A travesti que virou mãe e a família que devia acabar

A maternidade veio. Mas a rejeição por uma instituição violenta e opressiva, destruidora de dissidências, não mudou. Não há sacrifício ou redenção. Linda nasceu, mas não amainou seus sonhos por outras forma de vida coletiva

Por Amanda Palha, no Marco Zero Conteúdo

Passava um pouco das 19h daquela sexta-feira quando tudo na casa aquietou. Uma luz forte que entrava pela janela entreaberta rasgava o escuro do quarto de casal e repousava sobre o corpo de Apollo, que era temporariamente a única fonte de algum som. Uma pausa, então um grito que anunciou a primeira das últimas contrações. Gradualmente, o cômodo passava a ser habitado por um ser a mais, que ganhava lentamente espaço ao ar livre. Sincronicamente, uma luz dourada começou a brotar no nosso peito, claramente visível atravessando nossa pele, e a gravidade no ambiente pareceu se alterar. Enquanto Linda Leone saía, a luz se expandia gradualmente para as extremidades e nosso corpo, notamos, já não tocava mais o chão. Um forte coro de trompetes acompanhou a saída definitiva do bebê, enquanto nossos corpos levitavam no centro do quarto e a luz que vinha da janela era interrompida pelo vulto de anjos, espíritos e entidades diversas. Até o Sagrado Feminino tentou aparecer, mas ficou um pouco confuso e não chegou a entrar. A parteira, com os cabelos a um vento invisível, ergueu Linda como Simba em nossa direção e a luz do nosso corpo explodiu, lançando-nos à cama, gravidade restaurada, de almas expurgadas.

Estávamos então lá, nós três: pai, mãe e filha, três seres completamente novos. Senti tudo novo. Eu não queria mais o fim da Família, não me sentia mais inegociavelmente feminista e a revolução parecia, ali, uma palavra antiga que o tempo enrugou. A criança nasceu e renasci com ela, quase que exorcizada. A travesti, enfim, virou mãe.

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Porém não.

Teve muito grito, muito sangue, muita dor. Teve muita violência também. Nove meses de violência, aliás. Institucional, obstétrica, social. E mais um tanto depois. E teve beleza, também, teve muita beleza. E um tanto de apoio e empatia, aqui e ali. E certamente nos transformou e nos transforma todos os dias. Violentamente, aliás. Valores, noções de tempo e espaço, noções de “eu” e de “nós” são desestabilizados a cada passo mais firme que a cria dá. Sinto que é muito como um luto, até. Mas uma coisa que o processo de se tornar mãe não é, certamente, é uma redenção.

E alguém pode dizer “óbvio que não!”, mas imagino que outras mães LBT entendam ao que me refiro quando falo das expectativas, a nosso respeito, da maternidade como redenção. Alguns pais GBT também, sobre paternidade. E trabalhadoras do sexo. E mais um tanto de gente, mas o ponto é: o estigma de marginalidade moral, impresso em vidas vistas como devassas, perniciosas, infecciosas até, tropeça de repente nessa coisa romantizada e sacralizada que é a maternidade. A única conclusão possível para o olhar coletivo, moralmente e estruturalmente condicionado – cristão até quando ateu, inclusive – é a expectativa de redenção.

“Fulana é lésbica, mas tá com Cicrana e tão até tentando ter filho!”. “Beltrano é gay, mas é super tranquilo, ele e o companheiro tão até pensando em adotar”. “É travesti mas tem uma vida direita, tem família e tudo”.

“São meio diferentes, mas são gente de bem”.

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No meu caso, esse caldo de expectativas e cobranças exorcísticas envolvendo a maternidade foi jogado pra cozinhar numa panela muito estranha: foi enquanto meu companheiro gestava, no início do ano passado, que viralizaram recortes de um vídeo onde eu afirmava que deveríamos, sim, lutar para destruir a família.

Trata-se de excerto de um debate em que participei no seminário Democracia em Colapso, da Editora Boitempo, em 2019. Recortado de uma debate de duas horas, o trecho de alguns segundos rodou portais evangélicos, perfis de influenciadores cristãos e líderes religiosos e mesmo de candidatos à vereança, sempre acompanhado de ofensas pessoais e teorias conspiratórias sobre uma “ditadura da ideologia de gênero” ou algo assim. Meus canais de comunicação ficaram lotados de ofensas e ameaças de todo tipo.

De repente, virei “a travesti que quer destruir a família”.

Só que a travesti-que-quer-destruir-a-família também é a travesti-que-virou-mãe. E a travesti-que-virou-mãe, tão perto, tadinha, de ser purificada pela maternidade, falou que quer destruir a família!

Para grande parte de quem saiu em minha defesa naquele processo, a conclusão foi simples: “é que a Amanda se referia à família tradicional, né, essa coisa normativa”. Justifica tudo, né? Afinal, se ela está formando uma família, então não poderia ser contra qualqueeer família… Ela agora até é mãe!

Equivocam-se, ainda que com boas intenções. Minha posição política nunca foi “contra a família tradicional”, foi contra a família. E eu sei que é menos palatável assim, e que é até mais difícil de me defender por isso, mas é o que é. E não só minha, aliás, porque eu não inventei nenhuma roda sobre isso. São fartas as produções teóricas e políticas sobre o problema da família como instituição, como forma de organizar a vida e a reprodução na nossa sociedade. Não “a família tradicional conservadora”, como se fosse uma questão do tipo de família. A Família, essa forma insalubre e violenta de organizar socialmente a produção industrial de corpos mercadoria.

Se a expectativa era a de que a maternidade me amaciasse sobre isso, preciso contar que a travesti-que-quer-destruir-a-família e a travesti-que-virou-mãe são na verdade amicíssimas!  Cada dia na rotina com Linda me comprova o quanto essa instituição é violenta. Física, emocional e psicologicamente violenta. Me faz pensar que é preciso muito condicionamento coletivo, muito reforço ideológico e muita coerção social pra sustentar a ideia de que essa é uma forma saudável de organizar a vida social: uma ou duas pessoas, associadas, últimas responsáveis pela manutenção da própria vida e da garantia de sobrevivência, formação, educação e criação de uma criança. A quantidade de trabalho envolvida nisso – tanto remunerado, quanto doméstico, quanto emocional – é absurda e não só incompatível com uma vida saudável, como também absolutamente inviável de ser dada conta com qualidade.

Amanda Palha e família
Apolo, Amanda e Linda. Crédito: Arquivo Pessoal

A gente erra o tempo todo. Erra com nós mesmos. Erra um com o outro. Erra com ela. É um sistema que não é feito pra funcionar bem, só pra funcionar, a pulso mesmo.

É preciso muito condicionamento e violência para nos convencer de que se trata de um sacrifício lindo e natural, ao ponto de nos impedir de sonhar (ou lembrar) formas outras de dar conta da vida coletiva. Formas outras de cuidar, de criar, de compartilhar e de viver.

Eu posso ter “virado mãe” quando Linda nasceu, mas a gente vai sendo feita mãe desde cedo. Desde sempre. Mesmo pela negação e pela marginalização – e nosso caso, LBTs, quase sempre pelo segundo. Desde sempre somos ensinadas pelo mundo que a família é o grande referencial do bom e do bem; que a adequação a essa instituição é o termômetro para a felicidade; que esse é o destino natural de todo mundo; que desviar das suas normas nos faz sujas, nos custa violências e violações; que essa instituição é a fonte última de sentido para nossas vidas; que ser quem a gente é ofender essa instituição; mas que essa instituição sempre estará lá para nos redimir.

Mas sabe? Não existe realmente redenção. O nascimento de Linda não cicatriza as feridas que me trouxeram até aqui, nem as de Apollo; não me blinda das violências que a sociedade reserva para corpos como o nosso e certamente não arrefece meu desejo e meus esforços de revolução. Pelo contrário, só os fortalece. Criar Linda me faz querer mais do que nunca destruir a família, para que ela e as próximas possam conhecer outra forma de viver.

Porque a mão do meu companheiro segurando a minha, não é sobre “família”, é sobre carinho e cumplicidade. O respirar tranquilo da minha filha quando deita no meu colo é sobre um bem-querer que explode o peito. O cheiro tranquilizante do colo de mainha é sobre segurança e gratidão. A vontade de estar junto, o querer bem, o amor se assim quiser chamar, nada disso “é” família. Apenas “estão”. E por estarem hoje, “família”, estão também cheios de coisas que não são. É para que um dia possam ser plenos que precisamos construir outras formas para eles estarem.

Amanda Palha é travesti, bissexual, mãe, feminista e anticapitalista. É educadora popular e Trv. em estudos de gênero.

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