Boff e as encruzilhadas do novo governo

Teólogo elogia erradicação da miséria como prioridade; mas lembra que é preciso rever o conceito de desenvolvimento

Por Marilza de Melo Foucher

Leonardo Boff teve um papel fundamental nessas eleições e eu não podia deixar de entrevistá-lo durante minha passagem no Rio. Todavia, devido seus inúmeros compromissos e o cansaço de final de campanha deste bravo eleitor da cidadania ativa, não foi possível nos encontrarmos. Leonardo me respondeu por email duas questões:

Como membro estimulador da candidatura da Marina, e tendo você uma visão holística do desenvolvimento, como as proposições formuladas por esse movimento podem influenciar no novo governo?

Eu creio que Dilma tem que fazer um aprendizado rápido e forte, porque não possui muita acumulação em termos de questões ecológicas. Ela declarou que vai incorporar as sugestões básicas da Marina Silva. No fundo, trata-se de superar a idéia convencional de desenvolvimento que se transforma em sinônimo de crescimento econômico. Desenvolvimento deve ser considerado como um novo paradigma, quer dizer, supõe uma nova relação para com a Terra. O projeto de crescimento ilimitado, próprio da modernidade, não pode ser suportado por um planeta limitado. O desenvolvimento implica, em primeiro lugar, desentranhar as virtualidades do ser humano para que cresça a partir de uma relação nova com a natureza, com respeito de seus limites e alcances, em sinergia com seus ritmos, que descubra em si,como humano, dimensões do capital espiritual que se mostram pela cooperação, solidariedade, tolerância, compaixão para com a humanidade e a natureza sofredoras, amor incondicional e abertura a um Maior. Desenvolvimento que permita à Terra descansar, regenerar-se e conservar sua vitalidade. Isso supõe um ritmo mais lento, equilibrado, onde todos possam co-evoluir e ser incluídos, também a comunidade de vida (os demais seres vivos que usam a biosfera e precisam da Terra). Trata-se de um foco diferente. Estimo que Dilma tem capacidade de aprender. Mas depende da pressão dos grupos que já incorporaram esta visão, da sociedade que se dá conta de que assim como está não podemos continuar, ou vamos ao encontro do pior.

Para você qual seria a principal prioridade do governo Dilma?

Dilma declarou e eu acho que deve ser a primeira prioridade: erradicar a miséria e as sequelas que se derivam como fome, doenças, desestruturação pessoal e familiar entre outras. A missão primeira do Estado é cuidar da vida dos cidadãos. Nisso Dilma mostrou ter clareza e creio que vai ser a marca de seu governo: a erradicação da fome. Só uma mulher possui, por sua natureza, uma percepção natural desta urgência. Por isso, estimo que será conseqüente e fará tudo para alcançar esta meta que Lula já inaugurou e que ela deve levar até o seu fim.

Marilza de Melo Foucher é doutora em economia e especializada em desenvolvimento territorial integrado e solidário

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