Feminismo negro e os dilemas do lugar de fala

Socióloga estadunidense propõe: é hora de romper com hipocrisia do “reconhecimento controlado” e com os padrões de “representatividade” que integram o oprimido ao sistema

Por Winnie Bueno, no Alma Preta | Imagem: Espetáculo Rés, da Corpórea Companhia de Corpos (Divulgação)

A obra Black Feminist Thought: Knowledge, Consciousness, and the Politics of empowerment, de autoria de Patricia Hill Collins, é internacionalmente reconhecida enquanto uma contribuição valiosa e histórica. Premiada por diversas associações de pesquisadores e utilizada como referencial teórico em múltiplos campos de conhecimento, a obra é uma bibliografia fundamental para os debates de raça, gênero e sexualidade. Além disso, a partir de sua leitura é possível perceber que a principal preocupação de Patricia Hill Collins a respeito desse trabalho é que ele fosse acessível e de possível compreensão para mulheres negras sem que isso significasse uma ausência de complexidade das temáticas por ela abordadas. A preocupação de Collins é apresentar um trabalho em que aquelas que são as principais sujeitas da pesquisa desenvolvida o considerem relevante. 

Eu considero essa obra enquanto parte relevante do campo da teoria crítica, embora esse não seja o entendimento da academia brasileira. Nos mais diversos campos das ciências sociais, sobretudo na Sociologia, o pensamento de Patricia Hill Collins é estudado de forma escassa e quando o é, está mais adstrito aos campos voltados aos estudos de raça e gênero, do que às disciplinas voltadas à discussão da sociologia do conhecimento, por exemplo. Para mim, uma forma de demonstrar o potencial teórico crítico da obra está relacionada em descrever como que o próprio pensamento feminista negro difundiu as ideais apresentadas por Patricia Hill Collins e, nesse sentido, apesar de sua obra ser considerada um clássico contemporâneo da sociologia e dos estudos de raça e gênero, a inexistência de uma tradução editorial da obra até o presente momento afetou a disseminação de suas ideias no Brasil. Isso, entretanto, não significa que suas contribuições teóricos não tenham tido impacto em nosso país, significa apenas que o potencial político das ideias de Patricia Hill Collins ficou muitas vezes restrito aos esforços intelectuais de mulheres negras que estavam mais habituadas com o inglês e, por isso, a apropriação do pensamento de Patricia Hill Collins no contexto brasileiro é mediado pelas leituras que as próprias intelectuais negras fizeram de suas obras.

O pensamento feminista negro apresenta características próprias que o distinguem de outras formas de conhecimento. As ações e ideias de mulheres negras constroem uma tradição intelectual multifacetada, que, apesar de ser frequentemente invisibilizada a partir de uma estratégia de manutenção das inequidades sociais e de consolidação do discurso de vitimização de negros e negras, produz marcos teóricos que reivindicam a redefinição do lugar das mulheres negras na história e a relevância das estratégias políticas articuladas pelas mesmas enquanto projeto de justiça social. Nomear os processos constitutivos das nossas ações políticas, bem como assumir o controle de nossas narrativas é parte fundamental do pensamento feminista negro. Além disso, a persistência em demonstrar de forma crítica como a raça tem sido um fator central nas definições políticas através dos tempos, abordando consistentemente a forma como persistem as lógicas de dominação racial, ainda que mudem os sistemas políticos e econômicos, apresenta-se enquanto uma característica central do feminismo negro.

Para Patricia Hill Collins, uma das dimensões da opressão de mulheres negras é a forma específica com que o trabalho dessas mulheres será historicamente explorado para a construção e manutenção do capitalismo. Essa percepção nos auxilia a compreender porque o pensamento de mulheres negras ainda é tão subvalorizado pelas lógicas acadêmicas, uma vez que o mesmo não está articulado nas lógicas padronizadas da academia branca. O custo para a manutenção da própria vida, sem sucumbir às violências vivenciadas a partir do trabalho é alto e acaba afastando essas mulheres dos lugares de privilégio social, como é o caso das instituições de ensino superior. O pensamento feminista negro, portanto, é resultado da própria experiência de sobrevivência das mulheres negras e não de observações externas, apartadas e supostamente neutras.

O pensamento feminista negro não é uma novidade. Embora sua visibilidade tenha aumentado nas últimas décadas, o feminismo negro não se constituí de forma responsiva ao feminismo branco e tampouco é um mero desdobramento dele. Feministas negras existem desde os primórdios do feminismo, o que nem sempre houve foi o reconhecimento destas enquanto feministas devido ao racismo e às dinâmicas oriundas dele, como os processos de silenciamento e ocultação dos negros e negras de momentos históricos relevantes e decisivos para a sociedade contemporânea.

O pioneirismo de mulheres negras dos séculos XVIII e XIX também pode ser considerado enquanto gênese do pensamento feminista negro. Os esforços e iniciativas das mulheres que desafiaram os padrões hegemônicos para exigir seus direitos e da coletividade negra, compreendendo já nesse período que a condição de mulheres negras lhes colocavam em uma posição social distinta, influenciada por marcadores que, articulados conjuntamente produzem opressões específicas, não podem ser ocultados da construção social do pensamento feminista negro, ainda que naquele momento não houvesse uma definição das práticas e políticas executadas por estas mulheres enquanto feminismo.

Considero que o pioneirismo por si só não se constitui enquanto uma característica para localizar as percursoras do pensamento feminista negro, sendo um critério importante, mas não central. O que é central para pensar os primórdios do pensamento feminista negro, a partir da análise desenvolvida por Patricia Hill Collins, é compreender esse pioneirismo como uma política transgressora em que estas pioneiras estão utilizando estratégias que desafiem o status quo, pois há pioneirismos que servem apenas como uma forma de reforçar os padrões dominantes e as lógicas de subordinação aplicadas pelos grupos hegemônicos àquelas e aqueles que são desfavorecidos socialmente.

É reconhecido que não é incomum que grupos oprimidos sejam estimulados a ocupar determinados lugares de forma controlada, sendo aceitos em espaços nos quais comumente pessoas desses grupos não são autorizadas a estar. A falsa sensação de representatividade faz com que as pessoas que jamais são ouvidas aparentem ter suas falas respeitadas quando na verdade só estão ocupando estes espaços porque estão enquadradas em uma linguagem familiar e confortável para os grupos dominantes.

A obra de Patricia Hill Collins propõe um rompimento com essa lógica desde suas primeiras páginas. Ao colocar como sua experiência enquanto a única mulher negra ou como um das poucas mulheres negras nos espaços educacionais e de trabalho sempre foi um motivo de desconforto para ela, a autora nos desafia a pensar a quem serve esse tipo de representatividade que se baseia na consolidação de uma única voz como representação da multiplicidade de mulheres negras. Collins nos convida a pensar sobre como ser a única mulher negra tem um significado que não está inscrito apenas em nosso mérito e na reverberação das nossas conquistas individuais, mas sim em um lógica que silencia e controla o conjunto de mulheres negras. Se eu sou a única mulher negra a figurar em um espaço absolutamente branco, isso não significa que eu esteja ocupando esse espaço por representar a comunidade negra. Talvez o esteja ocupando para atender a uma necessidade das novas dinâmicas do racismo, as quais mercantilizam o próprio ativismo de mulheres negras se estas não estão atentas as armadilhas que uma representatividade monolítica apresenta.

O esvaziamento de práticas políticas históricas de mulheres negras, que vão sendo substituídas por uma lógica de promoção pessoal e individualista, faz parte da apropriação dos conceitos formulados pelos movimentos sociais vocalizados pelas coletividades de mulheres negras. Nesse sentido, o conhecimento produzido por mulheres negras imbricadas no pensamento feminista negro deve estar atento ao fato de que as abstrações que podem ser produzidas a partir da forma com que os conceitos oriundos da experiência e da luta dessas mulheres ao serem absorvidos pela mídia, pela academia e pelas instituições, muitas vezes acabam negligenciando o que interações específicas das opressões significam na materialidade social.

As respostas articuladas por mulheres negras e por grupos historicamente subordinados auxiliam na compreensão da natureza da dominação política e visibilizam as formas com que as políticas transversais podem ser construídas. A tradição intelectual e política do pensamento feminista negro provoca questões relevantes sobre a natureza da solidariedade política. O histórico do pensamento de mulheres negras sugere que as respostas à violência racial foram além da solidariedade racial centrada exclusivamente em resistir ao racismo, ou seja, há uma agenda feminista negra muito anterior ao boom midiático que o feminismo negro alcançou recentemente e esta agenda está alicerçada em construções coletivas de emancipação da comunidade negra e não em possibilidades de ganhos individuais midiatizados.

As múltiplas maneiras com que as diferentes experiências entre mulheres escravizadas moldaram suas formas de resistência numa perspectiva múltipla é uma característica que atravessou os tempos e auxiliou na construção das estratégias políticas do movimento negro. O sistema de ganho, por exemplo, é um fator que implicou na presença das mulheres negras no âmbito público em um momento histórico no qual as mulheres brancas eram proibidas de trabalhar. Dessa forma, a emancipação que as mulheres brancas buscavam através do trabalho não contemplava a agenda política das mulheres negras, pois para essas mulheres o trabalho fazia parte de seus cotidianos como uma forma de violência, dominação e controle. Ou seja, a percepção do trabalho como uma ferramenta de exploração é uma experiência anterior para mulheres negras. A compreensão da dinâmica do trabalho como uma forma de opressão e controle, portanto, surge para essas mulheres antes mesmo da consolidação do capitalismo. Essas, portanto, deveria ser a vanguarda revolucionária, uma vez que suas históricas experiências de resistência as violências do trabalho lhes possibilitam uma compreensão mais aprofundada de suas dinâmicas.

O patriarcado, o colonialismo, o racismo e o sexismo constituíram formas de dominação que caracterizaram o período de escravização e que, no que pese apresentarem dinâmicas diferentes em cada contexto nacional, influenciaram a formação dos aspectos da vida social. Segundo Patricia Hill Collins, os diferentes sistemas de dominação apresentam a própria malha de poder, o que irá criar implicações distintivas em cada contexto social. Por exemplo, o sistema escravocrata no Brasil e nos Estados Unidos apresentou características que, analisadas numa perspectiva global, apresentam contornos semelhantes. Contudo, ainda assim, não é possível meramente entender esses dois contextos de forma igualitária, como se os impactos produzidos na vida social dos sujeitos localizados em cada um desses países fossem idênticos, apesar de estruturalmente semelhantes.

O histórico de violências sexuais impingidas às mulheres negras e indígenas na história das Américas é uma característica compartilhada em todos os contextos pátrios. Contudo, no contexto brasileiro, a violência sexual que essas mulheres sofreram durante o período colonial transformou-se em romance e mito, criando uma dinâmica específica das relações sociais no Brasil. A miscigenação, fruto desse histórico de violências, ainda hoje é celebrada e alicerça o mito da democracia racial. Não obstante, é esse sistema de dominação que organiza as hierarquias de raça e gênero no país. A miscigenação, portanto, enquanto celebração de todas as raças, cunhada de forma romântica e ufanista, é parte da matriz de dominação brasileira.

O conceito de matriz de dominação diz respeito a forma com que as opressões se desenvolvem e também a maneira com que as mesmas se articulam mutuamente a partir de uma organização social que fortalece os sistemas de dominação que estruturam o poder hegemônico. Nesse sentido, as instituições terão um papel central, pois são elas que regulam a forma como as opressões serão organizadas para controlar os grupos subordinados em determinado momento histórico. Essa é uma das razões pela qual o fim da escravização de pessoas negras não significou a autonomia e a emancipação plena da população. A abolição da escravidão não significou o fim da dominação racial, significou apenas que um sistema de dominação foi substituído por outro, exigindo portanto uma mudança nos padrões de opressão para que a subordinação dos negros permaneça agora sob outra forma.

A obra de Patricia Hill Collins nos proporciona aprofundar debates centrais para o pensamento feminista negro brasileiro e também nos possibilita analisar academicamente a trajetória de mulheres negras a partir de importantes chaves conceituais que certamente irão proporcionar a organização de monografias, dissertações e teses a partir de um sofisticado arcabouço teórico que é organizado não apenas por um esforço intelectual, mas por observações inscritas em vivências e compartilhamentos de uma mulher negra que mudou o campo da Sociologia e dos Estudos de Raça e Gênero; A tradução de Black Feminist Thought para o português em um momento em que, como nunca, precisamos defender nossos espaços e nossas conquistas dentro e fora da academia, é oportuna e se transmuda não apenas em uma ferramenta acadêmica, mas sobretudo em uma ferramenta de resistência epistêmica.

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