Capão Redondo: narrativa sobre uma ocupação na periferia

Como aprendizes da Fábrica de Cultura passaram a geri-la autonomamente, ampliaram atividades e recebem artistas como Mano Brown e Kiko Dinucci

Por Débora Lopes, na Vice

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Como jovens aprendizes da Fábrica de Cultura revoltaram-se contra restrições ao uso do espaço público, passaram a geri-lo autonomamente, ampliaram atividades e recebem artistas como Mano Brown e Kiko Dinucci

Por Débora Lopes, na Vice

O principal ponto cultural do Capão Redondo, distrito da região extremo-sul da cidade de São Paulo, está ocupado desde o dia 24 de junho. Criação do governo do estado, a Fábrica de Cultura agora é moradia e ambiente de trabalho dos ocupantes que, até então, eram aprendizes no local – a maioria é menor de idade. Sem os educadores, os próprios alunos (geralmente os mais experientes) ministram aulas e oficinas. Na última quinta (16), a unidade do Jardim São Luís, também foi ocupada.

“É uma estrutura foda, de dar inveja”, justifica José*, 17, que participa da ocupação. Apesar dos diversos andares e espaços bem arquitetados, como a sala de música repleta de instrumentos, a biblioteca com computadores e acesso à internet, um espaço propício para aula de circo, quadra e refeitório, os aprendizes andam insatisfeitos.

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Vista de dentro da Fábrica de Cultura para a rua. Foto: Felipe Larozza/ VICE

Entre as reivindicações da ocupação estão os pedidos de transparência com a comunidade local, merenda e que haja uma consulta ampla da parte da administração com os aprendizes e demais pessoas que frequentam o lugar. “Eles colocam pessoas pra administrar aqui dentro que não tem vínculo nenhum com a comunidade”, pontua José.

Apesar de ser uma empreitada do governo estadual e da Secretaria de Cultura, a Fábrica do Capão está sob os auspícios da Poiesis, uma Organização Social (OS) executora de políticas públicas na área cultural. A entidade recebe um repasse anual de R$ 33 milhões anuais para manter cinco fábricas pelas periferias de São Paulo, que é dividido com a Catavento, entidade que ministra outras cinco unidades.

De acordo com relato dos ocupantes, a Poiesis proibiu os educadores de frequentarem o espaço atualmente.

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O prédio da Fábrica de Cultura no Capão Redondo. Foto: Felipe Larozza/ VICE

O estopim para a decisão de tomar o lugar foi a diminuição no horário de funcionamento da biblioteca. “Muitos alunos vinham aqui pra imprimir trabalho, pegar livro pra fazer pesquisa e tudo mais. O pessoal que estuda à tarde ou faz curso, ficou prejudicado. Depois dessa privação direta, o pessoal cansou e resolveu ocupar”, explica José.

Aprendiz nos cursos de MC e prática de banda, Walbert Justiniano, 23, concorda com José: “A população aqui precisa da internet, precisa dos livros e do espaço. E como a criançada não tem muita coisa pra fazer pela área, eles ficavam até as 20h. O que é muito bom. Você os afasta do crime, das drogas. Aqui dentro, eles têm contato com a cultura”.

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O músico Kiko Dinucci tocando com os aprendizes da Fábrica de Cultura do Capão Redondo. Foto: Felipe Larozza/ VICE

A observação de Walbert faz sentido. Ao buscar o bairro Capão Redondo no Google, o segundo complemento que aparece é a frase “é perigoso”. A dúvida de quem procura na internet um referencial sobre o bairro no extremo sul da cidade de São Paulo não é a toa. De acordo com a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP), enquanto todos os bairros da capital tiveram diminuição no número de homicídios dolosos (quando há intenção de matar), o Capão teve um aumento de 59% de 2014 para 2015.

“Quando a biblioteca fecha cedo, eles ficam aqui fora, expostos à marginalidade. Querendo ou não, somos marginais. Fora que são enquadrados pela polícia, porque são negros e pobres. E ali dentro não. Tem segurança, cultura, educação, arte”, justifica o aprendiz.

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Um dos alunos dançando na sala de música. Foto: Felipe Larozza/ VICE

A Poiesis, por sua vez, informa que cedeu às reivindicações do horário e fez com que a biblioteca permanecesse funcionando em tempo integral.

Outro ponto constantemente levantado pelos ocupantes durante as entrevistas com a Vice foi uma possível demissão de professores e o corte de alguns cursos. “É de extrema importância um curso de hip-hop, de MC, no Capão Redondo. Será um dos cursos cortados. O que é inadmissível um curso periférico ser cortado da periferia. Então, o pessoal começou a ficar cada vez mais angustiado”, relembra Walbert.

Perguntada sobre o assunto, a Poiesis afirmou que a programação da Fábrica de Cultura é flutuante, e que um curso pode não ser ministrado durante certo período, mas que pode voltar posteriormente. “Não há demissões na Fábrica como os aprendizes estão dizendo. Há, sim, uma especulação sobre demissões que ocorreriam futuramente no espaço. Demissões, contratações e promoções são eventos rotineiros em qualquer tipo de empresa”, informou a assessoria de imprensa da entidade.

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O músico Kiko Dinucci e os aprendizes da Fábrica de Cultura do Capão Redondo. Foto: Felipe Larozza/ VICE

No dia em que a reportagem da Vice visitou a Fábrica do Capão, o músico Kiko Dinucci realizava uma roda de conversa misturada com aula livre de música. Batuques, pirações e muito freestyle emergiram dos instrumentos e dos corpos dos alunos, que dançavam livremente pela sala e se revezavam diante de instrumentos como xequerê, conga, xilofone, pandeiro, tamborim, guitarra, baixo e bateria – todos mostrando aptidão e dedicação. “Me apresentei, toquei umas coisas. Fiquei falando sobre caminhada, procura estética”, contou Kiko no fim da aula, já com a guitarra nas costas. “A maioria que estava dentro da sala tem pretensão de ser artista. Falei sobre começar do zero, sobre os processos.”

Alguns artistas têm aparecido pela ocupação. É o caso do Mano Brown, do Racionais MCs, grupo que nasceu no Capão Redondo e sempre retratou a região em suas letras.

Além de ensejar as pautas que mantém a ocupação acontecendo, Walbert detalha qual é o grande objetivo da meninada que ocupa o lugar há mais de 20 dias: “O sonho, a longo prazo, é que a população do Capão gerencie a Fábrica de Cultura. Mas a transparência, a biblioteca, os professores e a garantia dos cursos essenciais aqui são as principais reivindicações”.

*O nome do entrevistado foi substituído por um fictício para proteger sua identidade.

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