E se reduzirmos a jornada de trabalho para 6 horas?

Cidade sueca começa a testar ideia óbvia: e se o desenvolvimento tecnológico, esta criação humana, beneficiar a todos — e não apenas ao capital?

Por Carmém Lopez, no El Pais

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Cidade sueca começa a testar ideia óbvia: e se o desenvolvimento tecnológico, esta criação humana, beneficiar a todos — e não apenas ao capital?

Por Carmém Lopez, no El Pais

O debate não é novo, mas foram os suecos que se decidiram a provar sua eficácia: Gotemburgo (a segunda cidade em importância da Suécia) fará um experimento para constatar o sucesso ou o fracasso da redução da jornada trabalhista para 6 horas diárias, segundo declarou Mats Pilhem, conselheiro da prefeitura e pertencente ao Partido da Esquerda, ao jornal sueco The Local.

A proposta do ensaio é simples: a metade dos funcionários da prefeitura manterão sua jornada habitual de quarenta horas semanais enquanto a outra metade desenvolverão uma jornada diária de 6 horas. Todos os trabalhadores ganharão o mesmo salário (é provável que os do segundo grupo estejam esfregando as mãos neste momento pensando no tamanho de sua sorte). Dentro de um ano serão avaliados os resultados do estudo para decidir que tipo de horário é mais benéfico para a sociedade de modo geral. “Esperamos que os trabalhadores de nosso modelo tenham menos dias de baixa por doença e se sintam melhor física e mentalmente após ter jornadas trabalhistas mais curtas”, explicou Pilhem.

A prova da redução da carga horária da jornada trabalhista obteve mais vezes resultados irregulares. Pilhem em suas declarações faz alusão a uma fábrica automobilística da própria cidade que obteve conclusões positivas. Seus opositores, no entanto, lembram o caso da cidade de Kiruna, que depois de dezesseis anos com a jornada reduzida decidiu voltar à jornada original por motivos econômicos e de saúde.

Seja como for, o que evidencia a decisão das autoridades suecas é a preocupação europeia com a duração das jornadas trabalhistas, que causam problemas que vão desde a conciliação trabalhista e familiar até à produtividade e eficiência das empresas. Há apenas algumas semanas, a França anunciou que engenheiros e consultores eram obrigados a desligar seus celulares e dispositivos eletrônicos corporativos durante 11 horas por dia para tentar acabar assim com as jornadas trabalhistas intermináveis. Isto é, desligar o computador e o celular do trabalho e esquecer deles até a manhã seguinte, uma ação que para muitos e muitas é inimaginável nos dias de hoje.

Na Espanha, o problema é quase maior devido aos horários que, por si só, já são estendidos, e à cultura do “presentismo” trabalhista que impera na sociedade há alguns anos e é agravada por fatores como a crise. No entanto, alguns setores começaram a criar iniciativas para que os horários de trabalho sejam moldados de modo que haja uma melhoria na vida social e familiar das pessoas. É o caso, por exemplo, da Associação para a Racionalização dos Horários Espanhóis (ARHOE) cujo manifesto defende por “uma profunda modificação dos horários na Espanha, que nos ajude a ser mais felizes, a ter mais qualidade de vida e a ser mais produtivos e competitivos.”

Um dos objetivos do manifesto é favorecer a igualdade entre o homem e a mulher, já que as jornadas trabalhistas que são maratonas afetam especialmente às mulheres. De fato, o partido político sueco Iniciativa Feminista, é um dos principais defensores do experimento da redução das horas de trabalho já que fará a vida trabalhista bem mais acessível às mulheres com filhos. Até o momento, as medidas que estavam sendo tomadas pareciam encaminhadas a adaptar a vida pessoal e familiar com o trabalho (com a extensão dos horários dos colégios, por exemplo) mas parece que as coisas começam a mudar, ao menos no resto de Europa. Do resultado do experimento de Gotemburgo pode ser que possam extrair os roteiros para avançar na direção adequada para a verdadeira conciliação.

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3 comentários para "E se reduzirmos a jornada de trabalho para 6 horas?"

  1. Fernando disse:

    Particularmente, faria diferente.
    Experimentaria um “dia a menos” de trabalho, de modo intercalado. Alguns empregados não trabalhariam na segunda, outros na terça, etc.
    Desse modo a medida traria outros impactos positivos, melhoria no transito, por exemplo.

  2. anelisesgomes disse:

    Melhor ainda então poderia ser se o trabalhador possuísse o direito em optar de qual forma ele melhor se sente e melhor produz: se com um dia a menos de trabalho na semana, ou pela carga horária diária reduzida.

  3. Humanitariamente parece ser muito bom. Mas economicamente, é preciso lembrar das pequenas empresas, que chegam a ter uma folha de pagamento correspondente a 30% a 40% do seu faturamento. Caso uma lei dessas fosse aprovada no Brasil, seria necessário que os salários fossem reduzidos proporcionalmente, pelo menos no caso destas pequenas empresas. Caso contrário, o que aconteceria seriam demissões, redução do tamanho das empresas, quando não o encerramento das mesmas, novamente ocasionando demissões e desemprego. As leis trabalhistas tendem a planificar o cenário empresarial quando a realidade não é nenhum pouco padronizada. Um tiro desses, no Brasil, certamente sairia pela culatra.

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