Junho de 2013 no Rio: impasses e significados

Cinco anos depois, reconstituição das mega-manifestações e seus antecedentes sugere: intensa disputa de protagonismos desperdiçou oportunidade histórica de construir novas formas de ação política

Manifestação de 20 de junho de 2013 no Rio de Janeiro

Por Carlos, no Passa Palavra

1. Quadro geral

A onda de protestos que ocorreu em junho de 2013 se manifestou nas principais cidades do país, não apenas nas capitais, mas também em médias cidades com características muito próprias e mobilizou indivíduos independentes, organizações políticas e movimentos sociais de todo tipo. Apenas observando a forma como esses três fatores ou elementos se conjugaram e qual deles se tornou predominante na construção do processo em cada caso poderemos entender as enormes diferenças dos protestos em cada contexto específico. O caso do Rio de Janeiro chama atenção não apenas porque foi lá onde ocorreram as maiores manifestações, mas pela forma que estas foram organizadas e pelo que estava realmente em disputa ali.

De modo geral, nas demais cidades do país, organizações políticas ou movimentos sociais como o MPL – Movimento Passe Livre – buscaram assumir a condução dos acontecimentos. Nas cidades onde nenhuma força conseguia a hegemonia, estabelecendo-se como direção privilegiada, formaram-se frentes onde linhas com poucas diferenças ideológicas se confrontavam num debate pouco animador. Evidentemente que neste segundo caso o centro da discussão eram as diferenças táticas. Poucos foram os casos que conseguiram romper a barreira da luta pelo transporte posta como fim em si mesmo. Debates eleitorais e campanhas políticas se misturaram a uma narrativa ultra-otimista que omitia toda discussão acerca do papel do Estado e da relação entre o problema de transporte com as relações de produção ou ao menos com a conjuntura econômica. No primeiro caso, entretanto, ainda que houvesse um caminho estratégico desenhado, não havia nenhum vínculo entre o militante independente que compunha a manifestação e os posicionamentos da força que conseguia manter seu papel dirigente. Deixando de lado a correção da estratégia assumida, o debate era realizado apenas internamente e divulgado num ato de propaganda ou de formação, sem nada que inserisse as chamadas bases nos passos desenhados pela estratégia assumida. Ainda é evidente que, também aqui, as pessoas acabaram indo às ruas por motivos diversos e formando grupos que insurgiam-se sem grandes horizontes para além do evento em si e cada um aderindo a um conjunto de táticas próprias sem que se pudesse avaliar sua correção, seus efeitos e sem que se pudesse corrigir suas falhas. Com a continuidade dos protestos, frequentemente as formas de mobilizações individuais pela internet acabaram por predominar sobre as organizações ou movimentos sociais que outrora comandavam-nas.

Em ambos os casos da hegemonia organizativa por militantes politicamente organizados e com pautas fundadas em suas respectivas ideologias, passou-se a uma síntese cada vez mais plural de atores, a maioria dos quais virtuais e afastados da militância dos movimentos sociais tradicionais, que disputavam a forma, o conteúdo e as pautas dos protestos. No primeiro momento, em ambas as situações tratadas até aqui, tínhamos algum nível de organização, clareza nas pautas, que por sua vez eram conduzidas minimamente por algum tipo de estratégia previamente elaborada ainda que não discutida nem difundida (o que acabava por torná-la inerte), modo de organização, entretanto, que tinha claro limite na capacidade de mobilização já que afastava da luta aqueles que de antemão rejeitavam ideologicamente os grupos que buscavam comandar todo processo. Militantes avessos ao PSOL, PT (e aqui se somam os eleitores de legendas concorrentes e insatisfeitos com as siglas eleitorais) ou ao MPL, por exemplo, tendiam a não comparecer em suas atividades ou ao menos não contribuíam com elas já que não queriam fortalecer esses grupos que combatiam politicamente. No segundo momento, de predominância do papel da internet, a mobilização foi reforçada em detrimento da organização, levando em boa parte das cidades a uma insurreição guiada na tática pela tática e numa pluralidade de pautas e reivindicações muitas vezes excludentes entre si, que expressavam interesses de diversos subgrupos sociais ainda com mentalidade corporativa ou de pequenos grupos ou lideranças políticas. Nesse ponto podemos avaliar o papel das redes sociais como desorganizadoras e ao mesmo tempo como ampliadoras da eficiência da propaganda.

2. O caso do Rio

Assim como a ideia de uma irrupção abrupta dos protestos de São Paulo ignora certo trabalho de base, mobilização e de propaganda do MPL, a construção das manifestações do Rio de Janeiro não começou em 2013. Já em 2012, quando a luta contra o aumento das passagens se intensificou, a militância carioca teve de enfrentar um grande desafio; a crescente insatisfação criou uma massa de militantes virtuais que buscavam utilizar as redes sociais como meio privilegiado de organização e como forma de serem protagonistas das mobilizações. Sua ideia era simples: cada indivíduo insatisfeito marcaria um protesto próprio, com local, pauta e formato definido previamente; os outros estariam livres para escolher qual se adequava à sua posição ou criar um novo que lhe interessasse. O que se viu foi o surgimento de múltiplas passeatas com meia dúzia de pessoas e sem impacto algum. Contra isso, militantes organizados convocaram uma plenária aberta para organizar a luta contra o aumento das passagens de onde surgiu o “Fórum de Lutas contra o aumento das passagens”, que, em sua breve vida após a redução das passagens, alterou seu nome para “Fórum de Lutas do Rio de Janeiro”.

O Fórum de Lutas era um movimento social autônomo e plural que buscava organizar a luta contra o aumento das passagens – que incluía além de atos, panfletagens, reuniões com sindicatos e grêmios, passagens em escolas e universidades, atividades culturais etc. – através de plenárias abertas que ocorriam periodicamente. Embora fosse inicialmente composto por militantes independentes de partidos políticos, foi justamente esta característica que progressivamente atraiu o conjunto da militância de todos os espectros políticos e abriu um espaço permanente de discussão e avaliação da tática, inclusão ou exclusão de pautas e mesmo sobre para quais objetivos gerais esses objetivos específicos deveriam estar subordinados.

Por não ser uma organização política com programa pronto, mas uma assembleia plural, aberta e autônoma, sentiam-se confortáveis para adesão anarquistas, marxistas libertários, stalinistas, trotskistas ou aqueles sem posição definida. Todos tinham que discutir desde a reivindicação até sua viabilidade e os meios para implementá-la. Um debate marcante foi em torno de qual modelo de passe livre seria implementado, se se financiaria empresas privadas, cooperativas ou se através de uma empresa estatal. Decidiu-se por uma luta pela estatização do sistema de transportes com controle do conjunto dos trabalhadores e usuários sobre sua gestão. Não é que as pautas fossem avançadas, mas a criação de um espaço onde militantes de todas as ideologias debatessem os objetivos, a estratégia e a tática foi especialmente formativo para essa geração. Não é à toa que todo tipo de organização política e movimento social começou a compor as plenárias de que não participavam apenas indivíduos organizados, mas também pessoas de fora do ambiente acadêmico e dos movimentos estudantis, populares ou de trabalhadores. A maior plenária chegou a contar com algo entre 3.000 e 5.000 pessoas.

A unicidade construída nas plenárias foi certamente o resultado de um longo esforço de debate e de convencimento, mas o cenário era favorável na medida em que esta já havia sido desenhada na prática na luta contra a privatização do complexo do Maracanã em 2013, que além da concessão à iniciativa privada do estádio previa a demolição da Escola Municipal Friedenreich e a desocupação da Aldeia Maracanã no antigo Museu do Índio, também para demolição, com objetivo de construção de um estacionamento que tornasse o empreendimento mais atrativo. Torcidas organizadas, comunidade de pais e alunos, militantes das mais variadas ideologias se mobilizaram colocando suas diferenças de lado e conseguindo impedir as demolições. Aqui estavam sendo lançadas bases do que estaria por vir alguns meses depois.

De outro lado, as convocações virtuais nunca desapareceram. Embora as manifestações convocadas pelo Fórum tenham atraído muito mais pessoas, chegando a conseguir dez vezes mais adesão, as convocações virtuais, sem debate ou organização e previamente formatadas, mantiveram-se conquistando número relativamente alto de apoiadores. Ambos os modelos de protesto ocorriam em dias diferente. Os atos do Fórum ocorriam normalmente às quintas-feiras, sendo as plenárias às terças-feiras, embora a última, de 20/06, tenha ocorrido numa segunda-feira, dia em que normalmente aconteciam passeatas chamadas pela internet, já que acordos entre os militantes das plenárias e das redes permitiram essa breve unidade. Esta diferença de dias fez com que as quintas-feiras fossem privilegiadas pelos movimentos sociais, militantes com ideologia definida e partidos políticos e que aqueles grupos violentamente anti-organizacionais e anti-política, bem como, curiosamente, os pacifistas, privilegiassem os protestos das segundas-feiras, embora ambos os tipos de militantes estivessem presentes em ambos os dias da semana. A maioria dos ataques fascistóides contra partidos e organizações de esquerda, comunistas etc. ocorreram nas segundas-feiras em atos chamados exclusivamente via internet. Aos poucos, entretanto, grupos organizados como o BASTA, movimento de luta contra a corrupção, o Anonymous e muitos outros ocuparam esse espaço, que em certo sentido competia com o Fórum de Lutas. Também no facebook os grupos mais organizados conseguiram superar os indivíduos isolados. Vale ressaltar que todas essas forças acabaram por cooperar em diversos sentidos. A pauta forçava o diálogo.

3. O desfecho trágico

O horizonte parecia promissor. A euforia tomava conta de todos e, quando já se percebia o impacto dos grandes protestos e seu crescimento contínuo, dois modelos de organização se confrontaram. De um lado, a chamada base, os militantes anarquistas, marxistas libertários e trotskistas mais radicais propuseram uma mudança de forma no espaço que agora deveria se tornar uma assembleia que reuniria delegados de assembleias populares nos bairros, conselhos populares nas escolas e conselhos operários nos locais de trabalho. Isso ocorreu num momento onde trabalhadores começaram a participar do espaço reivindicando pautas do movimento operário e começavam a surgir assembleias nos bairros que reproduziam em escala local a experiência do fórum — que chegou a ele mesmo criar mais cinco assembleias em diferentes regiões da cidade. Creio que aqui se esboçou um novo passo estratégico, infelizmente nunca dado. Por entender que a luta por reformas só é radical e contribui para causa revolucionária não necessariamente quando utiliza meios violentos mais combativos para sua finalidade, mas quando, independente do conquista ou não da pauta, contribui para o avanço da organização dos trabalhadores, já que é através de meios autogeridos da organização para luta de classe que surgem os meios de gestão da sociedade futura, entendo que este foi o momento de maior radicalização – ainda que precária e sem resultado permanente – das manifestações de 2013.

Em sentido inverso, os partidos eleitorais intensificaram sua presença no espaço, pondo em marcha uma estratégia de controle e esvaziamento das posições contrárias. Partidos como PSTU e organizações como o MEPR, Movimento Estudantil Popular Revolucionário – de orientação maoísta –, privilegiavam a autoconstrução em detrimento do movimento. Ao mesmo tempo utilizavam as plenárias como arena para suas disputas particulares. Ambos, ao seu modo, buscavam dirigir os rumos dos acontecimentos e viam nos outros, adversários, almejando, assim, a mútua exclusão. Com o crescimento, o próprio PSTU e também setores do PSOL fizeram do Fórum seus palanques eleitorais. O candidato à presidência da República pelo PSTU, Zé Maria, ainda que vaiado, chegou a participar de uma plenária. E não eram poucos os que inscreviam diversas falas da mesma organização para dizer o mesmo discurso vazio de conteúdo, voltado apenas à autopromoção. Os anarquistas e a própria base descrente do processo eleitoral parou de ver sentido na reprodução de discursos pouco propositivos.

Com a redução das passagens, os independentes, repelidos pela transformação do fórum num espaço de campanha, abandonaram as plenárias, os anarquistas junto ao MEPR fundaram a FIP, Frente Independente Popular, que reuniu organizações contrárias à eleição para cumprir as tarefas do Fórum de Lutas através de plenárias próprias sem os chamados “pelegos” e de caráter mais combativo. Evidentemente que – unindo maoístas, stalinistas e anarquistas – a centralidade das discussões estava não na estratégia, mas na tática. Ela esteve à frente de importantes manifestações em 2014 contra a copa do mundo até que foi duramente combatida e perseguida gerando um processo sobre 23 militantes que acabaram presos. O fórum, por sua vez, se subordinou cada vez mais à pauta eleitoral, perdendo sua força e desaparecendo sob controle de meia dúzia de partidos. As assembleias populares, sem um espaço que as unificassem, foram perdendo força até que por volta de 2014 poucas haviam sobrado de fato, e as que ainda restavam se converteram na prática em pequenas organizações políticas.

É visível que a equação entre os três fatores descritos, indivíduos independentes, movimentos sociais e militantes organizados de um lado e de outro a disputa em torno da visão estratégica da forma de organização para conduzir as manifestações que foram o elemento central de todas as transformações por que passou a onda de protestos no Rio e as diferenças fundamentais entre as cidades inseridas em alguns dos modelos de manifestação mencionados, entre outros que certamente ficaram ausentes dessa análise. Está claro também que a redução dos eventos à pura espontaneidade oculta a conjugação dos elementos causais que resultaram no fenômeno observado. A ideia de que o facebook foi o ator principal dos episódios deve ser veementemente rejeitada da mesma maneira, e a noção de sentido único das manifestações de 2013 não suporta o teste da comprovação diante da sequência dos acontecimentos. O que se viu foi um choque de múltiplos atores com posicionamentos diversos se confrontando através de variadas formas de organização sem que nenhum destes conseguisse uma hegemonia que nos permitisse atribuir um significado único e sem que os efeitos das práticas adotáveis correspondessem às suas respectivas intenções. O crescimento da extrema direita, o fortalecimento e a criação de espaços autogeridos, a tática da revolta popular, a negação da política institucional e o contraditório fortalecimento de partidos socialdemocratas estavam presentes em inúmeras sínteses que se desenvolveram no tempo e no espaço.

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