Israel atira e mata — mas pode perder

Morte a tiros de 17 palestinos desarmados, em 30/3, pode voltar-se contra Telaviv. Unidos em estratégia pacifista, Al Fatah e Hamas questionam ocupação e expõem sionismo a desgaste internacional inédito

Por Catherine Cornet, no Internazionale | Tradução: Luisa Rabolini (IHU)

Há meses que a sociedade palestina estava preparando “a grande marcha do retorno”, uma manifestação pacífica direcionada à opinião pública mundial para chamar a atenção sobre a causa palestina. Para a ocasião, os palestinos queriam mostrar-se unidos e pacíficos. O massacre de 30 de março, ao contrário, mostrou ao vivo a morte de 17 jovens desarmados e o ferimento de 1.400 pessoas por atiradores israelenses.

A marcha tinha sido convocada para comemorar a nakba, a “catástrofe” que há setenta anos mudou a vida de gerações de palestinos. 70% dos 2 milhões de moradores da Faixa de Gaza são compostos de refugiados cujas famílias foram removidas em 1948 dos territórios em que nasceu Israel. Não têm a possibilidade de voltar para casa ou sair do enclave palestino.

Em abril de 2018, após uma longa década de divisões internas entre Hamas e Al Fatah, entre a Faixa de Gaza e a Cisjordânia, os palestinos decidiram apresentar-se novamente para o mundo.

Abriu-se uma a nova página na luta palestina. “Os israelenses não puderam acreditar em seus próprios olhos”, comentou o escritor Elias Khoury no jornal pan-árabe Al Quds al Arabi. “Não conseguiam conceber que a grande Marcha do Retorno não fosse um movimento terrorista, mas uma iniciativa totalmente pacífica”.

Depois das declarações do presidente dos EUA, Donald Trump, sobre Jerusalém, dos cortes estadunidenses à Unrwa, a agência da ONU encarregada dos refugiados palestinos, e dos sinais de abandono da Arábia Saudita, que está se aproximando de Israel, “o sonho da direita israelense tornou-se realidade”, escreve al Quds al Arabi. E acrescenta: desde a subida ao poder de Trump nos EUA, a solução dos dois Estados desapareceu das negociações tanto de Israel como da comunidade internacional. A Embaixada dos EUA está para ser transferida para Jerusalém, as críticas dos EUA a Tel Aviv para a expansão dos assentamentos diminuíram, o presidente palestino Abu Mazen está no final do mandato, sem ter obtido qualquer resultado e o Hamas está cada vez mais isolado.

Diante do impasse diplomático e de uma situação humanitária insustentável, em Gaza muitos líderes palestinos estão inclinados para a solução de um Estado único. O paralelo com a África do Sul surge por si só e as referências à estratégia de Nelson Mandela enchem as páginas dos jornais árabes.

As organizações palestinas, os partidos e as facções armadas decidiram recolocar no centro o pacifismo e o direito dos refugiados de regressar às suas terras. Os doze pontos aceitos por todas as organizações envolvidas nos protestos em Gaza eram claros: “A única bandeira que poderá ser carregada durante a marcha é a palestina e os slogans dos partidos serão proibidos. Nós queremos apenas dar voz à Resolução 194 da assembleia geral da ONU (que estabelece o direito ao retorno) e aos slogans humanitários em árabe, inglês e hebraico”.

O encontro perdido

Quando os palestinos não contam mais nada nas negociações internacionais, tentam vencer a batalha moral na mídia. Quem escreve isso é o Hamas em seu site: “Queremos enfatizar que a marcha é pacífica. Vamos participar na marcha com nossas esposas e filhos. Queremos nos apresentar desarmados na fronteira das nossas terras ocupadas para levar nossa mensagem ao mundo. Nós também queremos alertar a ocupação israelense para não atacar uma multidão desarmada e pacífica, entre a qual haverá muitas mulheres, crianças e idosos”.

Mas a opinião pública internacional não apareceu ao encontro e a resposta da mídia ocidental não foi a esperada, explica o Middle East Monitor: “Os meios de comunicação ocidentais definiram os eventos da sexta-feira como ‘confrontos’, ‘combates’ ou ‘protestos pacíficos que se tornaram violentos e sangrentos’ como se os manifestantes palestinos desarmados e os soldados israelenses armados pudessem ser colocados no mesmo plano”.

As marchas pacíficas poderiam ser uma maneira de obrigar o mundo a desafiar a opressão israelense. Os soldados receberam a ordem de atirar para matar. Não houve “confrontos” ou “combates”, escreve Yousef Alhelou em seu artigo. “Os pacifistas palestinos foram esmagados pelo uso desproporcional da força israelense”. Em Israel as reações de repúdio foram muito fortes, escreve o Al Quds.

O jornalista Gideon Levy falou de um “massacre”, o diretor da B’Tselem, uma organização israelense de direitos humanos, pede uma investigação independente para esclarecer as circunstâncias da morte de civis.

Na Gaza Kobi Meidan, um respeitado jornalista da rádio israelense, declarou se sentir “envergonhado como israelense”. No entanto, parece que “a vergonha não seja mais permitida em Israel” com a extrema direita ao poder. O jornalista de rádio recebeu uma suspensão, após a transmissão.

A contraofensiva midiática palestina então se direcionou para as redes sociais: as imagens de vídeo do massacre deram a volta ao mundo. Da corrida de Addul Fattah Abdul Nabi, de 19 anos, correndo com uma roda na mão, que evita as balas para cair sob os tiros ao dar as costas aos franco-atiradores israelenses; às imagens da jovem cercada por uma cadeia humana de adolescentes que tentavam protegê-la com seus corpos. E mais ainda: as imagens do pequeno Mohammed Ayyash, “o menino com a máscara de cebola” colocada para se proteger do gás e até o rosto do jovem artista Mohamed Abu Nmr, 26 anos, que vinte e quatro horas antes de morrer tinha criado uma escultura de areia com as palavras “Estou voltando” na praia de Gaza.

O pequeno Mohammed Ayyash, “o menino com a máscara de cebola”

Essas imagens tornaram-se símbolos da resistência de um povo. Para isso “devem circular por todo o mundo”, escreve esperançoso Al Ayyam, o jornal palestino de Ramallah. Tareq Baconi, estudioso da Palestinian Policy Network escreve no Guardian que a Marcha de Gaza deve ser interpretada como “um despertador” para o mundo.

Baconi espera que apesar das violências sofridas, o movimento continue pacífico: “Como demonstram os funerais realizados em Gaza neste fim de semana, os protestos contra a repressão israelense muitas vezes acabam em tragédia. Se ainda é difícil promover uma resistência popular diante de uma resposta violenta e inevitável, os palestinos ainda assim devem refletir sobre o poder de desobediência civil ao afirmar seus direitos pessoais e coletivos inalienáveis. As marchas pacíficas na Cisjordânia, em Jerusalém Oriental, nas cidades israelenses e nos países vizinhos poderiam ser uma maneira de obrigar o mundo a desafiar a opressão israelense”.

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