O giro de Honduras à esquerda

Xiomara Castro é eleita presidenta com ampla votação. Esposa de Zelaya, deposto e exilado em 2009, liderou a resistência democrática. Enfrentará o colapso social no país, arrasado por dois furacões seguidos em 2020, golpismos e neoliberalismo

Por Jacobo García, no El País Brasil

Honduras se prepara para mudar de rumo radicalmente. Salvo em caso de uma inesperada reviravolta na apuração dos votos, o país centro-americano —um dos mais pobres do continente— girou à esquerda e escolheu uma mulher para conduzir o país até 2025, após 12 anos de governo conservador. Segundo os dados preliminares com 51,4% dos votos apurados, Xiomara Castro ganhou de goleada, com mais de 20 pontos à frente do seu rival conservador Nasry Asfura. A apuração foi interrompida nesta segunda-feira, o que se deveu, segundo as autoridades eleitorais, à demora na chegada de atas que não puderam ser transmitidas de forma digital.

A vitória de Castro, de 62 anos, é legitimada também por uma participação histórica que superou 68%, cifra especialmente alta num contexto de apatia política. A mulher do ex-presidente Manuel Zelaya, deposto em 2009, chega à presidência depois de ter sido candidata ao cargo em 2013 e a vice em 2017.

“Doze anos … Doze anos…”, começou dizendo Xiomara Castro a seus seguidores na noite de domingo, em meio a nostálgicas pausas. Suas primeiras palavras como presidenta-eleita não podiam aludir a outra lembrança senão àquela noite, em junho de 2009, quando seu marido Manuel Zelaya foi deposto por um golpe de Estado e obrigado a fugir de pijama do país. A vitória da ex-primeira-dama encerra uma longa travessia pelo deserto da esquerda hondurenha na tentativa de recuperar a presidência. Um tempo em que a oposição fugiu para o exílio, viveu depois uma reeleição ilegítima e finalmente uma fraude eleitoral, enquanto arrastava sua causa por meio mundo, com pouco sucesso. Com estes elementos, assim que os primeiros dados oficiais foram anunciados, uma festa começou em cidades grandes e pequenas, com gritos de “fora, fora” e “sim, foi possível”. “Juanchi vai para Nova York, os gringos estão te esperando”, dizia o pegajoso jingle eleitoral, em alusão ao atual presidente, Juan Orlando Hernández, e os vínculos com o narcotráfico que se ouviram a respeito dele num tribunal norte-americano durante o julgamento do seu irmão Tony.

Às 21h53 da noite eleitoral (quaseil1h de segunda em Brasília), Xiomara Castro tomou o microfone, e diante dos seus seguidores, dedicou a vitória “aos mártires que ofereceram sua vida para que o povo tivesse liberdade, democracia e justiça”. Era uma referência às muitas vezes que seu movimento foi reprimido por soldados e policiais. “Deus demora, mas não esquece”, disse.

Castro já foi apresentada como “presidenta-eleita”, e esse foi o tom de seu discurso, após uma campanha que conseguiu convencer ao campo e a classe média, cansada da escandalosa corrupção e dos supostos vínculos com o narcotráfico que abrangem do presidente a um grande número de deputados. “Nunca mais se abusará do poder neste país”, insistiu. “Buscamos uma democracia direta e participativa”, acrescentou, em referência à Assembleia constituinte com que promete refundar o país.

Filha de um latifundiário de Olancho, Xiomara Castro ganhou destaque em junho de 2009, quando se mobilizou para defender o Governo de seu marido, expulso depois de um acordo entre civis e militares por flertar com a Venezuela de Hugo Chávez e a Cuba castrista, além de saltar um bom número de leis. Até aquele dia, Xiomara Castro havia cumprido de forma impecável o papel que a América Latina reserva às esposas presidenciais: sorrir, inaugurar hospitais e visitar os pobres, que em Honduras são 70% da população. Entretanto, depois da queda de seu marido, deu um passo à frente, que chega até hoje.

Durante aqueles conturbados dias posteriores ao golpe, enquanto seu marido protestava no exílio, ela encabeçou La Resistencia e em inúmeras ocasiões foi humilhada pelos soldados, a quem enfrentava sempre de forma pacífica e acompanhada de seus filhos. Com tom suave, discurso moderado e pouco rebuscado, Castro deixou de ser uma mulher discreta, que caminhava sempre dois passos atrás do marido, para liderar a volta da esquerda ao poder. No aspecto social, prometeu em seu programa impulsionar a legalização do aborto sob determinadas circunstâncias (estupro, risco para a mãe e feto inviável), num dos poucos países do mundo onde a prática é absolutamente proibida mesmo nesses casos.

Politicamente, aposta numa nova Assembleia Constituinte, para a qual necessita amplo apoio no Congresso. No âmbito, econômico suas propostas são tão vagas que nelas cabe de tudo, do apoio às pequenas empresas a planos para a juventude que contribuam para frear as caravanas emigratórias que esvaziam o país. No campo internacional, seu partido, o Livre, faz parte do Fórum de São Paulo, organização que aglutina as principais formações esquerdistas do continente, da FARC colombiana ao indigenismo de Evo Morales. Honduras é um dos 15 países do mundo que, em troca de dinheiro e ajudas, mantém relações diplomáticas com Taiwan, prescindindo da China, mas a equipe de Castro deixou entrever que poderia mudar de sócio e abrir as portas a Pequim, num país que já foi considerado quintal dos Estados Unidos.

Castro tem um gigantesco desafio pela frente. Em 27 de janeiro, assumirá as rédeas de um país quebrado socialmente, que no último ano sofreu dois furacões seguidos, e onde o gás, a gasolina e os alimentos mais básicos não param de subir. Há anos, Honduras é uma máquina de expulsar caravanas de jovens para os Estados Unidos e, se nada impedir, após uma contração de 7,5% na economia terminará o ano com 700.000 novos pobres, segundo o Banco Mundial. O desencanto coletivo convive com um cruel sistema neoliberal onde os ambientalistas hondurenhos são os mais assassinados do mundo, a gasolina (6,45 reais o litro) e a luz têm preços quase europeus, as empresas extrativistas perfuram o país e são construídas hidrelétricas que acabam sendo controladas por deputados que outorgam concessões a si mesmos. Para fazer frente a tudo isso, Castro conta com uma equipe herdada da etapa de seu marido, onde há desde nostálgicos do castrismo cubano a “funcionários capazes de pôr uma gravata para negociar com o Fundo Monetário Internacional”, como revela uma fonte próxima à sua equipe. O vice-presidente Salvador Nasralla acrescenta a nota conservadora no Gabinete.

Além de Honduras, o giro à esquerda agita o tabuleiro centro-americano. Zelaya e Daniel Ortega são bons amigos, e o fazendeiro de Olancho não esquece que o sandinista o acolheu quando foi apeado do poder em 2009. Junto a ele viajou em sua Mercedes Benz quando Zelaya tentou mais de uma vez voltar da vizinha Manágua a Tegucigalpa durante o Governo provisório de Roberto Micheletti. Paralelamente, compartilha proximidade com o salvadorenho Nayib Bukele, unidos em seu ódio a Juan Orlando Hernández.

O atual presidente é, aliás, o grande derrotado da jornada eleitoral de domingo. Com um dos piores índices de popularidade do continente, ele terá que enfrentar, agora sem a imunidade presidencial, as acusações da Justiça norte-americana. Apesar de não ser réu em nenhum processo, seu nome apareceu 104 vezes no julgamento em que seu irmão foi condenado a 25 anos de prisão por tráfico de drogas.

Nas ruas, a reação à vitória de Xiomara Castro veio acompanhada por certa estranheza com uma vitória que não provocou distúrbios nem uma apuração tensa. Acostumado ao nervosismo no dia da votação, a publicação dos resultados foi um bálsamo para o maltratado país que voltou a rir nas ruas depois de um ano carregado de desgraças. A tensão prévia dava a sensação de que seria a última oportunidade de direcionar tanta insatisfação por canais pacíficos.

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