitação de um campo formado por uma única disciplina.

Para T. Morton, por exemplo, as mudanças climáticas são um hiperobjeto, pois são “reais”; entretanto, ao mesmo tempo, não são identificáveis e delimitáveis em um lugar específico, tampouco externos a nós, pois seus efeitos impactam, também, em nossa esfera biológica interna. Qual seria a disciplina capaz de estudar o hiperobjeto das mudanças climáticas? Para ele, parece óbvio como a disciplina que estuda o clima nos mostra apenas as evidências de um fenômeno muito mais profundo e complexo, que tem a ver com modelos econômicos, com as emissões e, portanto, com a produção e com o consumo de tipos de materiais, com o estilo de vida, com o imaginário, com as tecnologias etc. A ciência dos hiperobjetos, se quisermos utilizar o termo de T. Morton, ou a ciência cosmopolítica, se preferimos fazer referência ao conceito proposto por I. Stengers, é uma ciência nova, baseada em campo de força mais do que em campos disciplinares. A ideia de campo de força, elaborada por J. C. Maxwell na física, nos remete a pensar em campos conceituais no interior dos quais diversos saberes não apenas se encontram (multidisciplinaridade), mas se cruzam (interdisciplinaridade) para produzirem narrativas capazes não apenas de monitorar hiperfenômenos e de cartografá-los (B. Latour), mas de narrá-los e de significá-los.

A mesma coisa podemos dizer das inovações tecnológicas relacionadas à internet e ao processo de datificação. Qual seria a disciplina capaz de narrar e significar as qualidades das inovações tecnológicas digitais das plataformas, das blockchain ou das formas automatizadas de processamentos de dados? Sem dúvida, as disciplinas ligadas à programação e à engenharia informática; entretanto, suas abordagens, logicamente importantes, relatam apenas uma parte dos significados e das qualidades dessas transformações. Contentar-se apenas com a dimensão engenharística da programação seria como pedir para um tipógrafo relatar sobre os conteúdos e os argumentos dos livros impressos por ele. Ao lado da dimensão da programação e da engenharia, os significados das tecnologias digitais e de suas inovações envolvem diversos setores do saber, desde a dimensão cognitiva, aquela social e cultural, à dimensão dos estudos das ciências biológicas, que permite relacionar as transformações que as plataformas e os sensores implementam na nossa relação com o meio ambiente.

Campo de força

Nesse sentido, a cidadania digital, mais do que a expressão de um campo disciplinar, aparenta ser um campo de força, no sentido atribuído a este termo por J. C. Maxwell. O conceito de campo de força é interessante. O físico britânico desenvolve quatro equações com a intenção de monitorar, no tempo, as evoluções das relações e as recíprocas influências dos campos da eletricidade e dos campos magnéticos. As equações, ao mostrar os vínculos aos quais está relacionado o campo eletromagnético, tornam este último uma grandeza física, embora nunca possa ser observado, pois trata-se de um espaço de relações desenhado por J. C. Maxwell em um papel e representado em um plano cartesiano.

A ciência necessária ao estudo e à compreensão dos hiperobjetos, isto é, da mudança climática, da pandemia e das transformações digitais, da datificação e da cidadania digital, como o campo eletromagnético, narra realidades não completamente visíveis, nem claramente delimitáveis, mas resultados das recíprocas influências de forças e de diversas contribuições que, ao se relacionar exatamente como na teoria de J. C. Maxwell, constroem um campo, não mais disciplinar, nem disciplinarmente delimitável, mas capaz de abordar as principais questões da nossa época.

Nessa perspectiva, a cidadania digital é, hoje, o campo e o âmbito de pesquisa que se concentram na superação do projeto político ocidental e no começo de uma nova cultura da governança em redes complexas, caracterizadas pelas interações no interior de arquiteturas não mais formadas por sujeitos e por objetos. O estudo da cidadania do novo milênio não pode se delimitar às ciências políticas e sociais, uma vez que ela pressupõe a análise do clima, dos vírus, dos Big Data e das arquiteturas de redes que conectam os humanos às biodiversidades, aos ecossistemas e às diversas superfícies. Não se trata apenas de somar disciplinas diversas (multidisciplinaridade), mas de criar uma perspectiva capaz de analisar as redes e a complexidade digital da cidadania desse novo milênio, tal qual já experimentamos com a pandemia.

Você refere que a cidadania digital se baseia em uma ideia transorgânica e não mediada das interações. Entendo que essa proposição rompe com uma tradição que compreende as tecnologias digitais como meio, como mídia, ao mesmo tempo que fala de uma interação não mediada. Poderia nos falar mais sobre esse aspecto?

Desde a difusão da comunicação ubíqua (redes wi-fi) e das redes sociais, ao advento da IoT, até as últimas gerações de redes, como as plataformas de dados e de interação digitais, como as blockchain, assistimos à difusão de ambientes de comunicação e de interação. Para a comunicação acontecer, torna-se necessário ingressar nessas novas ecologias e passar a habitar em seu interior, assim como nos ecossistemas vivos, nos quais passamos, por meio de nossas interações, a modificar esses habitats e, ao mesmo tempo, a ser modificado por eles. Esse é um aspecto importante, pois contraria a ideia de comunicação industrial desenvolvida no âmbito das mídias de massa: o processo comunicativo não pode ser descrito como um repasse de informação de um emissor para um receptor. Nesses ambientes, pessoas, coisas, o ar, os vírus e qualquer tipo de entidades não apenas produzem conteúdos, mas, ao se conectar aos demais, alteram sua forma originária e, ao interagir, passam a modificar também os demais membros. Nesses ambientes, valem as mesmas regras dos ecossistemas: a comunicação não acontece apenas entre os humanos e em nível de conteúdo, mas também em nível interno.

Pensamos a comunicação do vírus, das mudanças climáticas ou dos Big Data, sobretudo a nível de saúde e nos novos tipos de terapias que utilizam análise de dados. A teoria da comunicação moderna, baseada na ideia da transmissão, na centralidade dos meios, entendida como canais e conteúdo, inspirava-se nos modelos industriais, na cadeia de produção, e era a expressão da cultura da época que associava automaticamente o processo de produção de conteúdo ao processo de produção industrial.

É necessário abandonar a ideia de comunicação baseada na mídia e na instrumentalidade dos meios se queremos compreender a comunicação das redes hipercomplexas que conectam entidades diversas e as transformam em dados processáveis. Como pensar em descrever a comunicação fotônica a partir das categorias emissor-receptor? Onde estaria a emissão da luz? Qual seria o canal ou o meio de propagação desta? Como descrever a comunicação quântica ou aquela dos Big Data, que agregam dados de forma automatizada, produzindo continuamente novos, em termos de produção e autoria de conteúdo? Acabamos de ingressar no terceiro milênio, vamos nos tornar outros em relação àqueles que pensávamos ser.

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