Breve crônica do Suriname, vizinho desconhecido

Um jornalista brasileiro produz informações e imagens sobre país de apenas 500 mil habitantes – que falam holandês, praticam o islamismo e tornaram-se independentes apenas em 1974. Por Jaqueline Paiva, editora do blog Além dos Andes

O país de apenas 500 mil habitantes fica logo ali do outro lado da fronteira com o Pará, mas não há nenhuma ponte ou estrada que una os dois povos. Para chegar lá só por avião ou por caminhos onde os índios fazem o papel de guia. Estamos falando do Suriname, um dos 10 países que têm fronteira com o Brasil, mas sobre o qual conhecemos muito pouco.

Há algum tempo queria falar sobre o Suriname, mas só agora consegui o relato de um ex-colega de trabalho, o jornalista Emerson Penha, que esteve lá há quase dois anos. Ele é um experiente repórter da TV brasileira que foi ao país cobrir uma revolta popular. O texto está abaixo. Aproveite!

Quem é este vizinho desconhecido

Emerson Penha

 

Ruas da capital Paramaribo, Suriname 

Imagine um país cuja língua oficial seja o holandês; a religião predominante, o hinduísmo; nas ruas, os carros trafegam pela esquerda, em mão inglesa. Não se trata de nenhuma ex-colônia do extremo oriente, mas do Suriname, nosso vizinho ao norte do Pará. O país é pouco menor que o estado do Paraná, mas a população não chega a meio milhão de pessoas – a metade na capital, Paramaribo – o que faz do Suriname um dos lugares de menor densidade demográfica na Terra, apenas 2,8 habitantes por quilômetro quadrado.

 

Casas que lembram a Holanda: o lado rico de Paramaribo

A culinária do Suriname é variada, por conta da formação da população – gente de todos os cantos da terra. Há muitos pratos com frutos do mar. Os camarões, por exemplo, são gigantescos – quatro deles enchem um prato. Ao par disso, o mais comum nas ruas é ver pequenos restaurantes de comida indiana e javanesa. Aliás, o que mais atrai o turista é mesmo passear pelas ruas; as casas coloniais holandesas, de madeira, dão a impressão de se caminhar por uma pequena cidade dos Países Baixos (o calor amazônico, no entanto, nos lembra de onde estamos…). O grande Rio Suriname, que banha a capital, também merece um passeio de barco, principalmente ao pôr-do-sol.
Colonização holandesa

Desde o século XVII, os holandeses dominaram o território, explorando recursos naturais, principalmente a madeira de lei da Floresta Amazônica e a bauxita, mineral do qual se extrai o alumínio e que até hoje é produzido em larga escala por ali, ao ponto de ser a maior riqueza e a principal fonte de renda do Suriname.  Em 1974, contra a vontade do povo surinamês, a Holanda deu independência ao país. Desde então, uma sucessão de ditadores e governos corruptos instalou-se.  Não há eleições diretas, os governantes são escolhidos pelo parlamento.

 

Templo em Paramaribo: tradição religiosa múltipla veio com imigrantes de várias das ex-colônias

 

Ao longo dos séculos, os holandeses trouxeram habitantes de suas outras colônias mundo afora para ocupar o território. Daí a profusão de descendentes de javaneses e africanos, que levaram para a América Holandesa o hinduísmo e o islamismo, principais religiões do Suriname.

Com o Brasil, a fronteira se faz nas altas e íngremes montanhas do Tumucumaque – uma sucessão de paredões naturais praticamente intransponíveis, no meio da floresta cerrada. Não há estradas entre os dois países, apenas trilhas conhecidas pelos índios e usadas para o tráfico de armas, principalmente. Esse tipo de ação criminosa é facilitada pelo fato de o Suriname ter direito a usar o porto de Roterdã, na Holanda (o maior da Europa), sem que a União Européia fiscalize as cargas embarcadas.

O ditador Dési Bouterse, procurado em vários países por tráfico de drogas e armas (inclusive no Brasil) voltou ao poder em 2010.

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