CEITEC: o ataque à preciosa indústria de microchips

Enquanto diversos países investem em semicondutores, cruciais à Indústria 4.0, no Brasil, a única empresa do setor é pública – e alvo de vergonhoso desmonte. Bolsonaro a liquidou – e aprofunda nossa dependência tecnológica

Por Maurício Andrade Weiss, no Sul21

A indústria de semicondutores é provavelmente a mais concorrida e relevante no âmbito mundial. Eles estão presentes nos componentes dos principais bens de consumo duráveis contemporâneos, tais como smartphones, computadores, automóveis e eletrodomésticos e, com a ampliação e disseminação das “casas inteligentes” e automóveis autônomos, estarão ainda mais presentes na vida cotidiana. Os semicondutores são empregados não apenas nos bens de consumo, como em toda a infraestrutura de telecomunicação, inclusive satélites, na indústria de energia alternativa, destacando a transformação da energia solar em elétrica; bem como na diversidade cada vez maior de bens de capital e nas cadeias produtivas como um todo, a exemplo da indústria de alimentos e fármacos. Sua utilização ultrapassa a esfera do produto e da produção, envolve praticamente todo desenvolvimento do conhecimento humano e impacta diretamente a própria organização da sociedade (ver UFSCAR)

Em razão disso, as principais potências econômicas mundiais estão disputando acirradamente este setor e dispendo volumosas quantias para incentivar a indústria local, vislumbrando menor dependência externa. Esse movimento ficou explícito na “Guerra do 5G”, em que China e EUA disputam a oferta da infraestrutura dessa nova tecnologia, na qual o país asiático, através da empresa Huawei (maior fornecedora de equipamentos para redes e telecomunicações do mundo, atuante também na produção de bens de consumo, como smartphones), tem apresentado as melhores soluções em termos de custos e qualidade. Como resposta, além da tradicional pressão política, os EUA passaram a impor restrições a oferta de chips – cujo insumo base são os semicondutores – para a Huawei. O mecanismo principal dessa disputa se deu através da Taiwan Semiconductor Manufacturing Corporation (TSMC), pois esta utiliza tecnologia estadunidense.

Embora a China tenha domínio na produção de semicondutores para dispositivos móveis, suas empresas ainda estão muito atrás em termos de design e participação de mercado em semicondutores ligados a memória e lógica. Este país tem aplicado em torno de cinquenta bilhões de dólares nas últimas duas décadas na forma de subsídios para a indústria de semicondutores, o que potencializou uma indústria capaz de exportar US$ 101 bi em 2019, crescimento de 20% em relação à 2018. Contudo, a produção doméstica responde apenas por 30% da demanda interna (TRT WORLD), fazendo com que o país asiático se torne o maior importador de semicondutores do planeta, chegando ao impressionante número de US$ 350 bi em 2020, alta de quase 15% em relação ao ano anterior. Atualmente o mercado de semicondutores é dominado pela tecnologia dos EUA (oito das quinze maiores empresas). Já a produção se concentra em Taiwan, a qual respondeu por 60% da receita mundial em 2020 (Forbes).

Como forma de reduzir essa dependência até 2025, a China implementou um plano que envolve um financiamento na ordem de US$ 1,4 tri, o qual, segundo Ualace Moreira possui quatro dimensões: i) contratar milhares de engenheiros taiwaneses especialistas em produção de chips; ii) aliança de pesquisa com a Rússia, país que forma mais engenheiros do que EUA e principal destino para novos investimentos da Huawei; iii) produção de chips de última geração (largura de porta de transistor de 7 nanômetros) na China; e iv) linha de produção de chips que não requer equipamento estadunidense.

A escassez de semicondutores e chips não é exclusividade para empresas chinesas. Além da crescente demanda decorrente da infraestrutura e de aparelhos que utilizam a tecnologia 5g, as mudanças de hábito na pandemia que geraram maior procura por televisores, computadores etc., em combinação com uma nova geração de consoles de videogames da Sony e Microsoft e inovações do setor automobilístico, intensificaram a busca por semicondutores. Há ainda a restrição pelo lado da oferta, decorrente da pandemia no ano passado e problemas pontuais, como incêndio em uma fábrica de semicondutores e questões climáticas. A escassez de chips gerará interrupções em diversos setores, gerando perdas expressivas. A título de exemplo, a Ford e GM combinam para um prejuízo estimado de US$ 4,5bi em decorrência dessa paralização (The Gardian e BBC).

A situação atual tem ligado sinal de alerta generalizado. Países europeu incluem como objetivo a ampliação de semicondutores no continente, a qual inclui um plano de 145B€ (Paulo Gala). A Índia tem oferecido auxílio de mais de um bilhão de dólares a cada fábrica de semicondutores que se propuser a se instalar no país. Essa é parte de uma estratégia mais ampla para o país se tornar o segundo maior produtor de smartphones do planeta, ficando atrás apenas da China (Reutes).

Os EUA, por sua vez, reconheceram a importância de não apenas investirem no desenvolvimento de novos produtos, como também a necessidade de retomar a produção internamente. Em 1990, os EUA representavam 37% da produção mundial e atualmente representa apenas 12%. Para tanto, o Plano de Emprego Americano que conta com US$ 2,3 tri, destinará US$ 50bi para a promoção da indústria de semicondutores. Ainda há um projeto no senado para impulsionar a pesquisa e desenvolvimento de US$ 110 bi, no qual o setor de semicondutores está incluso (Valor).

A preocupação com os rumos da produção de semicondutores está presente até mesmo em Taiwan. Os esforços se concentram em evitar que a China prossiga com seu plano de contratação de experientes engenheiros taiwaneses, para tanto o governo taiwanês solicitou que todas as ofertas de emprego na China fossem retiradas das agências de emprego. A relevância desse setor é tão significativa que envolve aspectos geopolíticos. Apesar de a China há muito tempo ver Taiwan como parte de seu território, essa relação tem azedado como consequência da disputa tecnológica entre EUA e China (Nikkei Asia).

E como o Brasil tem se inserido nessa acirrada disputa internacional? Bem, demitindo 34 trabalhadores altamente qualificados, dando prosseguimento ao plano de liquidação da CEITEC, localizada em Porto Alegre, que é a única empresa brasileira que reúne capacidade de desenvolvimento e produção no segmento de semicondutores. Mais especificamente, ela possui “capacidades técnicas nas áreas de projeto de dispositivos, desenvolvimento de produtos, pesquisa e desenvolvimento e microfabricação de dispositivos eletrônicos, sensores, dispositivos fotônicos, dispositivos microfluídicos, entre outros”. Em outros termos, a empresa “… projeta, fabrica e comercializa circuitos integrados para diferentes aplicações”, tais como “identificação animal, identificação veicular, identificação pessoal, identificação de entidades e identificação sensorial, além de serviços relacionados ao setor”.

E qual seria o motivo alegado pelo governo federal para sua liquidação? A falta de lucros. Já que teria sido investido quase um bilhão de reais e a empresa ainda estaria apresentando prejuízo. Essa forma de avaliação é extremamente simplista e míope diante da importância para o país em ter uma empresa inserida no setor de semicondutores. Desde o impedimento da ex-presidente Dilma, tem prevalecido na condução do país a perspectiva que segue a lógica da financeirização da economia.

Um dos aspectos centrais de uma economia financeirizada é a priorização do curto prazo e da valorização na forma líquida, em detrimento do longo prazo e da valorização na forma física. Como apontado por Dallery (2009) e Stockhammer (2010), tais mudanças nas prioridades são reconhecidas na literatura como as estratégias do maximum shareholder value, isto é, maximização do valor acionário. Nessa estratégia, as firmas deixam de realizar projetos cujo retorno não seja rápido e que os resultados não possam ser vislumbrados pelo mercado financeiro. Nesse sentido, empreendimentos que possam ser altamente lucrativos, mas cujo resultado além de demorado é incerto, deixam de ser realizados.

Em um regime como o descrito acima, os investimentos e as inovações se dão no core da indústria, sendo que ambos devem refletir em aumentos na valorização das ações. Os investimentos para expandir a produção não se dão mais com expansão das plantas industriais, mas sim na compra de concorrentes. Um aspecto que reforçou essa dinâmica foi a estratégia de downsize and distribute. O downsize pode ser entendido como uma redução da estrutura da empresa, ou seja, venda de ativos físicos e da força de trabalho. Já o distribute é a ideia de que os gerentes deveriam administrar as empresas em benefício dos acionistas, o que implica a máxima distribuição possível de recursos. Nesse contexto, a firma passou a ser vista como um conjunto de ativos negociáveis a serem mantidos ou vendidos, de acordo com o retorno que pudessem proporcionar.

Embora a concepção da financeirização da economia tenha sido desenvolvida inicialmente para o setor privado, ela se encaixa perfeitamente no que tem sido adotado no país desde 2017. A primeira evidência foi em relação à Petrobrás, iniciando pelo fim da política de priorização do conteúdo nacional através da lei MP 795/2017 e, em seguida, pelo projeto de desinvestimento da Petrobrás, seguindo a lógica de concentrar as atividades no core da empresa, reduzindo a estrutura da empresa, priorizando a distribuição de lucros e buscando valorizar as ações. Mas foi no governo Bolsonaro, cujo projeto é claramente privatista, que este processo se acelerou. Apenas no primeiro ano, foram vendidos R$ 70,9 bilhões em ativos da Petrobras. E o plano estratégico de 2021-25 é para novas vendas entre US$ 25 bilhões e US$ 35 bilhões.

O caso da CEITEC é ainda mais grave, pois sequer o governo buscou alternativas para se realizar um projeto de privatização. No ramo de semicondutores, seguir a lógica da financeirização simplesmente inviabiliza projetos fundamentais para que o país seja competitivo. Conforme argumenta Ualace Moreira, é esperado que se observe prejuízo no curto prazo quando um país opte pela estratégia de catch up e upgrading em suas estruturas produtivas. No caso específico do setor de semicondutores, Júlio Leão, que possui 7 patentes depositadas e 2500 citações e é ex-porta-voz da Associação dos Colaboradores do CEITEC, esclarece que o horizonte para uma empresa amadurecer nesse setor é de 20 anos e que a CEITEC estava prestes a ser lucrativa financeiramente.

As expectativas levantadas por Júlio Leão são referendadas pelo crescimento das receitas nos últimos anos. Em 2018 se observou R$ 7,03 mi, em 2019 R$ 10,14 mi e em 2020 saltou para R$ 15,46 mi, superando a meta de R$ 13,51 mi. O aumento da receita foi acompanhado pela redução das despesas, tanto em termos de despesa pessoal, quanto em termos de despesa operacional, possibilitando que o prejuízo saísse de R$ 23,91 mi em 2017 para apenas R$ 4,17 mi em 2020. Como consequência, a dependência financeira foi reduzida, ficando inclusive inferior à meta estabelecida.

O resultado de 2020 também se mostrou positivo para as metas de desenvolvimento de produtos e processos, protótipos em novos processos produtivos e produtos ou aplicações disponibilizados. Esse desempenho recente corrobora outro aspecto fundamental levantado por Júlio Leão, em entrevista ao Revolução Industrial Brasileira, ele argumenta que a CEITEC tem potencial exponencial para desenvolver novos produtos, sendo capaz de concorrer com grandes players internacionais, dando um salto tecnológico e se expandindo para novos setores em um prazo de 10 anos, inclusive no mercado de etiquetas prontas, cuja rentabilidade é bem superior à de chips.

Ainda vale uma observação adicional, mesmo que o governo federal tenha como único objetivo seguir a lógica da economia financeirizada, ignorando qualquer aspecto estrutural de longo prazo e relevância de ter uma empresa no setor de semicondutores com potencial de concorrer com players internacionais, a decisão de liquidação da CEITEC está economicamente equivocada. Quando se faz a análise microeconômica de dar prosseguimento ou não para uma firma, não se deve levar em consideração os custos passados, pois eles são irreversíveis (sunk costs). Nesse sentido, não importa para o cálculo os quase R$ 1 bilhão já investido, mas sim o potencial de lucro, o que a dinâmica recente mostra claramente que deve ser alcançado já em um curto período.

Algumas decisões dos governos podem trazer prejuízos importantes para a economia de um país, mas que podem ser revertidos posteriormente. A conclusão da liquidação da CEITEC, ao contrário, se enquadra naquele tipo de medida que pode ser irreversível, ou revertida a um custo altíssimo e desnecessário. Desta forma, não se pode esperar uma alteração de rumo em eventual novo governo eleito. A interrupção do processo de liquidação da CEITEC é algo urgente e precisa ser amplamente debatido pela sociedade.

Maurício Andrade Weiss é professor do Departamento de Economia e Relações Internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)

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