Harvey: esquerda pode ressurgir mais fortalecida

Geógrafo rebate pessimismo: vitória de Obrador no México, provável volta de Kirchner na Argentina e fortalecimento da pauta ambiental podem frear avanço ultraliberal na América Latina. Mas é preciso refletir sobre as recentes derrotas…

Protesto contra queimadas da Amazônia no Rio de Janeiro aconteceu na Cinelândia
Imagem: Mauro Pimentel/AFP

David Harvey, em entrevista ao Brasil de Fato

“Vocês já passaram por situações piores antes, durante o regime militar, e conseguiram sobreviver. E saíram desse período com um movimento democrático mais forte”, afirma o geógrafo britânico David Harvey.

Em entrevista ao Brasil de Fato, ele rebate a análise de que não haveria possibilidade de vitória de governos progressistas no horizonte, especialmente na América Latina: “Eu suspeito que a esquerda vai voltar mais forte que antes”. 

Um dos maiores pensadores marxistas do mundo, Harvey está no Brasil para uma série de atividades em que fala sobre a conjuntura atual e as dificuldades por que passa o capital, tema de seu último livro, 17 contradições e o fim do capitalismo, lançado em 2016 pela Boitempo.

Na entrevista, ele também discorreu sobre a crise ambiental e o papel do Brasil na geopolítica.

Sobre a Amazônia, o geógrafo questiona a postura de Jair Bolsonaro (PSL), que age como se estivesse na mesma posição do presidente estadunidense, Donald Trump, e coloca em risco acordos comerciais que favoreceriam o país. Para Harvey, a questão ambiental é central e afeta também os EUA, ameaçando o futuro de Trump na presidência do país.

Brasil de Fato: Estamos em tempos muito difíceis para a esquerda mundial, para quem luta por direitos. O que o senhor avalia como o mais perigoso do momento político que a gente vive? 

David Harvey: O maior perigo é o pessimismo. Vocês já passaram por situações piores antes, durante o regime militar, e conseguiram sobreviver. E saíram desse período com um movimento político, social e democrático muito mais forte. Acho que este é um desses momentos que retrocedem ao que houve um dia na política brasileira, mas acho que não vai durar muito. Acho que a população vai se levantar para proteger seus direitos e terá grande apoio popular com isso.Eu me sentiria bastante otimista com o futuro de vocês, e não desanimado e pessimista.

Nos últimos 20 anos, nós tivemos uma onda de governos progressistas, especialmente na América Latina. Agora, o cenário se inverteu completamente. Como interpretar o avanço desses governos conservadores?

Acho que há uma reação contra a esquerda. A esquerda cometeu alguns erros e acho que precisa refletir seriamente sobre eles. Mas discordo da visão de que a esquerda acabou na América Latina. Afinal, houve a eleição de López Obrador no México, ressurgiu um grande apoio à volta de [Cristina] Kirchner na Argentina… Então eu suspeito que a esquerda vai voltar mais forte que antes, desde que faça uma boa análise dos erros que cometeu no período que culminou no governo Bolsonaro.

O governo Bolsonaro se alinhou aos Estados Unidos, mas agora, na crise ambiental envolvendo as queimadas na Amazônia, o presidente estadunidense Donald Trump fez um tweet elogiando o presidente francês, Emmanuel Macron, que está no centro de um enfrentamento com Bolsonaro. Qual é o papel do Brasil nessa disputa e como o país é visto no mundo?

Tamanho importa. O Brasil tem uma economia grande, mas não tanto quanto os Estados Unidos. Enquanto Macron pode falar o que quiser para os EUA e eles fazem o que querem sem se preocupar com Macron, não é o caso para o Brasil. Bolsonaro pode tentar seguir a política de Trump, mas não está na mesma posição.

O comércio com a Europa é muito importante para o Brasil, a ponto de Macron dizer que está repensando o acordo com o Mercosul e outras estratégias. Bolsonaro precisa ter cuidado para não ofender muito esses interesses na Europa, que estão bem mais alinhados com fins ambientais do que os Estados Unidos.

Inclusive, eu acredito que a forma como os EUA estão agindo não vai durar muito. As mudanças climáticas e questões ambientais serão uma pauta importante na próxima eleição nos EUA. Suspeito que Trump vai sofrer uma derrota feia, porque o debate nos EUA mudou e está mais favorável à regulação ambiental do que no passado.

Estamos em um momento de ataque muito forte ao meio ambiente, com destaque para o que está acontecendo na Amazônia. Como essa destruição ambiental se insere no contexto da crise do capitalismo atual?

Uma das coisas que os próprios capitalistas têm discutido há algum tempo é que as questões ambientais devem ser resolvidas pelo mercado. Acontece que essa ideia é equivocada. Estamos vendo cada vez mais evidências disso. Isso deixa a classe capitalista com apenas uma ferramenta, que são os governos autoritários, para impedir que a questão ambiental entre na pauta. Essa é a resposta nos EUA.

Mas repito: essa resposta tem vida curta. Suspeito que a questão ambiental voltará. A opinião pública apoia a regulamentação ambiental. Trump vai perceber que isso é uma das coisas que vai levá-lo à derrota na próxima eleição.

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